Boulez - um moderno serôdio? | Ideias Soltas

Boulez - um moderno serôdio?


A propósito deste texto do meu amigo Henrique Silveira onde, entre outras coisas afirma «Depois dos anos 20 do século passado o modernismo de Boulez é serôdio, é apenas uma radicalidade obrigatória e reaccionária, porque deve ser assim, porque é obrigatório rasgar.» apeteceu-me, para já, dedicar-lhe a transcrição de um excerto de uma entrevista que Pierre Boulez concedeu a Joshua Cody em Fevereiro pretérito:

«That’s very difficult to judge immediately, because we tend to relate value and style especially when looking at the past. When you are in the present, that is not always the case, because some works that don’t have an immense value nevertheless may have a kind of stylistic impulse which is necessary for this period. There are some works which are much better made, let’s say, much better fabricated; and they are not interesting because they don’t bring anything. So we are always too close to the fact, although you can have your personal judgement, of course; and I have my own judgements on things.

There are many ways of approaching the problems of music nowadays. But I think there are two things which I don’t like. First, the explicit reference to the past; because I think that’s useless. Second, oversimplistic solutions, which I find really useless. Sometimes when I read some manifestos not manifestos, but declarations of composers who want very simple styles, and so on, I think of what we have gone through historically in 1947, 1948, when you had the Stalinists saying that people should be happy…This kind of simplistic view is completely contradictory to the human being! The human being is not simple. The human being is really complex. When you have composers behind you like Wagner or Mahler, just to take two examples, who did find solutions which are challenging to you, you cannot say that they did not exist or were too complex, so let’s do something simple. Sometimes these kinds of solutions remind me of fast-food restaurants: convenient but completely uninteresting

Eu tenho a certeza de que o Henrique será sensível a estes textos e que talvez possa repensar, ou melhor, reequacionar o reaccionarismo de Boulez. É que se Boulez foi um modernista reaccionário, foi-o como reacção ao simplismo/facilitismo, à música para as grandes massas e para o povo, ao sucesso imediato a qualquer preço, repondo a exigência de uma complexidade perdida após os admiráveis da “Escola de Viena”!
Se a obra de Boulez ficará ou não para a história, Henrique, estou perfeitamente de acordo com A. Pinho Vargas: não sei! É a única resposta séria, se expurgada de cinismo. Ainda não se pode enquadrar Boulez na História, é cedo, enquanto que julgamentos, condenações ou profundas adesões serão sempre motivo para grandes audiências e, claro, a glória, a glória de atacarmos o mais célebre sem ele saber ou sequer dar conta e muito menos se ralar!


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2 Responses to “ Boulez - um moderno serôdio? ”

  1. A história não pode traduzir o que gostaríamos que tivesse acontecido, mas sim o que aconteceu. A música e as tomadas de posição do Boulez foram determinantes para gerações tanto de seguidores como de detractores que se seguiram. Quando o Glass compôs o “Einstein on the Beach” elegeu precisamente o Boulez como alvo da sua crítica. Aliás este personificação de “estalinista-musical-mor” só pode ajudar a garantir o seu lugar na história. E não me parece que o maior ou menor provincianismo ou carácter “serôdio” contem para um ponto de vista isento da história. Os wagnerianos também achavam o Brahms serôdio e os seguidores deste achavam Wagner um radical nihnilista… e fazem os dois parte incontestável da história da música. Era como se quiséssemos que o Che ou o Hitler não fizessem parte da história, independentemente das nossas simpatias ou antipatias. Além disso foi o Boulez que escreveu “Penser la musique d’aujourdui” ou “Relevés d’Apprenti”, obras teóricas fundamentais deste século estética ou tecnicamente falando. E compôs “Le Marteau sans maître”, “Rituel” e “Répons”, obras que, gostemos ou não delas, não podemos considerar como mero “botabaixismo”; são monumentos de construção e elaboração. E estão lá. (ou cá, como quisermos.)

  2. Não retiro nem acrescento uma vírgula, estimado César Viana.