Deixo-vos este poema de Carlos Nejar

Construção da Noite

No casulo há um homem
Mas o fundo é outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é outro lado.
É a treva
Onde o homem foi fechado
Mas o fundo é outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é outro lado
Mas o fundo é outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se à terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
É o outro lado
Que começa.

Carlos Nejar

O meu obrigado à Luísa Venturini pela forma como diz este poema.

A última revelação na música tradicional alentejana, os VádeModas, acabam de lançar em edição de autor o seu primeiro CD, gravado no estúdio “Portal do Som”, com capatação, misturas, masterização e produção do Luís Beco e do Ticha.
É difícil eleger as modas mais belas, no entanto ouso chamar a atenção para “Maria Capitua”, “Que Inveja”, “Lampião”, “Eu ia pela Rua”, “Tenho Pena”, “Alentejo” e “Menina Florentina” (em 12 são já muitas), bem como para superlativa qualidade do grupo vocal no seu conjunto e do fagote de Joaquim Simões.
Quem estiver interessado na sua aquisição deve fazê-lo directamente para o grupo através do endereço vademodas@hotmail.com ou através dos telms. 962 782 597 e 964 013 848.

Aqui fica a ficha técnica:

Grupo:

Jorge Sales: voz e percussão
Clia Marques: voz e percussão
José Andaluz: voz
Dina Marques: voz e bandolim
João Cavalo: voz e guitarra
Antelmo Serrado: voz, cavaquinho e percussão
Joaquim Simões: voz e fagote

Modas:

1 – Menina Florentina
2 – VádeModas
3 – Então por que não?
4 – Lampião
5 – Maria Capitua
6 – As Mulatinhas
7 – Eu ia pela Rua
8 – Que Inveja
9 – Laurinda
10 – Tenho Pena
11 – O Cabreiro
12 – Alentejo

O Luís na Natureza do Mal avança com a derrota da direita nas próximas presidenciais por considerar haver “Quatro candidatos de esquerda e um de centro esquerda“.
É uma perspectiva, mas quando até vemos o Louçã defender a forma como Cavaco nos meteu na zona euro e a permanência cordata nesse ambiente financeiro que não nos diz respeito nem de Portugal quer saber, eu até ouro de tanto procurar essa tal esquerda.
Não vejo esquerda nem direita nem nos candidatos nem nos partidos; vejo jogos de clientelas boçais que não têm coragem para repensar Portugal – definir estratégias e tenacidade para implementá-las.
Acredito que o problema do país é, de facto, de esquerda e de direita – não há quem ouse seguir em frente – residindo, assim, a sua essência não na direcção a tomar, mas nos tomates, ou melhor, na falta deles!

A diferença entre a regurgitação de novelas e concursos e reality merdas e o karaoquí das presidenciaisí não está no objecto – o entretenimento de tolos – mas no fim.., do último género, não dos tolos nem do seu entretem, antes do karaoquí, assim esperançados estamos.

O empenho de Augusto Santos Silva na preparação do centenário do nascimento de Lopes-Graça é bom pronúncio para a cultura portuguesa, para mais quando anuncia a edição de uma caixa com 8 CD’s, 7 dos quais com obras do homenageado.
É de saudar, por outro lado, que o Ministro da tutela do audiovisual anuncie que o trabalho agora efectuado é um passo importante para a constituição do Arquivo Fonográfico Português, uma vez que “a pesquisa efectuada nos arquivos da RDP revelou a existência de mais de 300 gravações de Lopes-Graça“.
Lamenta-se contudo o estado em que se deverá encontrar esse arquivo, por cuidar durante dezenas de anos, durante várias direcções, gravações desaparecidas nas mãos de particulares e em parte incerta, gravações apagadas, sem qualquer critério, por falta de verbas para fita, centenas de bobines atiradas para um armazém sem as mínimas condições de preservação daquele género de material, enfim, de tudo um pouco aconteceu…
Resta-nos a esperança de Santos Silva não se quedar pela boa intenção e empenhar-se, séria e zelosamente, na preservação, catalogação, digitalização e, sempre que apropriado, a edição do vastíssimo espólio da ex-Emissora Nacional!

Prémio Pessoa 2005

Parabéns ao premiado e ao júri, especialmente a este último, por ter conseguido, desta vez, reparar por entre a poeira levantada pela massiva desinformação mediática.

Vai para 15 anos que me deleito a escutar este trabalho de Alain Neveux, sem dúvida, para mim, a mais bela interpretação destas obras que até hoje conheci, à qual vou dedicar o fim de semana.
Alain Neveux? Conhecem? Claro que que sim, caros entendidos de coluna de opinião, toda a gente conhece…, mas vai para 25 anos que este homem, que nunca cedeu aos vorazes fazedores de vedetas, continua a sua carreira tocando para quem gosta de música, para quem busca novas sensações em conteúdos e não em embalados de “cultura light“, para utilizar a expressão de Vítor Oliveira Jorge.
Alain Neveux é apenas um dos melhores pianistas actuais, sem currículo de mostras nem festivais, tenham ou não os fazedores de opinião coluna ou não!
Aliás a questão não é tanto de coluna, talvez mais de espinha dorsal…

‘Dá-me a tua mão’
de Clarice Lispector

Dá-me a tua mão:
Vou agora contar-te
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o nímero um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é o entre sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos silêncio.

Clarice Lispector

e eu, em silêncio, minh’alma senti limpar.

A UNESCO está zangada connosco por muito pouco termos feito desde 2001, ano em que a região duriense foi elevada a Património Mundial.
Ora bem, mas o que há para fazer uma vez que o património continua lá – o nectar? Umas setas, ao que parece…
Oh pessoal, tá bem que fazemos sempre muito para conseguir, pouco para manter e nada para desenvolver, mas uns sinais a dizer que aquilo é Património Mundial, porra, vá lá, façam um esforço!

Vejamos, 7.200.000.000 euros para o TGV, mais 3.600.000.000 para a Ota, dá 9.800.000.000 euros. Admitindo que a UE comparticipa o máximo de 40%, fica à nossa conta, mais coisa menos coisa, 5.880.000.000 euros.
Ora dividir isto pelas 10.000.000 de almas, mais coisa menos coisa, dá 588 euros por cabeça.
A cabeça até que nem está muito cara, mas como por aqui há 6, mais coisa menos coisa, deixa cá ver, 588 x 6 = 3.528 palhaços!
Ora aí está, daqui contribuiremos com 3.528 euros, mais coisa menos coisa, pois, vamos andar muito menos nas estradas, é um facto, e, em calhando, a pé também que até o fôlego se nos esvai, mais coisa menos coisa.