Dez 202004

“Há pessoas que nasceram com o dom de imaginar e quase até diria com o dever de imaginar: porque, em virtude de qualquer disposição superior que nos escapa, a vida lhes transcorre tão fixamente no mesmo lugar e tão vazia de acontecimentos que na realidade a única possível existência para eles é a do sonho. Quanto a mim, se dispuseram os fados de outro modo: acho que por excesso de vida exterior, o imaginar me ocorre tão delgado que apenas consigo narrar o que vi, ouvi e senti; e, à primeira situação difícil que se me depara na vida, tenho logo de recorrer ao conselho dos meus amigos para que me desenvencilhem da situação; a menos que a própria vida se não encarregue de o fazer, coisa que tem sucedido, mas quase sempre com um desembaraço meio brutal que, para dizer a verdade, não me agrada nada.”

Como eu gostaria de ter escrito isto…, mas não, foi Agostinho da Silva no 1º parágrafo dos seus únicos escritos de ficção (3 novelas), sob o título “Herta, Teresinha e Joan”, publicado em 1953, expondo-se, desde logo, diante do paradoxo do ser.


Tags:

Textos Relacionados:

| | Mais...

Uma Resposta to “I

Comentários (1)
  1. chantal diz:

    O eterno paradoxo de ser e não ser, de estar no presente ou viver no sonho, contudo a inexistência de uma vida rica em experiencias externas produz a procura das viagens internas, porque são estas que motivam o SEr para a busca da sua representabilidade no mundo.
    Belo post! apelo à introspecção

Pedimos desculpa mas os comentários estão encerrados de momento.