Morre-se,
Morre-se na exactíssima quantidade com que se nasce.
Morre-se,
Morre-se e vamos exactissimamente para donde viemos,
Para o “nada”!
Não para o nada relativo,
Não,
Para o absoluto,
Para o absoluto com que o obscurantismo do cientismo nos enforma.
Do “nada” todos viemos e iremos,
De igual forma,
De igual maneira
E neste breve hiato,
Entre a vinda e a ida a que chamamos vida,
Cada um a seu jeito
Procura sulcar perenes marcas,
Sobre o corpo dos outros, com ferro em brasa, se caso for,
Na vã tentativa de nos distinguirmos, de nos emanciparmos
Do “nada” que somos.
Não é o “nada” que nos aflige
É o nosso “nada” ser tão “nada” quanto o dos demais.
Tudo fazemos para que o nosso “nada” seja menos
Nada que o “nada” do nosso semelhante
ou que o “nada” deles seja um “nada” inferior ao nosso e ao do nosso grupo!
É quando um de nós regressa a esse “nada” que aqueles que ainda permanecem neste breve hiato fazem balanços, balanços que curam detectar as tais perenes marcas que quem partiu terá deixado sulcadas.
Foi um desses momentos que vivi recentemente ao procurar os sulcos que Alberto Pinto de Resende possa ter procurado deixar neste sua breve passagem.
Vã busca, a minha! O Alberto nunca procurou emancipar-se desse “nada” donde veio e sabia que retornaria, parece ter sabido que é desse “nada” que obtemos a essência da vida, o “verbo”, dedicando-a, sem esperar por espúrio reconhecimento social, à família e aos semelhantes que precisavam da mão de alguém para que o seu “nada” – a vida – fosse menos doloroso, menos infeliz, menos vilipendiado por aqueles que arrogantemente tentam sulcar as suas perenes marcas sobre o corpo dos seus párias.
Devo-te a honra de, por ti, o meu filho mais novo ser teu homónimo e sinto-me envergonhado por só neste hora ter alcançado a dimensão que deste à tua vida, fazendo sempre e incalsavelmente pelos outros e nunca sobre os outros.
Obrigado, Alberto, por mostrares que não é necessário deixar marcas, mas exemplos que possam ser seguidos! Descansa em paz nesse “nada” onde um dia todos nos encontraremos despojados de tudo menos do que somos e fizemos.
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A perda de um amigo por vezes toca-nos mais que um ou outro familiar menos chegado. O quanto o compreendo amigo Carlos. Com um abraço do Raul