Ballet Gulbenkian - reflexões
Não tenho dúvida de que a extinção do “Ballet Gulbenkian” é uma perda sem retorno para a dança e a cultura portuguesa.
Como disse o Henrique Silveira, O “Ballet Gulbenkian” já não era da Fundação nem sequer português - era património mundial e um orgulho nacional.
Permito-me, contudo, reflectir um pouco sobre modelos de gestão culturais e de gestão de dinheiros públicos no que à cultura diz respeito.
Será, no entanto, que a Fundação poderá abster-se de se regular pelas tendências de gestão cultural hoje em voga, muito mais rentáveis e, em muitos casos, não menos eficazes?
Estou de acordo quando o Henrique afirma «Longe estão os dias de Azeredo Perdigão, longe está a elegância e a qualidade do homem que fez da instituição o verdadeiro ministério da cultura de Portugal» mas, apesar da excelência da referida Companhia e do facto de ser, em boa verdade, a única escola de ballet em Portugal, o que a Fundação gasta com a sua manutenção é muito menos rentável do que apoiar diversos projectos na área, dentro e fora de portas, ou organizar espectáculos - o seu nome e imagem obtêm uma implantação exponencial face à aposta numa companhia residente.
É que longe vão os dias de Azeredo Perdição, os dias e os tempos, havendo que modernizar a gestão da Fundação para que daqui por uns anos possamos ainda contar com ela para apoiar a cultura portuguesa.
Note-se que digo isto com mágoa, entenda-se, mas trata-se de uma empresa privada, no caso com a figura jurídica de fundação, não lhe cabendo o papel que desempenhou, é certo, de ministério da cultura, mas sim de apoio aos projectos que considerará mais interessantes para o desenvolvimento da sua missão.
«Este país tem umaministra da cultura que não comenta nem dá a sua opinião sobre a extinção do Ballet Gulbenkian», diz o Henrique. Pois não, não comenta nem deve interferir na esfera do privado, podendo, apenas, lamentar a perda.
O que eu questiono é por que razão o Estado nunca apoiou a Fundação Gulbenkian, nomeadamente, a sua Orquestra e o seu Ballet?
De facto, o que agora aconteceu ao Ballet poderá rapidamente acontecer à Orquestra, uma vez que não se justifica que o Estado continue sem privilegiar a Gulbenkian como parceira preferencial nos domínios da Cultura e da Ciência, em vez de andar a esbanjar, só em Lisboa, dinheiros públicos com uma Companhia de Ópera, residentemente fixa e fixada, uma Sinfónica agregada à Ópera que pouco toca e não se desloca e uma Orquestra Metropolitana de que ninguém compreende a sua razão de existir, pulverizada que está de estrangeiros, negando a sua missão prima de ser uma via de profissionalização para os alunos da Escola Superior de Música que está na base do projecto AMEC!
Algo me diz que, não havendo dinheiro para isto tudo, o Estado deveria, há muito tempo, aliar-se a quem sabe fazer, a Gulbenkian, e abster-se de manter projectos que revelam indícios muito duvidosos na divulgação da música, do ballet e da ópera.
É tempo de poupar onde está muito mal gasto e aplicar os parcos recursos em quem tem provas dadas de que sabe fazer.
Quem sabe se, deste nodo, não seria possível Portugal manter a Companhia de Bailado e a Orquestra, apoiadas pelo Estado e pela Gulbenkian e outros privados, não deixando o ónus da manutenção, exclusivamente, para a Fundação?
ps: os bailarinos do Ballet Gulbenkian abriram um blogue (clique)












