De um amigo recebo um email sobre o seu testemunho de Carlos Paredes que transcrevo na íntegra.
«Estou ainda em Inglaterra só por mais alguns dias. Como sempre fiz enquanto cá estive fui acompanhando via net o possivel sobre Portugal. A morte de Carlos Paredes foi sem dúvida das facadas que mais doeu. É uma ferida antiga que tenho desde os doze anos, já lá vão 29.
Conheci o Carlos Paredes pela guitarra dele num velho gira-discos de uma amiga e foi como quando ouvi o Pollini a primeira vez a tocar os estudos de Chopin. O que é isto? Foi um verão inteiro a ouvir o mesmo disco, até à exaustao, de uma forma muito doentia como faco sempre que algo de genial me tira do sério.
Depois disso foi andar à procura dele e tentar perceber onde se escondia. Nunca me entrou na cabeca como era possivel Portugal passar ao lado do maior dos maiores compositores e instrumentistas que tivémos. Que temos. Vim um dia a saber que ele trabalhava num arquivo de um Hospital de Lisboa.
A fazer o quê?
Até que o conheci num daqueles acasos, raros, que acontecem na vida. Fui convidado para ajudar o Quico a fazer o som de um concerto dele ao vivo no Carlos Alberto. Foi das experiências de que nunca vou esquecer. Ele passou a tarde a tocar e eu a tremer. Qual mago qualquer nota que lhe saía da guitarra era um grito, um lamento, uma alegria, um abismo. Era absolutamente insuportável. Depois no concerto além do musico, fiz a viagem do Homem, do Pedagogo, daquele saber simples e profundo que me colou à cadeira durante quase 3 horas, numa sala repleta de gente absolutamente atónita. Ele tocou o pai, o tio, tocou-se a ele, improvisou sobre quadros e slides e atirou às urtigas todas as minhas ideias sobre a genialidade. Aquilo era outra coisa, algo tão proximo, tão profundo que ainda hoje não consigo explicar.
E Portugal? Não o ouviu? Não o viu? Um país a precisar tanto mas tanto de algo como ele não o abraçou enquanto pode tocar?
Porquê?
Nunca irei descobrir a resposta. Mas a ferida continua aberta.
Um dia, quando fui tocar a Macau com os Ban, estava numa esplanada e ouvi uma voz chamar o meu nome. Virei-me e era ele, a chamar-me, só para me cumprimentar. Fiquei a gaguejar. Lembrava-se de mim 6 anos depois.
Era de facto alguem especial.
Fico com a música dele para sempre e com a eterna vergonha do Portugal que teima em não ouvir, não ver, nao querer saber de nada que envergonhe a mediocridade instalada!
Nunca vou esquecer aquela figura a fugir das luzes do palco com o público em pé a gritar bravos.
Um abraco
Ricardo Serrano»
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Palavras para quê?!…
a música do mestre vai ser lembrada sempre!…
por pessoas de bom senso e acima de tudo, de bom gosto musical…
Até sempre!