Inspirado pelo texto de Francisco José Viegas, sob o título O Medo do Brilho no Aviz, onde, com um discernimento escorreito, aborda a questão da contemporaneidade dos clássicos, do seu brilho intrínseco, a propósito da crítica de Eduardo Prado Coelho à nova encenação de Ricardo Pais de “Hamlet”, cuja leitura integral recomendo, dei comigo a pensar sobre as “novas” tendências dos grupos de teatro em Portugal.
É cada vez mais raro encontrarmos nos palcos portugueses as obras da dramaturgia clássica, aquelas que fizeram o teatro ser teatro ou, quando se representam estão envoltas numa nublosa encenação que tenta, através de artifícios tecnológicos e/ou técnicas de encenação anacrónicas, introduzir (penso eu?) traços contemporâneos que, a meu ver, mais não fazem que descontextualizar o brilho do texto (nas palavras de FJV) sem nada acrescentar de substancial.
Parece existir e fazer escola que ser contemporâneo obriga a uma “criatividade” deslumbrada onde os artifícios do cenicamente inesperado e, por vezes chocante, são objecto em si mesmo e não instrumentos à disposição do encenador para realçar a(s) mensagem(s) no texto contida. Ou seja, parece-me que os profissionais do teatro têm sido mais influenciados pela estética cinematográfica de matiz hollywoodesca, onde o sucesso é medido pela quantidade de efeitos especiais, concepções laboratoriais e computurizadas do tratamento da imagem e do som, relegando para o domínio do desprezível o argumento e arte de representação. Não é por acaso que o filme que mais óscares recebeu, incluindo o de melhor filme do ano transacto, não tenha conseguido nenhumas estatueta no que concerne ao argumento, actores principais ou secundários! Julgo mesmo ter sido a primeira vez que tal ocorreu na história dos premiados de Hollywood. Ou seja, a estética da produção, em vez de se confinar ao seu primo objecto, o de realçar e contextualizar o texto, passou ela própria a ser o espectáculo, dispensando o texto e consequentemente a necessidade da sua efectiva representação.

Este movimento colocado à ideia de desconstrução e à tendência de contra-cultura pós-modernista poderá conseguir, a espaços, momentos de criatividade brilhantes, mas parece incapaz, por medo ou opção, de nos revelar o esplendor do texto dramaturgico, da palavra, do verbo, do enredo.
São como preferem hoje designar-se profissionais de artes performativas em vez de grupos de teatro, o que se explica pela paranóia da busca patológica de uma criatividade a todo o preço que a maior parte das vezes nos surge feita de colagens sem nexo, ou muito pobres de conteúdo quando comparadas com os clássicos, onde os efeitos da sonoplastia e do multimedia ocupam o lugar central, numa estética que se afirma pelas sensações visuais e sonoras imediatas e perenes, não procurando despertar no público o interesse de uma teia argumentativo/figurativa de um texto.
Este movimento, que ainda faz escola em Portugal e parece querer permanecer ainda por uns tempos, está para o teatro como o experimentalismo de Pierre Henry, a “música concreta”, esteve para a música clássica – um período meramente experimental que nada acrescentou, datado e enterrado como uma breve experiência, exactamente, afinal, o que se tinha proposto e até como o Free para o Jazz. Marcaram uma época, profundamente, é certo, mas nada acrescentaram ao já realizado nem escola deixaram.
O rigor pelo texto regressou à música dita erudita, mesmo à contemporânea, onde os compositores são cada vez mais exigentes na escrita e na representação da sua criação, enquanto que no Jazz já desde Charlie Parker que não conhecíamos um movimento tão profundo de regresso às raízes, com o intuito de busca da inspiração prima para se refundar, recriar e reconstruir como manifestação cultural afro-americana.
Excluindo casos pontuais como o da Cornucópia, onde sabemos que pelas mãos de Luís Miguel Cintra a vivência do texto permanece no cerne do desenvolvimento criativo, parece que a generalidade dos grupos optou por uma paranóia criativista purgada da substância que substancia o próprio teatro.
Mas não nos alarmemos, o experimentalismo como objecto, à semelhança do que aconteceu nas demais artes, será breve e datado, ficando para a história exactamente enquanto tal – um movimento experimental breve e não consequente.


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2 Respostas to “da Contemporaneidade e da Paranóia da Criatividade”

Comentários (2)
  1. Subscrevo completamente.

    Um abraço,
    Francisco Nunes

  2. Mário F diz:

    De acordo. Ainda outro dia fui ao Teatro Nacional D. Maria II para ver ‘Um Hamlet a mais’…e aquilo mais parecia uma palhaçada.

    Que saudades do teatro universitário que pelo menos nos dava os clássicos!

    Primeiro façam os clássicos depois aventurem-se a ‘inovar’.

    Tenham respeito por um a designação como ‘Hamlet’! Não nos deêm tangas. Se não sabem fazer teatro não venham cá com invenções pesudo-culturais!

    Haja respeito pelos Clássicos!

    Não venham cá com balelas! Tenham dó de nós!

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