Em outubro do ano passado a Direcção da Antena 2 inaugurou uma nova “filosofia” de rádio cultural, tentando atingir uma audiência mais jovem. O Director dizia, aqui:
«É intenção da actual Administração da RDP dar um passo, se possível maior, para que se juntem outros ouvintes, sobretudo jovens (…)»
Este lema ” a moda dos jovens”, transfigurou por completo a Antena 2 que conhecíamos, composta por um auditório escasso, é certo, mas fiel, que assegurava que a estação apresentasse um ratio de tempo de audiência por ouvinte dos mais elevados, apresentando agora programas feitos por jovens sem qualquer qualificação radiofónica (parecendo mesmo um circo de mentecaptos, por exemplo o programa “Que Música é Esta”), a par de um abuso de música aleigeirada, “musichalls”, Jazz a toda e hora e de qualquer maneira, zarzuelas, enfim de tudo passa na Antena 2, sem critério que se vislumbre. Tudo parece valer. Quando sintonizamos a A2 ficamos durante muito tempo em dúvida se será mesmo aquela estação!
As críticas não se fizeram esperar, de todos os quadrantes políticos e ideológicos cuja única preocupação era a qualidade perdida e a ausência de uma estratégia que augurasse que o auditório iria rejuvenescer. De facto, os jovens não são desprovidos de inteligência e não é pelo aligeirar da oferta que os poderemos captar. Bem pelo contrário, os jovens são muito mais irreverentes na exigência de qualidade. Não se captam jovens para a música clássica oferecendo-lhes banalidades e mesclas de clássico com ligeiro, ou “americanices” da Broadway. Os jovens que poderão sintonizar a Antena 2 são precisamente aqueles que de alguma forma estão familiarizados com ela (via família ou via ensino vocacional) e que procuram qualidade e não abastardamentos.
É preciso dizer que, apesar desta evidência, a Antena 2 mantém programas de qualidade, mas não são já os que a definem ou orientam.
Os resultados?
Estão agora à vista no final do 1º trimestre:
1 - envelhecimento da audiência - 50,2% têm mais de 55 anos e 59,5% mais de 45 (ver aqui);
2 - perda de jovens ouvintes - dos 15 aos 24 anos apenas 6,9%, enquanto dos 15 aos 17, 0% (ver aqui);
3 - auditório elitista com fuga de estudantes: 71,7% são quadros médios e superiores, não activos e domésticos enquanto estudantes se quedam pelos 8,8% (ver aqui);
4 - regressão da penetração territorial - 71,4% da audiência é de Lisboa e do Porto, contrariamente à equidade da audiência da Antena 1 e da Antena 3, ou a do mapa regional geral de audiências (ver aqui e aqui).
Em conclusão, o que o estudo da Obercom demonstra é a negação de todos os objectivos a que a Direcção da Antena 2 se propôs com a agravante do pronunciado decréscimo da qualidade que esta estação habituou o seu auditório já desde os tempos da “Emissora Nacional” do Antigo Regime. Isto é tanto mais grave porquanto a Antena 2 é dominante no tempo médio de audiência, 3,01h, suplantada apenas pelo RCP e pela RFM, o que demonstra o seu potencial no mercado publicitário e eventuais parcerias (ver aqui).
Não é preciso esperar. Esperar para quê? O desastre está comprovado e a demissão é o caminho de quem não consegue cumprir os objectivos nem tão-só manter o que existia.
Não é o objectivo que está errado - incrementar um auditório mais jovem! Errado está em perpetuar uma direcção que não tem “know-how” para o fazer, pois não é através de reduções drásticas da qualidade e cedências ao facilitismo cultural da programação que se atinge os jovens! É antes saindo dos estúdios e ir ao encontro deles!
«Outra Classe de Rádio» é o “slogan” e têm razão na outra classe, não é classificável, está descaracterizada e o seu responsável deve dar o lugar a quem saiba manter e desenvolver um tão precioso e único serviço público - a Antena 2 - a não ser que pretenda (exemplos não faltam, infelizmente) ser o seu próprio carrasco numa política de terra queimada.
tags: Antena 2, Cultura, Gestão Cultural, Media
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O problema está na ‘Outra classe de rádio’.
Quando vier o inquérito anual para renovação da assinatura do boletim, vou responder:
A RDP-A2 era uma classe de rádio. Agora é outra: mas não a minha. Dispenso…
Basta!
Quando mudar para o que deve ser, talvez volte…
JMMota
Concordo no essencial com o artigo.
Carlos, não se compreende como é que até agora a administração não tenha tomado em mãos a efectiva gestão da Antena 2.
Ou será por pretender reformular a RDP num todo ou o futuro da rádio clássica poderá mesmo passar por um final anunciado.
A Antena 2, pura e simplesmente não existe como rádio cultural. É deprimente.
A audiências, mais do que serem conquistadas, devem ser criadas.
um abraço,
Francisco Nunes
O curioso é que cada vez mais se nota uma falta de imaginação da parte dos directores de programas quer da rádio quer da televisão, surpreendente. Mexem em programas que ainda vão tendo alguma audiência porque dispõem de um público interessado, embora às vezes restrito mas como os objectivos de hoje são cada vez mais estúpida a disputa pelo aumento das audiências, acabam por introduzir alterações nas suas grelhas de programação, que revelam piores resultados.Mas vão continuando a lavrar nos mesmos erros e o resultado acaba por não só não aumentarem a audiência, como acabarem
por diminui-lo.
Tem toda a razão. A Antena 2 está uma chaçada. O que lhe vai valendo, para além de alguns (poucos) bons colaboradores (Rui Vieira Nery, António Cartaxo, João Chambers e…não encontro mais), são as transmissões do Eurorádio!
De resto, da ‘prata’ da casa é só conversa de chaça…Agora os locutores viraram críticos literários! (’Hoje pode ler…’) E a pérola parece ser a ‘Semana dos cinco dias’…a ‘chaçada’ levada ao extremo…algo que é deliberada e conscientemente ‘cozinhado’, não adiantado absolutamente nada de novo.
Mais valia repetirem algo com pés e cabeça, por exemplo ‘Musica Aeterna’ ou algum programa de António Cartaxo e Rui Vieira Nery.
(Já nem me atrevo a expressar as minhas opiniões no fórum alternativo porque por lá abundam os intrépidos defensores da ‘outra’ classe de rádio)
Bom texto.
Para mim, a Antena 2 é uma sombra (pálida) do que deveria ser uma rádio cultural. E é pena que assim seja, porque num país tão deficitário em matéria de cultura como é Portugal, é fundamental que o serviço público insista neste vector de criação e formação de públicos. A Antena 2 é hoje uma rádio à deriva, sem orientação. Os locutores parecem, inclusivamente, deslocados no tempo e no espaço, com uma presença ao microfone típica dos anos 40. Acordem. Abraço.
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