É o título da crónica de Pacheco Pereira no Público de hoje, transcrita mais tarde no Abrupto, analisando o fenómeno da adesão dos eleitores à candidatura de Manuel Alegre, assunto que o António Costa Amaral no Arte da Fuga bem desenvolve.
Estou inteiramente de acordo, no essencial, mas não no que poderá estar subjacente – a tentativa de desmoronamento do PS, já ontem ensaiada por M. Rebelo de Sousa, em debate promovido pelo Centro Nacional de Cultura, ao instar Manuel Alegre a capitalizar este seu resultado para ser “a consciência crítica” do PS. (ver notícia)

Sobre a rotatividade dos partidos do Bloco Central que, purgados da sua ideologia fundadora, assentam o seu poder em redes clientelares que dominam todas as estruturas do Estado, com total desprezo pelos mandatos que os eleitores lhes conferem, já muito escrevi – basta ler este post ou percorrer este arquivo.
Este fenómeno de crescente repulsa pelos aparelhos partidários não é novo nem tem exclusividade nacional – a crescente abstenção na Europa é o primeiro e mais claro sinal (ver entradas 1; 2; 3 em diálogo com Francisco José Viegas, Vital Moreira e Paulo Gorjão a propósito da abstenção e crise de representatividade) de que os partidos são os principais responsáveis pelo declínio da democracia representativa.
O timing de Marcelo Rebelo de Sousa e de Pacheco Pereira, bem como a colagem ao resultado de Manuel Alegre, é que torna as suas interrogações muito suspeitas já que a vitória de Cavaco Silva deve-se, essencialmente, ao seu posicionamento supra-partidário, colocando-se não fora nem lateralmente, antes acima dos partidos seus apoiantes, obrigando os respectivos aparelhos a seguir, estrictamente, a agenda e a estratégia que definiu.
Assim, o fenómeno de repulsa ao sistema partidário foi o motor da adesão à candidatura de Manuel Alegre e, principalmente, da vitória de Cavaco Silva que demonstrou, a quem dúvidas tivesse, que o PSD, sem ele, permanece um deserto.
Por mais voltas que eu dê na análise dos resultados de Domingo só encontro uma derrota bem pesada – a dos aparelhos partidários do Bloco Central, só que, como detentores dos poderes clientelares disseminados por todos os recânditos da administração pública, recusar-se-ão sempre a aceitá-la até à sua derrocada final.
Talvez, talvez, antes dela, consigamos furtar-nos à oligarquia partidária e salvar a democracia representativa, incentivando e desenvolvendo o exercício de uma cidadania responsável e consequente. Talvez…


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4 Respostas to “A lenta dissolução dos partidos”

Comentários (3) Trackbacks (1)
  1. Paulo diz:

    A lenta dissolução dos partidos vem na sequência da lenta crise do fim dos media, que vem na sequência da crise da extrema esquerda, que vem da lenta dissolução da democracia, que por sua vez decorre da lenta dissolução da política, e porque não dizê-lo, da lenta dissolução da organização social. O apocalipse vindo JPP, ele próprio um humano e, como tal, um ser em lenta dissolução, perde para o apocalipse de VPV porque este, ao menos, é lúcido e não pretende obrigar os outros a levarem-no a sério.

  2. AA diz:

    Obrigado pela referência.

    Ficamos atentos ao que se passa, a “dissolução” dos partidos pode ser uma oportunidade ou uma ameaça…

  3. carlos a.a. diz:

    Sem dúvida, caro António C. Amaral, mas se é um facto que os partidos já pouco mais representarão que as suas clientelas, a responsabilidade de poder ser uma ameaça ou oportunidade recai sobre todos nós neste processo em andamento.

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