Escrito entre 1834 e 35 o “Carnaval” de Schumann não é uma das obras para piano mais afamadas, mas é uma das que revisito regularmente, uma questão de paixão!
Ontem dei comigo a escutar as versões de Arrau, Michelangeli, Rubinstein, Rachmaninov e Gabrilov, as que possuo. A separar estas gravações correm cerca de 90 anosl. A separar estas gravações estão concepções estéticas muito distantes, opostas quiçá, da visão do que foi o romantismo musical do qual Schumann foi pioneiro.
Ora se em Rubinstein não podemos saber com propriedade se a versão que gravou seria ou não aquela que autenticamente sentia (este excelente pianista tinha a invulgar capacidade de interpretar consoante o(s) padrão(s) estético(s) do público a quem se dirigia) já Arrau era mais fiel a si próprio embora as suas interpretações variassem, naturalmente, consoante o estado de espírito de que momentaneamente se encontrava embuído, conseguindo-se uma visão mais próxima do que pretendia dizer e fazer sentir. A interpretação de Arrau afasta-se muito da estética predominante à época, a da lirismo quase etério do piano romântico introduzido por Rubinstein, muitas vezes com menor respeito pelo texto dos compositores, exagerando rubatos e acelerandos.
Aliás, o “Carnaval” de Arrau é esteticamente mais moderno e respeitador do texto que a posterior gravação de Michelangeli. Mais que Rubinstein, Michelangeli leva ao extremo do “mau gosto? a estética “lamechas? que se impôs um pouco por todo o mundo do pós-guerra. Não é só não respeitar o texto, é toda uma concepção da obra que entronca radicalmente numa visão doentia e entristecida do romantismo de Chopin que teimosamente imperou e ainda hoje nos agride em certa escola pianística portuguesa muito em voga e aclamada “ad nauseum”!
Curiosamente, muito antes de Rubinstein, Arrau e Michelangeli, Rachmanivov dá-nos uma visão apaixonada e violenta da obra, visão essa que radicava no final do romantismo musical entronado por Liszt e, mais tarde pelos pós-românticos. O piano era abordado orquestralmente e as obras românticas interpretadas com o exagero sentimental da paixão incontroladamente arrebatada. Rachmaninov cumpre o texto? Nem por isso, a sua invulgar capacidade técnica aliada ao extremismo passional conduz a uma interpretação emocionalmente intensa, intercalando andamentos muito mais rápidos que aqueles que Schumann indicava com pianíssimos bem pronunciados, introduzindo-nos numa atmosfera assaz densa e plena de emoções. Diga-se, contudo, que Rachmaninov não explora os rubatos e acelerandos intercalados que no futuro viriam a descaracterizar a interpretação romântica do piano.
É, no entanto, com a interpretação de Gabrilov que encontramos o equilíbrio entre o escrupuloso respeito pelo compositor e o arrebatamento passional que a interpretação romântica tem de encerrar. Alia a intensidade à quase etéria emoção, nunca se desviando das pretensões iniciais do compositor. De todos estes Carnavais, o de Gabrilov é aquele que sinto o meu “Carnaval”, aquele que Schumann concluiu em 1835.
É assaz curioso vermos a evolução da estética aplicada no tempo! Tal qual a história é a visão do passado com os olhos de cada presente!
Gabrilov foi melhor que os restantes? É evidente que sim, para mim!
Para outros não? Pois bem, gozem as emoções os estados de alma a que a música nos conduz, tão-só! Este é o real valor da arte!
Porque escrevi sobreisto? Não sei, aconteceu, apeteceu-me, enfim…, porque acho que, de facto, o “Carnaval”, op.9 de Schumann, é uma das grandes obras de arte do início do romantismo, contrariando o vulgo dos musicólogos.


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Uma Resposta to “Schumann – Carnaval op.9”

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  1. [...] “Carnaval“, op. 9, 1834/5…, como não te conhecer? [...]

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