Por diversas vezes dei destaque à gestão da Casa da Música como um exemplo a evitar no que concerne à gestão de equipamentos culturais, em especial, tudo o que decorreu antes de Alves Monteiro aceitar a Presidência do Conselho de Administração. Afirmei que este gestor era, para mim, um garante do rigor, apaixonado embora, necessário à prossecução do projecto, evitando que continuasse a navegar ao sabor de interesses partidários, camarários, pessoais e, em especial, de “lobbies” há muito instalados no meio musical portuense, dali se estendendo, qual polvo encapotado, para todo o país.
Alves Monteiro iniciou o seu trabalho cumprindo cautelosa mas firmemente a missão a que se propôs (pode-se ver aqui), longe dos holofotes da ribalta mediática que muito gratificantes poderão ser a nível pessoal, mas incompatíveis com uma gestão que antes de se cumprir tem de mandar o lixo para o lixo e conservar o que valia e não tinha sido feito, i.e., “arrumar a casa”.
Cedo, e salomonicamente, mostrou não ceder a pretensões mesquinhas e vazias de sentido profissional, nomeando Pedro Burmester para seu assessor único, mantendo desta forma uma valia que não poderia encontrar noutro personagem – a memória e a justificação do já realizado. Contudo, a Casa da Música, não manteve a figura da direcção artística no seu novo organigrama – apenas administração e executores.
Daí que não assista a Pedro Burmester qualquer razão em sentir que a nomeação de Anthony Withworth -Jones possa ter um sentido de retirada de confiança do Presidente do Conselho de Administração, uma vez que nunca tal foi prometido e a não nomeação do músico para essas funções não augurava que Alves Monteiro tivesse, aprioristicamente, intenção de resolver essa delicada lacuna organizacional com o seu nome
Poderá ter sido surpresa para muitos, mas para quem conhece a correcção pessoal e profissional saberia que o novo gestor, ao abraçar o comando de um projecto que saía do âmbito que conhecia, iria antes do mais inteirar-se da especificidade da gestão da coisa cultural, deixando espaço para, a seu tempo, tomar as decisões que considerasse mais adequadas. E a nomeação de A. Withworth-Jones (ver aqui o seu percurso profissional) mais não confirma senão a segurança de entregar os destinos da programação a quem já possuía créditos firmados, estivesse disponível e exigisse uma remuneração adequada ao projecto.
Poderia ser evidente que a contratação de Pedro Burmester para essas funções era, como diziam, incontornável, mas a nomeação de um estrangeiro experimentado em palcos mundiais inviabilizava essa qualquer argumento de matizada “capela”. Muitos poderão ter pena de não ter sido Pedro Burmester o eleito, muitos poderão “torcer” para que corra mal o trabalho que o escolhido por Alves Monteiro venho a desenvolver, mas não se ouviu uma única voz a desmerecer a o currículo invejável do novo director artístico.
Pedro Burmester, embora triste, saiu com honra, diga-se (não foi em momento algum enxovalhado pela actual administração, nem tal seria aceitável, como aconteceu em passado recente), mas considerei muito inoportuno que, em Fevereiro passado se pronunciasse sobre as escolhas da administração pois a responsabilidade de formar a equipa não era da sua competência.
No entanto, uma outra demissão mais recente, embora sem visibilidade mediática (ah como os media querem e precisam de nomes que vendam…), inquieta-me de sobremaneira – a demissão de Fausto Neves do “Serviço Educativo” e a quase imediata nomeação do director artístico, em acumulação de funções, para assegurar essa tarefa. É que, sem barulhos nem buscas de ocos protagonismos, Fausto Neves deu muito à Casa da Música. E deu porque em si encerra a experiência de uma vida a dar, aos jovens pela música, tradição que já de seu pai lhe adveio, e com inquestionável obra em Espinho – na Academia, na Escola profissional, no Coro, enfim uma obra que não precisa nem de apresentação nem de protecções de “lobbies”. Está à vista de quem quiser ver. Não é insuflada, não é de “curriculum vitae”, é curricular.
Ora, Fausto Neves era a pessoa certa no lugar certo! Não reconheço, em Portugal, na sua geração, ninguém com a sua experiência e dedicação neste particular contexto. E, não fora já esta uma preocupação bastante, adiciona-se uma outra não menos imperativa – a da entrega de um “Serviço Educativo” a quem desconhece, por completo, o panorama português, não só as suas particularidades legais, como especialmente as carências curriculares, sociais e financeiras e terriroriais. Para mais, esse conhecimento, “Know how”, não é coisa que se estude, é assunto que a sabedoria advém proporcionalmente aos anos de exercício efectivo, num país em que a didáctica e o desenvolvimento curricular das artes em geral e da música, em particular, é um deserto. Um deserto de competências, mas também legislativo e organizacional (atente-se que Portugal não tem um único mestre, pós-graduado ou doutor, em educação artística!)!
Das duas uma, ou Alves Monteiro insiste na pessoa do director artístico para desenvolver o “Serviço Educativo” da Casa da Música, não restando ao responsável importar um qualquer modelo estrangeiro provavelmente desadequado às nossas carências, ou a acumulação de funções de Withworth-Jones é mais uma medida de Alves Monteiro para medir os danos causados pela demissão de Fausto Neves e conseguir tempo para decidir, mais uma vez, com rigor e propriedade.
Opto pela segunda hipótese, a de confiar no Presidente do Conselho de Admnistração, mas vinco que a demissão de Fausto Neves é uma enorme perda para o projecto Casa da Música. Não sei, confesso, se reparável.
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[...] A propósito do concerto que Murray Perahia deu anteontem na Casa da Música o HVA, no desNorte, escreve um texto que subscrevo na íntregra, pelo que escreve diz e pela elegância com que justamente se indigna! A Casa da Música está a mudar, vai mudando, vai refazendo-se, vai esquecendo o que Alves Monteiro legou! (ver aqui, aqui e aqui) Deixo um breve excerto do texto do HVA: Não sei se tem a ver com o regresso do filho pródigo, mas sei que a programação já não tem o fulgor (leia-se qualidade) de tempos não muito distantes. Parece que está mais variada, dizem-me. Naquilo que me diz respeito, quem quiser variedade(s) que vá ao Rivoli. Casa da Musica, Gestão Cultural, Ideias Soltas, Murray Perahia, Opinion, Porto, Programação Cultural, ReflexõesCasa da Musica, Gestão Cultural, Ideias Soltas, Murray Perahia, Opinion, Porto, Programação Cultural, Reflexões arquivado em Gestão Cultural, Reflexões, Opinion, Ideias Soltas, Casa da Musica, Porto, Programação Cultural and Murray Perahia. | Tags: Casa da Musica, Gestão Cultural, Ideias Soltas, Murray Perahia, Opinion, Porto, Programação Cultural, Reflexões. var blogTool = “WordPress”; var blogURL = “http://ideias-soltas.net”; var blogTitle = “Ideias Soltas”; var postURL = “http://ideias-soltas.net/2007/01/29/casa-da-musica-a-resvalar/”; var postTitle = “Casa da Música a… resvalar?”; var commentAuthorFieldName = “author”; var commentAuthorLoggedIn = false; var commentFormID = “commentform”; var commentTextFieldName = “comment”; var commentButtonName = “submit”; [...]