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Arquivo de Dezembro, 2005

Feliz Natal e Bom Ano Novo

23, Dezembro, 2005 admine 2 comentários

Deixo-vos este poema de Carlos Nejar

Construção da Noite

No casulo há um homem
Mas o fundo é outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é outro lado.
É a treva
Onde o homem foi fechado
Mas o fundo é outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é outro lado
Mas o fundo é outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se à terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
É o outro lado
Que começa.

Carlos Nejar

O meu obrigado à Luísa Venturini pela forma como diz este poema.

Vá de Modas

A última revelação na música tradicional alentejana, os VádeModas, acabam de lançar em edição de autor o seu primeiro CD, gravado no estúdio “Portal do Som”, com capatação, misturas, masterização e produção do Luís Beco e do Ticha.
É difícil eleger as modas mais belas, no entanto ouso chamar a atenção para “Maria Capitua”, “Que Inveja”, “Lampião”, “Eu ia pela Rua”, “Tenho Pena”, “Alentejo” e “Menina Florentina” (em 12 são já muitas), bem como para superlativa qualidade do grupo vocal no seu conjunto e do fagote de Joaquim Simões.
Quem estiver interessado na sua aquisição deve fazê-lo directamente para o grupo através do endereço vademodas@hotmail.com ou através dos telms. 962 782 597 e 964 013 848.

Aqui fica a ficha técnica:

Grupo:

Jorge Sales: voz e percussão
Clia Marques: voz e percussão
José Andaluz: voz
Dina Marques: voz e bandolim
João Cavalo: voz e guitarra
Antelmo Serrado: voz, cavaquinho e percussão
Joaquim Simões: voz e fagote

Modas:

1 – Menina Florentina
2 – VádeModas
3 – Então por que não?
4 – Lampião
5 – Maria Capitua
6 – As Mulatinhas
7 – Eu ia pela Rua
8 – Que Inveja
9 – Laurinda
10 – Tenho Pena
11 – O Cabreiro
12 – Alentejo

Presendiciais – esquerda, direita, volver

20, Dezembro, 2005 admine 2 comentários

O Luís na Natureza do Mal avança com a derrota da direita nas próximas presidenciais por considerar haver “Quatro candidatos de esquerda e um de centro esquerda“.
É uma perspectiva, mas quando até vemos o Louçã defender a forma como Cavaco nos meteu na zona euro e a permanência cordata nesse ambiente financeiro que não nos diz respeito nem de Portugal quer saber, eu até ouro de tanto procurar essa tal esquerda.
Não vejo esquerda nem direita nem nos candidatos nem nos partidos; vejo jogos de clientelas boçais que não têm coragem para repensar Portugal – definir estratégias e tenacidade para implementá-las.
Acredito que o problema do país é, de facto, de esquerda e de direita – não há quem ouse seguir em frente – residindo, assim, a sua essência não na direcção a tomar, mas nos tomates, ou melhor, na falta deles!

O audiovisual e o entretenimento – breve reflexão

20, Dezembro, 2005 admine Nenhum comentário
A diferença entre a regurgitação de novelas e concursos e reality merdas e o karaoquí das presidenciaisí não está no objecto – o entretenimento de tolos – mas no fim.., do último género, não dos tolos nem do seu entretem, antes do karaoquí, assim esperançados estamos.

Lopes-Graça – preparação das comemorações do centenário

O empenho de Augusto Santos Silva na preparação do centenário do nascimento de Lopes-Graça é bom pronúncio para a cultura portuguesa, para mais quando anuncia a edição de uma caixa com 8 CD’s, 7 dos quais com obras do homenageado.
É de saudar, por outro lado, que o Ministro da tutela do audiovisual anuncie que o trabalho agora efectuado é um passo importante para a constituição do Arquivo Fonográfico Português, uma vez que “a pesquisa efectuada nos arquivos da RDP revelou a existência de mais de 300 gravações de Lopes-Graça“.
Lamenta-se contudo o estado em que se deverá encontrar esse arquivo, por cuidar durante dezenas de anos, durante várias direcções, gravações desaparecidas nas mãos de particulares e em parte incerta, gravações apagadas, sem qualquer critério, por falta de verbas para fita, centenas de bobines atiradas para um armazém sem as mínimas condições de preservação daquele género de material, enfim, de tudo um pouco aconteceu…
Resta-nos a esperança de Santos Silva não se quedar pela boa intenção e empenhar-se, séria e zelosamente, na preservação, catalogação, digitalização e, sempre que apropriado, a edição do vastíssimo espólio da ex-Emissora Nacional!

Luís Miguel Cintra

17, Dezembro, 2005 admine Nenhum comentário

Prémio Pessoa 2005

Parabéns ao premiado e ao júri, especialmente a este último, por ter conseguido, desta vez, reparar por entre a poeira levantada pela massiva desinformação mediática.

Schöenberg, Berg e Webern – obras para piano por Alain Neveux

Vai para 15 anos que me deleito a escutar este trabalho de Alain Neveux, sem dúvida, para mim, a mais bela interpretação destas obras que até hoje conheci, à qual vou dedicar o fim de semana.
Alain Neveux? Conhecem? Claro que que sim, caros entendidos de coluna de opinião, toda a gente conhece…, mas vai para 25 anos que este homem, que nunca cedeu aos vorazes fazedores de vedetas, continua a sua carreira tocando para quem gosta de música, para quem busca novas sensações em conteúdos e não em embalados de “cultura light“, para utilizar a expressão de Vítor Oliveira Jorge.
Alain Neveux é apenas um dos melhores pianistas actuais, sem currículo de mostras nem festivais, tenham ou não os fazedores de opinião coluna ou não!
Aliás a questão não é tanto de coluna, talvez mais de espinha dorsal…

Luísa Venturini leu

‘Dá-me a tua mão’
de Clarice Lispector

Dá-me a tua mão:
Vou agora contar-te
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o nímero um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é o entre sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos silêncio.

Clarice Lispector

e eu, em silêncio, minh’alma senti limpar.

Douro – património mundial

14, Dezembro, 2005 admine Nenhum comentário

A UNESCO está zangada connosco por muito pouco termos feito desde 2001, ano em que a região duriense foi elevada a Património Mundial.
Ora bem, mas o que há para fazer uma vez que o património continua lá – o nectar? Umas setas, ao que parece…
Oh pessoal, tá bem que fazemos sempre muito para conseguir, pouco para manter e nada para desenvolver, mas uns sinais a dizer que aquilo é Património Mundial, porra, vá lá, façam um esforço!

«TGV tira milhões das estradas»

13, Dezembro, 2005 admine 2 comentários

Vejamos, 7.200.000.000 euros para o TGV, mais 3.600.000.000 para a Ota, dá 9.800.000.000 euros. Admitindo que a UE comparticipa o máximo de 40%, fica à nossa conta, mais coisa menos coisa, 5.880.000.000 euros.
Ora dividir isto pelas 10.000.000 de almas, mais coisa menos coisa, dá 588 euros por cabeça.
A cabeça até que nem está muito cara, mas como por aqui há 6, mais coisa menos coisa, deixa cá ver, 588 x 6 = 3.528 palhaços!
Ora aí está, daqui contribuiremos com 3.528 euros, mais coisa menos coisa, pois, vamos andar muito menos nas estradas, é um facto, e, em calhando, a pé também que até o fôlego se nos esvai, mais coisa menos coisa.

Guilhermina Suggia

12, Dezembro, 2005 admine 2 comentários

Depois de anos de labor, tenacidade e amor que Virgílio Marques dedicou ao serviço da divulgação da extraordinária violoncelista a Associação Guilhermina Suggia reuniu, em Assembleia Geral de fundadores, no pretérito Sábado, para eleger os Orgãos Sociais para o 1º triénio da sua existência, tendo a lista candidata sido eleita com apenas 2 votos em branco, um para a Mesa da Assembleia Geral e outro para o Conselho Fiscal, e uma abstenção para a Direcção.

Tratou-se de um momento particularmente relevante já que muito pouco, ou nada de relevante, foi feito desde o seu falecimento para constituir este grande nome da música mundial em nosso património cultural, elemento fundamental para a nossa identidade tão parca em vultos desta grandeza.
A direcção eleita propõe-se intervir em 4 eixos estruturantes que, pela sua ambição, endereço os votos de maiores felicidades para a sua prossecução:

1 – Constituir a residência de Suggia na Rua da Alegria, no Porto, em Casa-Museu com a intenção de albergar todo o espólio da violoncelista disperso e desprezado em muitos dos casos;

2 – Digitalização para Edição Integral das gravações que Suggia deixou;

3 – Promoção e produção do Concurso Internacional de Violoncelo Guilhermina Suggia;

4 – Promoção e produção de um Festival de Violoncelo que pretendem que seja um momento de partilha de saberes e experiências.

São quatro eixos muito fortes que carecem de grande empenho não só da direcção como de todos os associados aos quais eu formular votos para a concretização de um 5º – exigir o respeito e cumprimento integral do testamento de Guilhermina Suggia, minuciosamente lavrado.

É, sem dúvida alguma, um momento de intensa alegria para mim, ver que a chamada sociedade civil parece começar a querer acordar para defender o que é seu, sem esperar que o Estado tenha a iniciativa que sempre lhe faltou.

Deixo a lista completa dos fundadores eleitos e o agradecimento, mais uma vez, ao Virgílio Marques, sem o qual nada disto teria sido possível.

Mesa da Assembleia Geral

Rui Vieira Nery – Presidente

Mário Cláudio – Secretário

Jed Barahal – Secretário

Direcção

Manuel Dias da Fonseca – Presidente

Helder Macedo Sampaio – Vice-Presidente

Virgílio Marques – Vice-Presidente

José Luís Borges Coelho – Vogal

Sofia Lourenço – Vogal

Conselho Fiscal

José Manuel Dias da Fonseca – Presidente

Fátima Pombo – Vogal

José Augusto Pereira de Sousa – Vogal

ps: fotografia retirada do blogue Guilhermina Suggia

«Cavaco Silva diz que Portugal está na situação mais difícil dos últimos 25 anos»

7, Dezembro, 2005 admine 4 comentários

Se há coisa que não se pode negar é a perspicácia analítico-metafísica de Cavaco Silva. O homem vê e receita.
Vai mesmo mais longe ao afirmar que «(…) a actual situação do país não se deve apenas à conjuntura internacional, apontando o exemplo da Espanha (…)».
O homem só pode ser clarividente, no mínimo, a precisão da sua análise é devastadora… para si próprio. É que, de facto, nos últimos 30 anos Espanha fez, e a tempo, a regionalização que ele recusou e por outro lado, nos lugares que importam para uma visão estratégica do país, na vez de Cavaco, Guterres e Barroso tiveram Gonzalez e Aznar e na de Soares um tal de Juan Carlos.
Afinal, a sua autoridade deverá advir da sua sapiência contabilística e não da sua governação! Terá sido isto que ele nos quis transmitir?

Exame Nacional de Português? Para quê?

6, Dezembro, 2005 admine 5 comentários

Ele há gente que não se acomoda mesmo às exigências destes novos tempos de produtividade ex-over-sex-machine …, um tempo em que o dividendo é avaliado em créditos de acções performativas!!!
Ó minha gente, depois de:
- o McDonald’s ter lançado uma sopa,
- a Jaguar ter lançado modelos com propulsores a gasóleo,
- o Louçã, também ele, defender que Portugal deve permanecer, ordeiramente, na zona Euro,

qual o espanto de retirar a carga de trabalhos que implica um português aprender português, para mais se o tal de plano tecnológico for para inglês ver?

«CULTURA LIGHT – A pesada leveza dos entretenimentos que nos vendem»

5, Dezembro, 2005 admine 2 comentários

Tive a sorte de conhecer Alice Valente (ver aqui e aqui) no decorrer da excelente exposição que apresentou na Pousada de Beja, “Laranja-Lima“, a 5ª e 6ª cor das nove cores do projecto «CORPOtraçoCORPO a poesia e a pintura».
As ideias que trocámos sobre a fast-cultura que hoje nos servem em lindas embalagens e a paranóia da criatividade – o criar por criar – néscias de conteúdo rapidamente nos aproximaram, aproveitando para deixar aqui um texto da sua autoria, escrito como resumo do que apresentou na 9ª Mesa-redonda de Primavera do Porto: «CULTURA LIGHT – A pesada leveza dos entretenimentos que nos vendem», que ocorreu na Faculdade de Letras da UP, DCTP, a 22 e 23 de Abril de 2005, que nos proporciona uma imagem de fino traço sobre o assunto em questão. Aqui vai:

«A CONSCIENTE NEGLIGÊNCIA DO CORPO

É o corpo com o pensamento e a alma que define a representação da nossa existência sem qualquer oposição na incontestável interpretação do incorpóreo e que racionalmente não podemos reconhecer nem testemunhar. O corpo define-se pela sua fisiologia, que o mantém vivo e activo, no entanto o corpo está dependente da anima.
Um corpo é efémero e de vida passageira, ainda assim, podendo-se projectar em outras realidades, uma vez que o que fica de nós ou do nosso corpo é tão-somente o resultado do pensamento…
De certa forma deveríamos admitir que o Homem em seu aperfeiçoamento civilizacional se tornaria mais cerebral e menos substrato físico, mais pensamento do que corpóreo, mais inteligência do que esperteza, mais intelectual do que simples dependência da sua fisiologia… Pois mas não está acontecer esta evolução na maior parte da Humanidade, está assim com uma maior tendência para um aproveitamento fugaz do dia a dia do que para a evolução das ideias, está assim, a abandonar o pensamento numa consciente negligência do corpo.»

Alice Valente Alves
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