«Contra o ideólogo Samuel Huntington, prefiro a opinião de Edward Saïd. Samuel Huntington quer fazer das “civilizações” e das “identidades” aquilo que elas não são: a saber, entidades fechadas, seladas, expurgadas das miríades de correntes e de contra-correntes que percorrem e animam a história humana e que fizeram com que ao longo dos séculos a história ficasse repleta não só de guerras de religiões e de conquistas imperiais, como de trocas, de fertilizações cruzadas e de partilha. O paradigma de base: “Ocidente contra: tudo o resto (é a oposição da Guerra fria, reformulada) é o paradigma que vigora ainda depois do 11 de Setembro que o maniqueu Berlusconi brande para açular as paixões colectivas em nome do Bem contra o Mal, da Liberdade contra o medo, etc. É preciso repensar a guerra dos clichés e o poder das simplificações – a retórica utilizada pelos combatentes auto-proclamados da guerra do Ocidente (a América em particular) contra aqueles que os odeiam e ameaçam. É preciso desconstruir as expressões que veiculam a ortodoxia da globalização (mundialização) e que funcionam como falsos universais destinados a criar um unanimismo tácito: “o mercado”, “privatização”, “meios de governo”, “o Ocidente”, o “clash das civilizações”, “os valores tradicionais”, “identidade”. É preciso mostrar aquilo que verdadeiramente nos deve ocupar: a interconexão de vidas inumeráveis, as “nossas” e as “suas”. Em vez de criar campos de batalha, é preciso criar campos de coexistência.»
José Augusto Mourão – em “Caos Cultural da Mundilização”
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