Somos o nada do nada que somos
Bebemos a água que nos molha
Serpenteados ao vento de um dia
Balanceados entre duas margens
Livres e despenteados de cabelos
Colhemos a fruta que não semeámos
Gritamos
Suplicamos pelo não merecido
Visitamos ou somos visitados por indesejados
Engolimos qualquer comida que mate
A fome de mendigos sempre vestidos
Da mesma noite no mesmo dia
Diferentes e diferenciados
Todos sonhamos acordados
Algures debaixo do ânimo de verdes caÃdos
Que já não mais acalme outras dores
Daquela que mais dói
Que é de ter
E não querer saber que se tem
de Alice Valente, retirado do livro “Ã?guas Cruzadas”
No próximo mês de Março, entre os dias 6 e 9, realizar-se-á, em Lisboa, no CCB, a Conferência Mundial sobre Educação Artística, patrocinada pela UNESCO e pelo Governo de Portugal sob o tema “Desenvolver capacidades criativas para o sec. XXI“, com o apoio da International Society for Education throught Art, da International Society for Music Education, do Ministério da Educação e da International Education.
Este evento, para mais realizando-se em Portugal, é de extrema actualiade, fruto de várias conferências preparatórias realizadas nos 5 continentes, esperando que contribua para centrar a educação na busca de identidade(s) e técnicas que incentivem o desejo de participar activamente na construção da sociedade global que vivemos.
Deixo o texto de apresentação do programa cujo link podem seguir clicando na imagem:
«A Conferência reunirá unicamente representantes dos Ministérios da Educação e/ou da Cultura, assim como peritos, profissionais e investigadores, que serão convidados a participar a título pessoal. A Conferência será dedicada à Educação Artística e em especial ao ensino das práticas artísticas (artes plásticas, “performances”, dança, música, teatro, ateliers de escrita e de poesia) destinados a crianças e adolescentes em idade escolar. Entre os resultados esperados, prevê-se que a Conferência permita alcançar um entendimento geral sobre o que se pode definir como uma educação de qualidade e que nela se enfatize especialmente a importância da criatividade no ensino das artes, como mecanismo fundamental na melhora das capacidades de aprendizagem das crianças e dos adolescentes e em especial aqueles que vêm de meios desfavorecidos. Uma declaração final deverá sublinhar a importância da educação artística como sujeito de estudo, assim como a incidência das disciplinas artísticas podem ter sobre o desenvolvimento intelectual e pessoal da criança e do adolescente e sobre o seu comportamento social.»
«Os representantes dos principais grupos políticos do Parlamento Europeu e da União Europeia apelaram hoje ao uso responsável da liberdade de expressão e condenaram as reacções violentas contra a publicação de caricaturas sobre Maomé.» no Público
A mim, parece-me, mas quem sou eu…
«Os deputados do Parlamento Europeu, reunidos hoje em Estrasburgo, deverão defender a liberdade de expressão como direito fundamental e condenar os actos de violência contra interesses europeus». (no Público)
Será que esta gente ensandeceu? Condenar os actos de violência, pois com certeza, condená-los e precavermo-nos contra eles, mas dar ênfase à defesa da liberdade de expressão? Quem a pôs em causa, não foram os governantes que apresentaram desculpas pela publicação dos cartoons?
Já agora, se é para defender a liberdade de expressão, por que não decretarem um boicote comercial à China? Ou será que há valores mais “fundamentais” que outros – o da salvaguarda dos investimentos ocidentais lá realizados?
Ora bardamerda, meus senhores! Isto é palhaçada a mais!
Icaro Doria, jornalista, a propósito das suas preocupações à cerca do mundo em que vivemos, elaborou 8 gráficos aproveitando 8 bandeiras. O impacto é assinalável e muito interessante seria se fossem didacticamente aproveitadas, por exemplo, incluÃdas nos manuais escolares de “Estudo do Meio” ou “Geografia” ou, porque não, penduradas nas salas de aula em vez de retratos de Presidentes ou Primeiro-Ministros.
Curiosamente, estes gráficos correram a net através de emails, associados à mensagem de que a autoria seria de um diplomata norueguês que as teria apresentado numa ovacionada sessão da ONU. Tal é falso, não existe nenhum diplomata Charung Gollar, nem nunca foram apresentadas em tal organismo.
Deixo-as aqui para, quem ainda não as conhecer, poder aprecia-las, pois são imagens do nosso mundo, aquele em que vivemos, que se calhar não sentimos, mas temos de lidar.








o Henrique Silveira rende-se à Cecilia. Já não era sem tempo…
Sendo acérrimo defensor da liberdade de expressão, depois de muito reflectir sobre o que fazer quando pessoas que prezo me endereçaram o convite para aderir a uma petição, entendi por bem não o fazer. Não sei se entendi bem, entendi por bem…
É que não considero que as manifestações de muçulmanos, com mais ou menos ameaças, constituam atentados contra a liberdade de expressão no Ocidente e compreendo, perfeitamente, que se tenham sentido ofendidos com a publicação daqueles cartoons e que, consequentemente, fruam do direito à indignação, de forma não violenta, bem entendido.
Quem vai lendo o que por aqui vou escrevendo saberá que, apesar das muitas críticas ao nosso modo de vida, em especial, ao nosso alheamento sobre a miséria em que vive a esmagadora maioria da população mundial, prefiro viver e defender esta tal de democracia, apesar de todas as injustiças que ela promove, embora não tenha ilusões sobre o facto da sorte que tive em, nestes tempos, ter nascido deste lado. Não esqueço que, para viver como vivo, exploramos todo o mundo durante séculos, fizemos uma revolução industrial à custa de uma mão-de-obra miserável, inventamos a bolsa onde se enriquece sem nada se produzir, até nos atolarmos na depressão de 29. Daí para cá, aconteceu a 2ª Guerra que só não nos retirou a hegemonia mundial porque inventamos a bomba atómica.
Com efeito, nem há 3 séculos éramos muito mais incultos e miseráveis que os árabes e, de 45 até hoje, vivemos um período que vislumbro vir a chamar-se, daqui por um século ou mais, qualquer coisa como “a era da hegemonia atómica ocidental”, que permite que o sistema capitalista continue a explorar a mão-de-obra miserável (por isso não investe já nos países social-democratas, preferindo a Ásia e os países produtores de petróleo), já que sem ela a produção industrial primária ou a das novas tecnologias não seriam viáveis por inacessíveis aos nossos bolsos.
Se eu tivesse tido o azar de ter nascido, nestes mesmos tempos, do lado de lá, seria, certamente, mais um indignado com a arrogância com que os auto-proclamados senhores do mundo se governam, e o resto do mundo desgovernam, à força do capital e, quando tal não seja possível, à força da ameaça da bomba ou da concretização da guerra.
Os muçulmanos, pacíficos ou violentos, sabem que a nossa supremacia sobre eles não advém da cultura, da civilização, da democracia, dos benefícios sociais, das amplas liberdades (impossíveis sem a exploração alheia); eles sabem que o que faz a diferença é a tutela mundial, da qual não abdicamos (pela nossa própria sobrevivência), sobre quem pode ou não desenvolver industrialmente a cisão do átomo.
O resto, meus amigos, são cantigas de entreter, pois é evidente que existe uma fractura mundial entre quem dispõe e quem não dispõe, nem lhe é permitido dispor, da energia atómica. Não existe um choque civilizações nem de culturas ou, a existir, não são a essência do fundamento – são já consequências da indignação dos menos poderosos em relação aos detentores do poder, na nossa era, o poder sobre a energia nuclear.
Posto isto, regresso ao problema da liberdade de expressão, já que é um direito que não devemos alienar pois tem sido, nos últimos 40 anos, o mais eficaz poder de fiscalização da nossa democracia, para dizer que a publicação dos referidos cartoons foi um acto de uma agressividade gratuita e inconsequente, servindo apenas para ofender uns largos milhões de pessoas, cuja esmagadora maioria não merecia tal ignomínia, não servindo o argumento de que “por cá estamos habituados a isso”.
Acima da liberdade de expressão, e até para que ela se manifeste em todo o seu esplendor, está a ética, profissional e pessoal, ética essa que nunca deveria permitir a liberdade de agredir e vexar publicamente fosse quem fosse, a não ser em caso de razão transcendente ou, no mínimo, eticamente consequente. Não foi o caso do cartonista, nem do jornalista editor, nem do director da redacção do jornal em questão. Neste sentido, não consigo vislumbrar que aquelas publicações sejam representativas do exercício de uma liberdade, antes sim de uma agressão gratuita e feroz, a coberto do precioso direito de liberdade de expressão.
Não há margem para ingenuidades, aí estão as profanações dos túmulos muçulmanos na Dinamarca caso dúvidas acalentássemos.
No entanto, preocupou-me profundamente o pedido de desculpas dos governantes ocidentais, pois ao fazê-lo, esses sim, colocaram em causa a liberdade de expressão! Ou seja, enquanto a publicação dos cartoons poderia mais não ser que um “fais divers”, os sucessivos pedidos de desculpas implicam que quem os apresentou está em condições, futuramente, de tomar a iniciativa de inibir a liberdade de expressão – eles é que a estão a colocá-la em causa ao assumirem que, se dependesse deles, os cartoons não seriam publicados (hoje será o Alto Representante para a Política Externa da União Europeia (UE), Javier Solana, a reunir-se, em Djeddah, com o secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica, para mais um pedidinho de desculpas!!!)
Isto é ridículo! A que propósito é que governantes de Estados ocidentais e da UE assumem responsabilidade sobre o que um jornalzeco da Dinamarca resolveu publicar? Será que qualquer dia teremos os nossos governantes a pedirem desculpas públicas a todas as pessoas que forem enxovalhadas no “24 horas”, no “Crime” ou em qualquer outra publicação?
Isto é que é deveras preocupante, estas atitudes é que puseram em causa a liberdade de expressão sendo, agora sim, razão bastante para um manifesto exigindo que os governantes se inibam de intervir sobre a liberdade de expressão nos órgãos de comunicação social, sejam eles públicos ou privados.
“(…) In terms of its evolutionary significance, Stephen Pinker, for instance, as a theorist of cognition, believes that music has no evolutionary meaning. He actually calls it auditory cheesecake. And yet, he thinks it’s one of the great human mysteries because every culture we know or have known of had some form of music. There’s obviously something significant about this, but on an evolutionary level he thinks there’s no real imperative. It’s just something that exists and is a rather extraordinary mystery because of that. I don’t think that’s true. I think that there really is a direct evolutionary imperative. Music is the vehicle through which we explore our auditory structural coupling to the external world.”
David Dunn (excerto de entrevista à Arts Electric a 5/12/2005)
Mário Vieira de Carvalho, a propósito da elaboração de um novo projecto que regulamentará a atribuição de subsÃdios à s estruturas do teatro, deslocou-se, pessoalmente, a várias instituições do Norte e, brevemente, à s do Centro e do Sul, a fim de auscultar a opinião dos interessados.
BelissÃma intenção, mas pergunto, o que anda a fazer o recém empossado director do Instituto das Artes, Jorge Vaz de Carvalho, que ainda não se dignou receber nenhuma das Companhias que há muito pediram uma audiência e não obtiveram qualquer resposta?






















