1. – Dizem-nos os textos desta noite que Deus é o nome do sopro-palavra que fez emergir aquilo que dormia no abismo do não ser. Dizem os textos desta noite que Deus é o sopro e a palavra que criam a possibilidade de ser um novo corpo e uma nova vida. Que a “elevação” de Cristo começou na Cruz. Que a nossa ressurreição só é possível a partir do nosso baptismo em Cristo e no seu corpo de glória. Que a comunidade cristã se tornou o corpo do Cristo vivo.

2. – “Porque buscais entre os mortos aquele que está vivo? Os anjos delimitam e articulam entre si um espaço directamente referido ao corpo de Jesus na sua integridade (da cabeça aos pés) e à sua sepultura. Eles assinalam o corpo ausente que as lágrimas de Maria procuram.

3. – O sepulcro aberto é um ponto de encontro e de separação, um espaço a ler, a ver, a acreditar. Mas ler não é ver. O sepulcro propõe um espaço a ler. Entre ver e acreditar é preciso ler para entender. Ler não é reconstituir um mundo verosímil mas articular as ligaduras e o sudário às letras da Escritura. Os traços descobertos no sepulcro, marcas da morte, da ausência e do vazio, constituem a Escritura como um texto cuja opacidade atesta a vida da palavra e cuja textura remete para o horizonte dum corpo a vir e para a impossibilidade de nos apropriarmos dele num espaço homogéneo.

4. – O sepulcro aberto separa aparentemente um aqui e um algures: se não está aqui é porque o levaram algures. Mas de facto o discurso da narrativa deforma o espaço homogéneo: Maria vê Jesus (sem o conhecer) fora do sepulcro. Há uma outra face do visível a procurar, a acreditar, dizem os anjos. A ressurreição consiste em ter um corpo diferente do corpo físico; ressuscitar é tornar-se um corpo histórico. Uma comunidade.

5. – Os textos desta noite dizem-nos que Deus não recusou partilhar a grande e profunda tristeza dos homens. Que a recusa da encarnação é o ferro de lança do pecado. Recusar estar no meio dos irmãos perdidos, encarnado como eles, exposto aos mesmos perigos e desesperos é não estar a seguir Jesus Cristo que foi enviado pelo Pai a esse lugar de cruzes que é a vida. Dizem estes textos que a recusa da ressurreição é outro ferro de lança do pecado. Que Deus em Cristo nos salva do poço em que nos fechamos, que vem ter connosco na nossa carne, na miséria e na morte. Na cruz de Cristo o real da vida que se dá é mais forte que a imagem da morte que a esconde, a graça do dom é mais forte que o pecado que, na aparência, a nega.

6. – São as heresias que sublinham unilateralmente a humanidade de Cristo, a sua exterioridade à transcendência divina. São as heresias obsecadas pelo puro e pelo original, maniqueístas, que bloqueiam a fecundidade da incarnação e da ressurreição. A radicalidade da determinação do infinito no infinito é a Paixão: Deus enquanto Filho morre. O infinito sobe ao calvário, dizia Hegel. Mas a ressurreição significa a contra-determinação (o limite da morte) pela infinidade do Pai: o Filho resssuscita e vai ao encontro do Pai.

7. – Há noites que metem medo. Porém, o que mete medo é a noite do imaginário sem desejo, não a noite da fé. Donde vem o medo senão de deixarmos de ver como se vê agora? “No fundo da sua Noite, a nossa carne é Deus”, escreve M. Henry (I, 373). “Deus gera-me como a si próprio” dizia Eckhart. Não podemos recusar a história e a linguagem em que a árvore da vida e a árvore do saber se tocam. Não, Paulo não traiu o “alegre saber” de Jesus, como Nietzsche suspeita. Não, o cristianismo não é a religião absoluta.

8. – Tudo conspira contra a fé no além da morte: a mentalidade do trágico, a tecnologia, os genocídios vários, a sabedoria do mundo, epicurista, surda. No meio desta paisagem de cinza só os mártires enfrentam o desafio da fé na ressurreição. O que talvez seja um traço fundamental do viver dos nossos dias é a perda da experiência do limite. “A nossa cegueira actual (naquilo que podemos ver dela) não se estabelece no quadro da obediência/desobediência, antes da suspensão da experiência do limite, que a actividade científica puramente operatória traduz como ‘porque não sabemos’, ‘porque ainda não foi possível, mas todos os esforços vão nessa direcção”, mesmo que o limite se chame mortalidade, a essência mortal do homem: se os nossos canais não se entupissem, não morreríamos, procuremos um expediente para tornar eterno o trânsito dos nossos canais” (Filomena Molder).

9. – Comprazemo-nos a contar a saga da saída do Egipto, a terra da escravidão. Mas continuamos escravos de alguma coisa. Não há comunidade histórica que seja indemne. Continuamos com medo de morrer, sedentos de viver, continuamos a apertar as mãos e a fugir uns dos outros e a matar outros. O inferno é hoje uma categoria política, uma noção forjada para governar os homens (H. Arendt). Nós instauramos o inferno entre nós. Comprazemo-nos com as alegrias da destruição, envenenadas pelo ódio de que procedem. As grandes tentações não são da carne, mas do poder (do dinheiro, das autoridades políticas e das autoridades eclesiásticas).

10. – Acrescentemos aos textos desta noite um texto do “confessor” Wittgenstein. “A sabedoria é algo de frio e, nesta medida, de estúpido. A Fé, pelo contrário, é uma paixão. Poderíamos dizer também a sabedoria apenas dissimula a vida. A sabedoria é como uma cinza fria, cinzenta, que cobre as brasas”. (RM, 69). Ou a religião tem um interesse existencial que me inclina a acreditar na Ressurreição de Cristo, ou reduz-se a um palrar sem interesse. Se não há ressurreição, então ele decompôs-se no sepulcro, como qualquer um de nós. Ele morreu e decompôs-se. É então um mestre como todos os outros e não pode socorrer-nos, estamos de novo órfãos e sós. Ficamos com a sabedoria e a especulação. Estamos como num inferno, em que só podemos sonhar, separados do céu como por um tecto. Mas se devo realmente ser salvo, então é duma certeza que tenho necessidade, não duma sabedoria, de sonhos, de especulação – e essa certeza é a Fé. A Fé é fé porque é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer com a sua carne e o seu sangue que deve ser salva, não o meu espírito abstracto. Talvez se possa dizer só o amor pode acreditar na ressurreição” (RM, 44-45).

11. – Nós não estamos petrificados diante de um túmulo vazio. Não estamos a refazer o caminho de Maria e das mulheres. Não procuramos o corpo no lugar do sepulcro. Que fazemos então? Olhamos, contemplamos, vemos e acreditamos, como Pedro ou o outro discípulo que “viu e acreditou”, não como verificacionistas. Para os leitores que somos hoje, o texto de Mateus exige uma modificação do regime das nossas percepções, das nossas crenças e dos nossos envolvimentos. Jesus não é invisível, mas é não-visível porque a visão que ele requer é o contrário do visível. É preciso adaptar a visão e a escuta, passar ao espaço da leitura na fé. O corpo que Maria procura revela-se um sujeito de fala que nomeia e institui para a missão. O espaço da narrativa deforma-se quando, ao apelo do seu nome Maria se volta à voz que a chama. O visível transforma-se em visual: “Eu vi o Senhor”. Acaba aqui a tese do roubo do corpo morto. Maria é instituída, não para contar sempre a mesma história do roubo do seu Senhor, não para ver e acreditar como o outro discípulo, mas para ver e dizer (anunciar): “Eu vi o Senhor e eis o que ele me disse”.

12. – Falar é dar, é inscrever-se no dom da palavra. Inscrever-se numa falta à totalidade: não é possível dizer tudo. O gesto da mulher que derrama o frasco de perfume aos pés de Jesus é um acto de fala silencioso. Nós refazemos a memória desse gesto que se inscreve na trajectória do corpo de Jesus segundo as Escrituras. É o terceiro dia que este gesto prefigura. O corpo a vir, é um corpo a dizer, a redizer, a proclamar, um corpo impregnado pelas falhas das nossas palavras que se arriscam no acto da proclamação: surrexit Dominus vere!

13. – O impensável tem um lugar: este lugar é o real do corpo. Aí está a loucura do pensamento Paulino relativamente ao pensamento grego e ao pensamento judaico: a espécie humana está prometida à salvação; a lei antiga deixou de valer, o Templo rasgou-se como um vaso de incenso inútil, a história do começo adâmico é relançada de outra forma. Acabou o delírio da eleição, a paranóia feroz num Deus que me teria escolhido, a mim e ao meu povo. Acabaram-se os privilégios. Todo o mundo será salvo. O novo templo é o corpo de Cristo. A essência humana, a definição do homem como tal mudou de base, o homem deve ser apresentado como um corpo novo à imitação do corpo de Cristo. O homem novo é o homem ressuscitado a partir da ressurreição de Cristo. E nós somos o corpo de Cristo a caminho.

14. – Liberte-nos o Jardineiro da “fadiga de estar sempre perante uma resposta”, sem cair na noite do imaginário, vazia de corpo e de promessa. Rompamos a noite contínua e de silêncio em que os loucos vivem. Não nos imobilize a tristeza da morte e dos ritos sem carne. A luz do ressuscitado aumente a nossa potência de agir, a força de existir na alegria porque a esperança estira o nosso desejo. Voltará o Inverno, a solidão e o medo, mas agora já podemos esperar a primavera porque “Deus respira em nós de modo tão pleno” (J. Coltrane) que até a voz se solta e a jubilatio é o vestido de carne com que fazemos a passagem.

Deixo-vos com este texto de José Augusto Mourão, op, desejando-vos boa Páscoa.


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2 Respostas to “Mulher, porque choras? – José Augusto Mourão, op”

Comentários (2)
  1. Zazie diz:

    Páscoa Feliz “:O)

  2. Boa Páscoa para toda a gente aí em casa.

    Um abraço,
    Francisco Nunes

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