Ganhadores e Perdedores
Durante a pré e a campanha eleitoral abstive-me de escrever sobre política e até sobre outros assuntos uma vez que só de política se escrevia na blogosfera e fora dela e corria o sério risco de ou não ser lido correctamente ou até indignar espíritos mais atreitos ao “aggiornamento” (é mais lindinho que aparelhamento ou sectarismo).
Finda a campanha e conhecidos os resultados sinto-me à vontade para voltar a debitar (à vontade e com vontade) os meus delírios. Aí vai o primeiro…
I – Ganhadores
1 – Jorge Sampaio
O grande vencedor não só das eleições como de todo o processo que lhe caiu no colo com a fuga de Durão Barroso:
a) cumprindo com o máximo rigor o espírito e a letra da Constituição não cedeu às pretensões do seu partido nem da comunicação social, entregando o poder a uma maioria existente na Assembleia da República;
b) dissolveu a Assembleia da República quando ficou demonstrada a incompetência da maioria em resolver os graves problemas do país;
c) usou com competência e bom-senso os poderes que a Constituição lhe confere;
d) os resultados eleitorais confirmaram todas as decisões que tomou, só, sem cedências e até com perdas de amizades pessoais, sem transparecerem nunca para a comunicação social, tendo sido um dos melhores exemplos de serviço à causa pública que assistímos desde o 25 de Abril.
2 – Ferro Rodrigues
Apesar da sua intempestiva demissão por desacordo com a decisão de Jorge Sampaio de não dissolver a A.R. aquando da fuga de Durão Barroso, conduziu, com muita serenidade, bom-senso e espírito democrático, um processo de democratização interna do seu partido, conferindo ao líder daí advindo uma legitimidade sem paralelo nas vidas partidárias do nosso país, legitimidade essa que em muito terá contribuído para a união dentro da diferença no seu seio e em contraste pungente com a falta de legitimação no PSD.
3 – José Sócrates
Muito pouco adiantando sobre o que fará para tirar Portugal da situação a que os partidos do poder o vêm conduzindo há muitos anos, centrou-se na união e coesão do seu partido, chamando sempre os seus adversários no processo eleitoral interno e outros menos inclinados em aceitar a sua liderança.
4 – Partido Socialista
Vitória inédita no plebiscito e na coesão das várias sensibilidades.
5 – Jerónimo de Sousa
Consegue interromper a tendência de mais de uma década de perda de percentagem, de votos e mandatos da CDU.
6 – Bloco de Esquerda
Ganha votos, mas ainda mais percentagem e ainda mais mandatos ao concentrar-se nos círculos que mais deputados elegem.
7 – Durão Barroso
Se é certo que a decisão de Jorge Sampaio de dissolver a A.R. prendeu-se com a incapacidade manifesta do governo de Santana Lopes em resolver a situação, a verdade é que o estado do país deve-se à governação de Durão Barroso e não à de Santana Lopes que nada fez, por incapacidade e por falta de tempo, saindo Durão Barroso e a sua equipa ilibados da má governação que fizeram, considerando eu, assim, que saem vencedores os principais responsáveis pela situação a que chegamos.
II – Perdedores
1 - Santana Lopes
Não pelo resultado das eleições, mas por ter aceite (coisa que nunca julguei ser posssível nele) substituir Durão Barroso no PSD e no governo sem um processo de legitimação mínimo (o Congresso foi anedótico), arcando com responsabilidades que não eram suas.
2 - Paulo Portas
Acordou tarde pois inicia uma correcta estratégia de afastamento do PSD só após ter assinado a sentença do CDS no famoso acordo pré-eleitoral – o afastamento seria sempre uma falácia aos olhos dos eleitores.
3 – Bagão Félix
Ficará para sempre marcado pela destruição do já de si frágil equilíbrio das contas da Segurança Social e como responsável por um orçamento que todos viam que se baseava em premissas impossíveis de crescimento (conforme se confirmou ainda antes das eleições) e pelo invulgar desnorte em compor o défice de 2004, aduzindo consecutivas medidas impossíveis de colocar em prática.
4 – O Partido Social Democrata
Vê fugir-lhe, de uma assentada, todo aquele eleitorado, a que nos habituamos a chamar de centro, que vai dividindo os seus votos pelo PSD e pelo PS, reduzindo-se à sua expressão mínima.
5 – Portugal
O Presidente da República conduz o país a um processo de reequação do nosso futuro que nenhum partido agarrou, permanecendo os cidadãos sem uma única ideia ou estratégia para o “turn over” – a pré e a campanha demonstraram um pungente vazio de ideias e ainda menos convicções sobre como resolver o problema da balança comercial (o real problema) que condiciona o crescimento do PIB, o défice público, o aumento do desemprego, as falências em catadulpa.
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Gostei dos comentários. Inteligentes, embora nem todos os subscreva. São seus e isso demonstra autenticidade.
Fica assim provada a reflexão escolhida pelo meu caro amigo deu-lhe a necessária inspiração para
produzir este post, embora julgue que se o Presidente tivesse na altura em que o Durão se foi embora, optado pela dissolução da Assembleia o resultado eleitoral seria o mesmo, uma vez, como analisa e muito bem a culpa foi de Durão Barroso e da sua equipa, tendo o em vista
que Santana nem sequer chegou a governar, embora acabasse por ser a vitima.
Pois eu acho que a principal culpa da situação que se tem vivido (e da que se criou e vai continuar a viver, na mesma linha de crise e falta de soluções) é, apenas de Jorge Sampaio, que nunca cumpriu a sua obrigação de garante do funcionmamentpo das instituições