de José Augusto Mourão op.

1. Reúne-nos o dever de fazer memória. De vigiar. Contra as forças do esquecimento. Contra a memória que esquece e que, como a água, arrasta tudo na sua voragem. A vigília pascal é a mãe de todas as vigílias durante a qual o mundo inteiro vigia, dizia Agostinho. Porque é ditosa esta noite? Porque recomeça aqui o mundo como ordem e justiça. Porque o grande Domingo começa. Porque o acontecimento pascal é o dom de Cristo presente ao seu corpo. Porque a saga da encarnação tocou o nosso desejo e a nossa carne. “Toda a carne será salva”, eis o que anuncia esta noite santa. Nesta noite Cristo desceu aos infernos assumindo a totalidade da humanidade passada e a vir. A imagem do Deus invisível salvou a imagem a partir da qual fomos criados.

2. Nesta noite todas as definições anteriores e restritivas do mundo voam em estilhaços. As etimologias supostas da palavra paskein, sofrer, ou a ideia de passagem (pascha-transitus) marcaram muito o sentido desta festa. Melitão de Sardes propõe o verbo paskein, como etimologia da palavra Páscoa, sem que isso afecte a compreensão daquilo a que foi o primeiro a chamar “o mistério pascal”. Militão transforma a Páscoa judia – a feliz passagem (diabasis = transitus) de Deus para lá das portas marcadas pelo sangue do cordeiro – no Logos, no seu hino sobre a Páscoa que é tanto uma homilia como um praeconium, um louvor a Deus, muito próximo do Exultet: “Corruptível o cordeiro, incorruptível o Senhor; imolado como cordeiro, ressuscitado como Deus”.

3. Ele é a imagem pática e desejante. Páscoa é o triunfo da imagem e o triunfo da carne. O nosso destino é pascal. É o triunfo de tudo o que deve ser atravessado, a saber um ventre de mulher, a ordem do sangrento, o cumprimento do sacrifício, a morte, tudo o que traz a marca da imagem e em que se encarna o desenrolar do seu destino, que é ser incorruptível. A imagem tem que ver com o ventre das mães, com a questão do sofrimento, do sangue e da morte, é preciso levá-la à ressurreição. Encontrá-la sob o modo de uma visibilidade transfigurada, i.e, de uma outra matéria, de uma visibilidade espiritual. Figura para lá da figura, forma para além da forma, luz antropomórfica do mundo redimido.

4. Se não interpretamos esta saga sob a ordem do pathos – da paixão, que foi antes de tudo um paskein, a morte passa -, e sem a ressurreição, nada compreendemos do Verbo que se fez carne e não corpo, pois que ele é a vida da palavra encarnada e não a morte dum invólucro caduco. O nosso destino, como imagem, é doravante pascal. Mas nem Orígenes nem Agostinho se satisfazem com esta maneira de ver a Páscoa. Na paixão do Senhor e na sua ressurreição é sacralizada a nossa passagem da morte à vida (2ª Carta a Januarius, Epist. 55, a, 2). A luz é o símbolo do dom de Deus, dos anos e da trindade, fonte de toda a luz. Gregório de Nazianzo vê a Páscoa como a atracção da luz para o alto e das vestes brancas que os baptizados traziam até ao domingo seguinte, in albis.

5. Não podemos olhar face a face nem a morte nem a vida. Só partilhamos o que não vemos – o invisível. Para acreditar não é mais preciso tocar, é preciso renunciar a tocar para ser tocado. Os relatos de Emaús ou de Tomé são exemplares. É preciso abrir os olhos. O túmulo vazio só existe para pupilas vazias e olhares cegos. Túmulo, pupila, clausura só pode abrir-se sobre a pura luz da nova aparição da carne. Não é corpo que ressuscita, mas a carne porque é nela que assenta a similitude reencontrada. Os olhos de Tomé procuram as provas da presença de um corpo. A carne ressuscitada propõe-lhe o “contacto”? dos buracos! “Noli me tangere”. Não podemos tocar a imagem, ela está lá para a ressurreição dos olhos e não para a reanimação dum cadáver tangível. Aquele que caminha para Emaús não é uma alma penada, um simulacro fantasmático, mas a imagem eternamente viva do Verbo que permanece invisto para a cegueira do espírito, visível para o olhar transfigurado, eikon.

6. A ressurreição não é um regresso à vida. É a glória do seio da morte, uma glória obscura cuja iluminação se confunde com a treva do túmulo. Não é um processo de regeneração (semelhante ao das mitologias como as de Osíris ou de Dionísio), mas consiste na relação com aquele que disse: “Eu sou a ressurreição”. “Quem se fia em mim, ainda que morra, viverá”? Fiar-se nele, na fé, não é acreditar que pode haver ressurreição do cadáver, é manter-se com firmeza na certeza duma posição diante da morte. É isso a anastasis. Esta revelação mostra que nada há a mostrar, a aparecer; não há “adeus”? entre Jesus e Maria. O corpo glorioso é simultaneamente aquele, que parte e aquele que fala, e que fala partindo, apagando-se tanto na obscuridade do túmulo como no aspecto do jardineiro. A sua glória só brilha para aqueles que o sabem ver e os seus olhos nada mais vêem que o jardineiro. Mas este fala e diz o nome daquela que chora o desaparecido. Dizer o nome é o que morre e não morre. É dizer o que parte sem partir (o que fica gravado nos túmulos). “Maria” revela Maria a si própria, revelando-lhe ao mesmo tempo a voz que se vai e que a nomeia e o envio a que o seu nome compromete: que ela parta também e que anuncie a partida, o dia, a glória do ressuscitado e a nossa.

7. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da nossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra ou um perfume. Mataram o profeta em sexta feira santa para o fazer calar, mas hoje a palavra do pastor convoca ainda, suscitando testemunhos que encarnem esta palavra e a transplantem para a terra boa do desejo de que o amor os toque. Esta Palavra tocou-nos através dos homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da vossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra. Nós somos vivos no meio do Vivo. Sexta feira santa mataram o profeta para o fazer calar, mas hoje a palavra da vida brota do túmulo e suscita testemunhos para tomar corpo no mundo e chegar às extremidades da terra para que todos ouçam este anúncio do amor de Deus. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida se torne auto-revelação da Vida. Que o Verbo tome carne nas nossas Igrejas. Esta Palavra tocou-nos através de homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida fale da primavera da vida, J. C.

8. Para nós, que chegamos aqui, amanhã será como ontem? A resposta foi confiada à nossa fé que é tanto uma estrada escura como uma estrada branca. Acreditemos na vida de Cristo mais forte do que a morte. Acreditemos na sua força, capaz de nos acordar do torpor e do amolecimento, como o grão que na primavera faz acordar a terra. Acreditemos na vitória da vida, na insubmissão que ergue o mundo. A repetição anual da festa só tem sentido se o cristão refaz a passagem da morte à vida que foi a do seu baptismo. Ele passa assim, “de Adão ao Cristo, do homem velho ao homem novo, do velho fermento aos ázimos, do velho ao novo”, dos dias daqui ao dia único que é Cristo. Toda a vida do cristão e da Igreja é uma saída do Egipto marcada por diferentes passagens, desde a primeira, a da conversão à fé, até à última, a da migração fora do corpo e do mundo.

9. Todo o instante é Páscoa, toda a vida é passagem, toda a vida é eucaristia. O jardineiro não cuida a lembrança mas o imemorial do partir e do porvir. A ressurreição não é uma reanimação: é o prolongamento infinito da morte que desloca e que desinstala todos os valores de presença e de ausência, de animado e de inanimado, de alma e de corpo. É a extensão do corpo à medida do mundo e da proximidade de todos os corpos. A morte abre a relação, a partilha da partida. Estamos sempre a ir e a vir. Divididos entre o conhecido e o desconhecido, o visível e o invisível. Entre a presença e a separação.

10. Quando, em nome de Jesus, mulheres e homens se reúnem para receber o alimento necessário para se manterem de pé, fazem-no porque este Corpo único para que são convocados os atrai. Jesus atrai-nos a partir do seu mistério pascal para que nos irmos tornando com Ele imagem pascal. O destino do nosso corpo é vir a ser um corpo de glória, “soma pneumatikon”, um corpo espiritual. Com as mulheres que choram junto à cruz; com os discípulos que correm ao sepulcro e acreditam, proclamemos nós também: Cristo, o Senhor ressuscitou, aleluia!

José Augusto Mourão op.


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