Na conferência de imprensa para a divulgação dos candidatos do PS às Câmaras Municipais Jorge Coelho sentiu necessidade de referir 6 x (seis vezes) que a escolha dos candidatos para Lisboa e Porto eram escohas pessoais de José Sócrates.
Não ouso duvidar da veracidade de tão repetido anúncio, mas que Jorge Coelho sente que já não teria força para os impor, ai disso ninguém me tira a ideia.
Será bom ou mal sinal?
Sei lá, mas desconfio que quando se divulgar o candidato por Matosinhos a história da escolha pessoal de José Sócrates vai repetir-se pondo a nu, mais uma vez, que Jorge Coelho poderá estar a sentir que o aparelho já não se inclina diante de si como outrora!

«O Desperdício anual de medicamentos dava para construir 2 pontes Vasco da Gama»

Este foi o título que a SIC escolheu para abertura da notícia sobre o valor dos medicamentos que deitamos ao lixo, seja por compramos e não utilizamos seja por compramos e não cumprimos o tratamento prescrito.
É muita massa, já viram, 2 pontes Vasco da Gama!
E quem diz 2 pontes Vasco da Gama poderia ter dito construir todas as albufeiras, aquadutos e canalizações necessários para que Alqueva abastecesse todo o Alentejo, quer no que concerne ao regadio, quer na resolução do gravíssimo problema de pôr água nas torneiras de todos os lares e sobrarem ainda uns trocos para as obras necessárias à conclusão do projecto do aeroporto de Beja!
Quem diz 2 pontes Vasco da Gama poderia ter dito o Estado sustentar os custos de todas as “SCUTS” que ligam o interior ao litoral durante 17 anos, incluído a construção de uma outra a ligar Sines a Vila Verde de Ficalho há muitos anos designada de IP8!
Quem diz 2 pontes Vasco da Gama poderia ter dito a construção de 2 novas auto-estradas alternativas às IP4 e IP5, com os devidos viadutos para que não sejam vias assassinas.
Quem diz 2 pontes Vasco da Gama poderia mas era ter sido mais feliz com a comparação!
Para que serão precisas, afinal, mais 2 pontes Vasco da Gama? Para afagar o ego dos centralistas e da esmagadora maioria dos consumidores da SIC?

Bufar Belinhas

Blogosfera, blogs Comentários Desligados
Mar 302005

Vêm tempos de sucessivos aniversários de blogues quase nos obrigando a diariamente fazer essas referências, correndo o risco de nos escaparem alguns que não gostaríamos de esquecer. Assim, poque apesar do atraso não quera deixar passar em claro, aqui vão os meus sinceros parabéns pelo 2º aniversário ao Luís Ene e ao Paulo Querido.

Foi um momento sem igual para a Mãe, o Pai, para a Avó e o Avô – a Manucha nascera – era a primeira filha e a primeira neta após um período de tentativas sem êxito que faziam pairar a desoladora sensação de infertilidade.
Mas a Manucha nasceu, esconjurando os fundos e mudos receios, repondo a normalidade, numa família que em famíla se pretendia constituir, formar prole que assegurasse a continuidade.
O parto não fora fácil, ainda em tempos que os radioisótipos não revelavam as nossas entranhas nem pré-anunciavam quem viria, obrigando a parteira a redobrados esforços para a salvar de um cordão umbilical que a sufocava cada vez mais à medida que fazia por se libertar do ventre que a engendrou. Tudo se compôs, afinal, embora o tom arroxeado da pele impusesse uns dias de oxigénio.
Ninguém sabia a extensão dos danos, se é que os havia, que aquele sufoco pudesse ter infligido, mas em boa verdade, a probabilidade era escassa, segundo o pediatra, que afirmou serem muito poucos os bébés que em idênticas circunstâncias não eram perfeitamente saudáveis quando, para mais, a Manucha, respondia positivamente a todos os estímulos neurológicos. Uma alegria para todos, pois está claro, que sofreram umas boas horas para saber se era ou não desta vez que se daria início à continuidade.
Ao cabo de dois dias já a Manucha adquirira o tom róseo do recém-nascido e mamava com fulgor na mama que lhe estava destinada, era vê-la a engordar e a crescer.
Aos 6 meses os Pais demonstraram alguma preocupação pelo facto de a Manucha não se mexer normalmente. Aos 8 meses não se susteve sentada; ao ano não andou; aos dois anos não falou; a fralda nunca deixou; o olhar nunca se fixou. Os Pais foram ao pediatra aos primeiros sinais; correram os neurologistas que sabiam existir; levaram a Manucha a reputados especialistas na Suíça, no Reino Unido, em França, na Alemanha e a única certeza que obtiveram foi o diagnóstico de danos neurológicos a nível cerebral impossíveis de quantificar ou localizar e de quase certa irreversibilidade, que se preparassem para aquela vida que poucas dezenas de anos mais tarde a ciência se encarregou de designar de vegetativa.
Mas a Manucha ria, a Manucha chorava, a Manucha estava ora bem ora mal-disposta, conforme os dias, reagia à música e a família, os Pais e o irmão mais novo, que entretanto nascera, embora o seu estado se deteriorasse de dia para dia, viveram em família felizes com a Manucha que, apesar de diferente, ocupava o seu lugar e indispensável significância no seu seio.
A Manucha morreu perto de completar dezoito anos deixando um vazio que nunca nenhum de nós soube adaptar-se – dois anos mais tarde a família desmembra-se, partindo cada um para seu lado, perdidos, à procura, sem o saberem, de um significado, sem vislumbrar que tinham sido as próprias fundações que se tinham desmoronado – o elo que os unira e os ensinara a viver em família tinha desaparecido.
A Manucha não foi um Ser com uma vida vegetativa e a prova disso foi a falta que fez a todos que com ela aprenderam e a sorte que tiveram em ela morrer a seu tempo.

Mar 282005

«Páscoa no Alentejo… », «Já agora fica a dúvida», «Outra curiosidade» por Piotr Kropotkine e «Mértola por Pedro Gomes Sanches.

os custos de um governo formado à margem da clientela do aparelho do PS começam a manifestar-se da forma mais impiedosa – Assis para a Câmara do Porto!
Aqui, no ponto 3., mostrei os meus receios quando a 11 de Março escrevi:

«ao afastar do governo os homens do aparelho clientelar, Sócrates assume-se ainda mais como Primeiro-Ministro e deixa o seu PS nas mãos de quem há anos vem teimando em estender a sua tentacular influência – Jorge Coelho e Assis, particularmente. Esta solução poderá ser muito positiva para o Governo mas ruinosa para as Autárquicas que se avizinham, onde o aparelho procurará, por todos os meios, colocar os seus clientes mais fiéis (…)»

de José Augusto Mourão op.

1. Reúne-nos o dever de fazer memória. De vigiar. Contra as forças do esquecimento. Contra a memória que esquece e que, como a água, arrasta tudo na sua voragem. A vigília pascal é a mãe de todas as vigílias durante a qual o mundo inteiro vigia, dizia Agostinho. Porque é ditosa esta noite? Porque recomeça aqui o mundo como ordem e justiça. Porque o grande Domingo começa. Porque o acontecimento pascal é o dom de Cristo presente ao seu corpo. Porque a saga da encarnação tocou o nosso desejo e a nossa carne. “Toda a carne será salva”, eis o que anuncia esta noite santa. Nesta noite Cristo desceu aos infernos assumindo a totalidade da humanidade passada e a vir. A imagem do Deus invisível salvou a imagem a partir da qual fomos criados.

2. Nesta noite todas as definições anteriores e restritivas do mundo voam em estilhaços. As etimologias supostas da palavra paskein, sofrer, ou a ideia de passagem (pascha-transitus) marcaram muito o sentido desta festa. Melitão de Sardes propõe o verbo paskein, como etimologia da palavra Páscoa, sem que isso afecte a compreensão daquilo a que foi o primeiro a chamar “o mistério pascal”. Militão transforma a Páscoa judia – a feliz passagem (diabasis = transitus) de Deus para lá das portas marcadas pelo sangue do cordeiro – no Logos, no seu hino sobre a Páscoa que é tanto uma homilia como um praeconium, um louvor a Deus, muito próximo do Exultet: “Corruptível o cordeiro, incorruptível o Senhor; imolado como cordeiro, ressuscitado como Deus”.

3. Ele é a imagem pática e desejante. Páscoa é o triunfo da imagem e o triunfo da carne. O nosso destino é pascal. É o triunfo de tudo o que deve ser atravessado, a saber um ventre de mulher, a ordem do sangrento, o cumprimento do sacrifício, a morte, tudo o que traz a marca da imagem e em que se encarna o desenrolar do seu destino, que é ser incorruptível. A imagem tem que ver com o ventre das mães, com a questão do sofrimento, do sangue e da morte, é preciso levá-la à ressurreição. Encontrá-la sob o modo de uma visibilidade transfigurada, i.e, de uma outra matéria, de uma visibilidade espiritual. Figura para lá da figura, forma para além da forma, luz antropomórfica do mundo redimido.

4. Se não interpretamos esta saga sob a ordem do pathos – da paixão, que foi antes de tudo um paskein, a morte passa -, e sem a ressurreição, nada compreendemos do Verbo que se fez carne e não corpo, pois que ele é a vida da palavra encarnada e não a morte dum invólucro caduco. O nosso destino, como imagem, é doravante pascal. Mas nem Orígenes nem Agostinho se satisfazem com esta maneira de ver a Páscoa. Na paixão do Senhor e na sua ressurreição é sacralizada a nossa passagem da morte à vida (2ª Carta a Januarius, Epist. 55, a, 2). A luz é o símbolo do dom de Deus, dos anos e da trindade, fonte de toda a luz. Gregório de Nazianzo vê a Páscoa como a atracção da luz para o alto e das vestes brancas que os baptizados traziam até ao domingo seguinte, in albis.

5. Não podemos olhar face a face nem a morte nem a vida. Só partilhamos o que não vemos – o invisível. Para acreditar não é mais preciso tocar, é preciso renunciar a tocar para ser tocado. Os relatos de Emaús ou de Tomé são exemplares. É preciso abrir os olhos. O túmulo vazio só existe para pupilas vazias e olhares cegos. Túmulo, pupila, clausura só pode abrir-se sobre a pura luz da nova aparição da carne. Não é corpo que ressuscita, mas a carne porque é nela que assenta a similitude reencontrada. Os olhos de Tomé procuram as provas da presença de um corpo. A carne ressuscitada propõe-lhe o “contacto”? dos buracos! “Noli me tangere”. Não podemos tocar a imagem, ela está lá para a ressurreição dos olhos e não para a reanimação dum cadáver tangível. Aquele que caminha para Emaús não é uma alma penada, um simulacro fantasmático, mas a imagem eternamente viva do Verbo que permanece invisto para a cegueira do espírito, visível para o olhar transfigurado, eikon.

6. A ressurreição não é um regresso à vida. É a glória do seio da morte, uma glória obscura cuja iluminação se confunde com a treva do túmulo. Não é um processo de regeneração (semelhante ao das mitologias como as de Osíris ou de Dionísio), mas consiste na relação com aquele que disse: “Eu sou a ressurreição”. “Quem se fia em mim, ainda que morra, viverá”? Fiar-se nele, na fé, não é acreditar que pode haver ressurreição do cadáver, é manter-se com firmeza na certeza duma posição diante da morte. É isso a anastasis. Esta revelação mostra que nada há a mostrar, a aparecer; não há “adeus”? entre Jesus e Maria. O corpo glorioso é simultaneamente aquele, que parte e aquele que fala, e que fala partindo, apagando-se tanto na obscuridade do túmulo como no aspecto do jardineiro. A sua glória só brilha para aqueles que o sabem ver e os seus olhos nada mais vêem que o jardineiro. Mas este fala e diz o nome daquela que chora o desaparecido. Dizer o nome é o que morre e não morre. É dizer o que parte sem partir (o que fica gravado nos túmulos). “Maria” revela Maria a si própria, revelando-lhe ao mesmo tempo a voz que se vai e que a nomeia e o envio a que o seu nome compromete: que ela parta também e que anuncie a partida, o dia, a glória do ressuscitado e a nossa.

7. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da nossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra ou um perfume. Mataram o profeta em sexta feira santa para o fazer calar, mas hoje a palavra do pastor convoca ainda, suscitando testemunhos que encarnem esta palavra e a transplantem para a terra boa do desejo de que o amor os toque. Esta Palavra tocou-nos através dos homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da vossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra. Nós somos vivos no meio do Vivo. Sexta feira santa mataram o profeta para o fazer calar, mas hoje a palavra da vida brota do túmulo e suscita testemunhos para tomar corpo no mundo e chegar às extremidades da terra para que todos ouçam este anúncio do amor de Deus. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida se torne auto-revelação da Vida. Que o Verbo tome carne nas nossas Igrejas. Esta Palavra tocou-nos através de homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida fale da primavera da vida, J. C.

8. Para nós, que chegamos aqui, amanhã será como ontem? A resposta foi confiada à nossa fé que é tanto uma estrada escura como uma estrada branca. Acreditemos na vida de Cristo mais forte do que a morte. Acreditemos na sua força, capaz de nos acordar do torpor e do amolecimento, como o grão que na primavera faz acordar a terra. Acreditemos na vitória da vida, na insubmissão que ergue o mundo. A repetição anual da festa só tem sentido se o cristão refaz a passagem da morte à vida que foi a do seu baptismo. Ele passa assim, “de Adão ao Cristo, do homem velho ao homem novo, do velho fermento aos ázimos, do velho ao novo”, dos dias daqui ao dia único que é Cristo. Toda a vida do cristão e da Igreja é uma saída do Egipto marcada por diferentes passagens, desde a primeira, a da conversão à fé, até à última, a da migração fora do corpo e do mundo.

9. Todo o instante é Páscoa, toda a vida é passagem, toda a vida é eucaristia. O jardineiro não cuida a lembrança mas o imemorial do partir e do porvir. A ressurreição não é uma reanimação: é o prolongamento infinito da morte que desloca e que desinstala todos os valores de presença e de ausência, de animado e de inanimado, de alma e de corpo. É a extensão do corpo à medida do mundo e da proximidade de todos os corpos. A morte abre a relação, a partilha da partida. Estamos sempre a ir e a vir. Divididos entre o conhecido e o desconhecido, o visível e o invisível. Entre a presença e a separação.

10. Quando, em nome de Jesus, mulheres e homens se reúnem para receber o alimento necessário para se manterem de pé, fazem-no porque este Corpo único para que são convocados os atrai. Jesus atrai-nos a partir do seu mistério pascal para que nos irmos tornando com Ele imagem pascal. O destino do nosso corpo é vir a ser um corpo de glória, “soma pneumatikon”, um corpo espiritual. Com as mulheres que choram junto à cruz; com os discípulos que correm ao sepulcro e acreditam, proclamemos nós também: Cristo, o Senhor ressuscitou, aleluia!

José Augusto Mourão op.

Transcrição de homilia de José Augusto Mourão op. daqui.

Assunção

Que anuncia esta festa? A nossa vida está inteiramente imersa no mar de Deus. Deus vem para a totalidade da existência, não apenas para a nossa alma: assim como nos acordou para a existência, assim nos adormecerá. A dormição da Virgem na Vida de Deus promete a nossa dormição em Deus. Nós somos, enquanto arcas que transportam a promessa, corpos em devir, a caminho da ressurreição.

1 – A assunção aponta para um mundo apocalíptico em que se desvelam as nossas orientações e as nossas energias. Esta festa indica o devir do nosso corpo, da integralidade do que somos assumidos por Deus, o que é morrer e o que é viver.
2 – Daqui olhamos o presente – o deserto – que é o lugar das tentações e da prova, das decisões éticas, lugar do crescimento da consciência inteligente que obriga a alargar os horizontes, que obriga à atenção e às escolhas contextualizadas, incarnadas.
3 – O tempo que aí vem (virtual, maquínico, efémero e presente trágico) está a desconstruir, através do seu plano de imanência mundial, todas as nossas evidências biológicas, éticas e políticas.
4 – Afinal, o presente é o tempo do Magnificat. A releitura das metamorfoses e das revoluções: não há só o que está porque assim é que convém (que haja quem abuse do poder, sem escrúpulos, quem acumule riquezas produzidas pelo trabalho mal pago, quem explore os corpos e os humilhe, senhores da vida e da morte diante dos sem defesa legal e sem partido – tanta gente a fugir da guerra; tanta fome ainda dizimando povos); há o que esperamos das promessas de amor e de justiça; há os fracos oprimidos aguardando a hora da liberdade e do direito; há a paz possível e uma ordem que não corresponde à nova ordem mundial que os poderosos deste mundo impõem.
5 – Maria precede-nos nessa percepção crítica, nessa indignação e nessa acção de graças pela liberdade que a marcou inteiramente como segunda Eva. É ela que nos revela o nosso destino de crentes a partir da sua experiência de desprendimento.
6 – A Assunção diz-nos que viver não é evadir-se do mundo, mas olhar de frente o que há em nós sem desesperar; nós todos reflectimos como num espelho a glória (2 Co 3,18); não temos que humilhar o nosso corpo de carne para melhor exaltar a nosso corpo de glória; é preciso afirmar uma certa continuidade entre o que somos e o que seremos. Há em cada um de nós um poder de metamorfose ascendente, uma capacidade de espiritualização do nosso próprio corpo; tudo depende da nossa maneira de habitar o nosso corpo e da nossa maneira de estar no mundo; temos de nos bater não só abstractamente pela dignidade do homem e da mulher, mas pela dignidade do corpo: o fantasma do corpo perfeito, o inferno da tortura, o aviltamento, a desfiguração não é uma fatalidade; a única resposta ao excesso do mal é o excesso do amor. Este mundo é cruel: os traços da glória de Deus neste mundo já não são as igrejas douradas, mas os sinais e os prodígios da caridade.
7 – A crença espera o espectáculo e inventa-o se preciso. A fé consiste em ver e ouvir o que não traz nada de excepcional para o olhar e o ouvido comuns. Ela sabe ver sem tocar. O mistério é aquilo que se ilumina por si próprio, aquilo que brilha do fundo da sombra. O corpo ressuscitado continua a ser um corpo terrestre e na sombra.
8 – A ressurreição não é um regresso à vida. É a glória no seio da morte: uma glória obscura cuja iluminação se confunde com a treva do túmulo. Em vez do contínuo da vida passando pela morte, trata-se do descontínuo duma outra vida na morte. A ressurreição não é um processo de regeneração (semelhante ao das mitologias de Osiris ou Dioniso), mas tem lugar na relação àquele que diz: “Eu sou a ressurreiçãoâ€?. A ressurreição não é uma reanimação: é o prolongamento infinito da morte que desloca e desinstala todos os valores de presença e de ausência, de animado e de inanimado, de alma e de corpo.
9 – “Quem se fia em mim, mesmo que estivesse morto, viveráâ€?. Fiar-se nele, estar na fé, não é acreditar que pode haver regeneração do cadáver: é manter-se com firmeza diante da morte. Este “manter-seâ€? constitui propriamente a anastasis , a ressurreição, isto é o levantamento (a insurreição, que é outro sentido possível do termo grego). Nem regeneração nem reanimação, nem palingénese, nem renascimento nem reincarnação: mas o levantamento enquanto verticalidade perpendicular ao horizonte do túmulo. Importa saber que a anastasis não provém de si, do sujeito próprio, mas do outro: ela vem-lhe dum outro. É o outro que se levanta e que ressuscita em mim morto. É o outro que resssuscita por mim. “Ressusciteiâ€? não significa uma acção que eu teria exercido, mas uma passividade sofrida ou recebida. “Morriâ€? (palavra impossível) e “ressusciteiâ€? dizem a mesma coisa, a mesma passividade.
10 – Suspensa, como uma luz impassível entre o Universo e Deus, a Virgem dorme. Através da sua transparência serena, espraia-se a onda criadora, carregada de virtude natural e de graça. Que outra coisa é a Virgem? (T. de Chardin)
11 – A morte abre a relação, i.é., a partilha da partida. Cada um vem e parte sem fim. Aquilo que se apresenta como o fim revela-se sem fim. É o corpo carnal que revela o corpo glorioso. Só um corpo pode ser abatido ou levantado. Hoje é o dia em que festejamos a libertação total da existência, a sua assunção por Deus. Que a Virgem, Arca, nos transporte para o louvor e o Magnificat de todos os dias que é o nosso Credo.

A propósito do que escrevei (aqui, aqui e, na Torre de Menagem, aqui) sobre o facto de Pita Ameixa tirar as ilações políticas adequadas – a demissão da liderança da Federação do Baixo Alentejo – devido às posições publicamente assumidas por Jorge Sampaio e José Sócrates de não esquartejar o país nem o Alentejo em “comunidadezinhas intermunicipais”, conforme estipulam as Leis-Quadro da lavra do Dr. Miguel Relvas, o Francisco Nunes, na sua Planície Heróica, disse que «(…) é um sonho que alguém por aqui peça a demissão tão perto das autárquicas. É cá uma intuição… se calhar cimentada pela personalidade e ambição dos protagonistas que a servem.»
Ora, sonho ou não, com autárquicas à porta ou não, é hoje bem visível uma estranha conjugação de interesses entre Luís Pita Ameixa e José Raul dos Santos, através da leitura de vários sinais cujo primeiro o Francisco apelidou, e bem, de “Traição do Funchal”, em homenagem ao local onde há cerca de 1 ano os representantes do PS e do PSD do Distrito de Beja se juntaram num fim-de-semana para conluiarem a destruição da AMDB – Associação de Municípios do Distrito de Beja e criação de uma comunidade intermunicipal composta pelo Baixo Alentejo e Alentejo litora. Que sinais? Vejamos cronologicamente:
1 – A imposição de um regime de ilegalidade na AMDB, com os votos do PS e do PSD, durante quase 1 ano, deixando todos os seus funcionários sem qualquer protecção legal no caso de surgir alguma fatalidade;
2 – Criação, a correr e à pressinha, da “AMBAAL – Associação de Municípios de Baixo Alentejo e Alentejo Litoral”, cujos corpos sociais foram eleitos por unanimidade, entre Presidentes de Câmara do PS e do PSD, na passada 6ª feira (ver notícia);
3 – José Raul dos Santos, eleito deputado pelas listas do PSD do Porto, envia de Ourique para os cidadãos do Distrito uma carta timbrada com o “Escudo Nacional” com um texto publicitário onde anuncia ser um porta-voz autêntico das gentes alentejanas, tendo sido ridicularizado já por Luís Nazaré, no Causa Nossa e pelo Francisco Nunes na Planície Heróica;
4 – Conforme vem noticiando a Rádio Pax desde ontem, a primeira reunião da tal “AMBAAL – Associação de Municípios de Baixo Alentejo e Alentejo Litoral” ocorrerá já hoje para decidir, entre outras coisas, o futuro do Aeroporto de Beja (ver notícia), conforme denunciámos na Torre de Menagem, aqui;
5 – Hoje, novamente na Rádio Pax, noticia-se em discurso directo «Raul Santos disponível para defender região» e, mais adiante, na mesma notícia, pode-se ler «Já ontem Raul Santos e Luís Ameixa encontraram-se e abordaram questões relacionadas com a região, conforme, na Torre de Menagem, já dei conta.»
Diante destes sinais restarão dúvidas de que possa existir, há algum tempo, uma estratégia concertada entre as lideranças do PS e do PSD do Distrito de Beja para tomar o poder de assalto, dividindo o Alentejo em mini-latifúndios dispostos às suas mercês?
Estimado Francisco, sabes que não sou votante no PCP e por isso estou à vontade para dizer que pode até ser que seja um sonho, pode até ser que seja pedir demais, mas permanecermos calados nas mãos destes dirigentes políticos é permanecermos de costas voltadas para o desenvolvimento do Alentejo e para a renovação da classe politiqueira que nos tem subjugado e preso ao atavismo medíocre em que vivemos!
Pergunto o que já perguntei noutro lado: de quem é a culpa? De todos nós, dos que se calam e dos que nesta gente votam e, acrescento agora, das direcções nacionais dos Partidos que permitem que políticos desta estirpe cheguem a lugares de responsabilidade como agora o fizeram – Deputados da República!

adenda: o Nikonman foi o primeiro a mostrar a carta de José Raul dos Santos.

Ontem lá fui à Biblioteca Municipal de Beja assistir à apresentação do livro de poemas (textos, nas palavras do autor) de José Manuel Carreira Marques.
Trata-se de uma recolha datada que revela perfumes e estados de alma desencontrados do autor durante 3 anos e meio da sua vida.
Folheei o livro e, tal como disse Mário Mássimo a quem coube a apresentação, trata-se de poesia na boa tradição da linguagem dos afectos e não da nova vaga de tratamento estruturalista das palavras. Deixo-vos um que li e gostei particularmente:

Nem o mar sabe do meu naufrágio.
Há um vazio silencioso
e profundo
onde me agarro.
Veja as algas plantadas
nos navios naufragados
e oiço os queixumes dos mártires.
São os meus companheiros de infortúnio
que me olham espectrais e espantados
porque ninguém naufraga assim.