Sendo acérrimo defensor da liberdade de expressão, depois de muito reflectir sobre o que fazer quando pessoas que prezo me endereçaram o convite para aderir a uma petição, entendi por bem não o fazer. Não sei se entendi bem, entendi por bem…
É que não considero que as manifestações de muçulmanos, com mais ou menos ameaças, constituam atentados contra a liberdade de expressão no Ocidente e compreendo, perfeitamente, que se tenham sentido ofendidos com a publicação daqueles cartoons e que, consequentemente, fruam do direito à indignação, de forma não violenta, bem entendido.
Quem vai lendo o que por aqui vou escrevendo saberá que, apesar das muitas críticas ao nosso modo de vida, em especial, ao nosso alheamento sobre a miséria em que vive a esmagadora maioria da população mundial, prefiro viver e defender esta tal de democracia, apesar de todas as injustiças que ela promove, embora não tenha ilusões sobre o facto da sorte que tive em, nestes tempos, ter nascido deste lado. Não esqueço que, para viver como vivo, exploramos todo o mundo durante séculos, fizemos uma revolução industrial à custa de uma mão-de-obra miserável, inventamos a bolsa onde se enriquece sem nada se produzir, até nos atolarmos na depressão de 29. Daí para cá, aconteceu a 2ª Guerra que só não nos retirou a hegemonia mundial porque inventamos a bomba atómica.
Com efeito, nem há 3 séculos éramos muito mais incultos e miseráveis que os árabes e, de 45 até hoje, vivemos um período que vislumbro vir a chamar-se, daqui por um século ou mais, qualquer coisa como “a era da hegemonia atómica ocidental”, que permite que o sistema capitalista continue a explorar a mão-de-obra miserável (por isso não investe já nos países social-democratas, preferindo a Ásia e os países produtores de petróleo), já que sem ela a produção industrial primária ou a das novas tecnologias não seriam viáveis por inacessíveis aos nossos bolsos.
Se eu tivesse tido o azar de ter nascido, nestes mesmos tempos, do lado de lá, seria, certamente, mais um indignado com a arrogância com que os auto-proclamados senhores do mundo se governam, e o resto do mundo desgovernam, à força do capital e, quando tal não seja possível, à força da ameaça da bomba ou da concretização da guerra.
Os muçulmanos, pacíficos ou violentos, sabem que a nossa supremacia sobre eles não advém da cultura, da civilização, da democracia, dos benefícios sociais, das amplas liberdades (impossíveis sem a exploração alheia); eles sabem que o que faz a diferença é a tutela mundial, da qual não abdicamos (pela nossa própria sobrevivência), sobre quem pode ou não desenvolver industrialmente a cisão do átomo.
O resto, meus amigos, são cantigas de entreter, pois é evidente que existe uma fractura mundial entre quem dispõe e quem não dispõe, nem lhe é permitido dispor, da energia atómica. Não existe um choque civilizações nem de culturas ou, a existir, não são a essência do fundamento - são já consequências da indignação dos menos poderosos em relação aos detentores do poder, na nossa era, o poder sobre a energia nuclear.
Posto isto, regresso ao problema da liberdade de expressão, já que é um direito que não devemos alienar pois tem sido, nos últimos 40 anos, o mais eficaz poder de fiscalização da nossa democracia, para dizer que a publicação dos referidos cartoons foi um acto de uma agressividade gratuita e inconsequente, servindo apenas para ofender uns largos milhões de pessoas, cuja esmagadora maioria não merecia tal ignomínia, não servindo o argumento de que “por cá estamos habituados a isso”.
Acima da liberdade de expressão, e até para que ela se manifeste em todo o seu esplendor, está a ética, profissional e pessoal, ética essa que nunca deveria permitir a liberdade de agredir e vexar publicamente fosse quem fosse, a não ser em caso de razão transcendente ou, no mínimo, eticamente consequente. Não foi o caso do cartonista, nem do jornalista editor, nem do director da redacção do jornal em questão. Neste sentido, não consigo vislumbrar que aquelas publicações sejam representativas do exercício de uma liberdade, antes sim de uma agressão gratuita e feroz, a coberto do precioso direito de liberdade de expressão.
Não há margem para ingenuidades, aí estão as profanações dos túmulos muçulmanos na Dinamarca caso dúvidas acalentássemos.
No entanto, preocupou-me profundamente o pedido de desculpas dos governantes ocidentais, pois ao fazê-lo, esses sim, colocaram em causa a liberdade de expressão! Ou seja, enquanto a publicação dos cartoons poderia mais não ser que um “fais divers”, os sucessivos pedidos de desculpas implicam que quem os apresentou está em condições, futuramente, de tomar a iniciativa de inibir a liberdade de expressão - eles é que a estão a colocá-la em causa ao assumirem que, se dependesse deles, os cartoons não seriam publicados (hoje será o Alto Representante para a Política Externa da União Europeia (UE), Javier Solana, a reunir-se, em Djeddah, com o secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica, para mais um pedidinho de desculpas!!!)
Isto é ridículo! A que propósito é que governantes de Estados ocidentais e da UE assumem responsabilidade sobre o que um jornalzeco da Dinamarca resolveu publicar? Será que qualquer dia teremos os nossos governantes a pedirem desculpas públicas a todas as pessoas que forem enxovalhadas no “24 horas”, no “Crime” ou em qualquer outra publicação?
Isto é que é deveras preocupante, estas atitudes é que puseram em causa a liberdade de expressão sendo, agora sim, razão bastante para um manifesto exigindo que os governantes se inibam de intervir sobre a liberdade de expressão nos órgãos de comunicação social, sejam eles públicos ou privados.