Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Saiu da Samardan certo pedreiro
Faminto de ouro, em busca da fortuna;
Embarca, vai-se ao Rio, deita ás Minas,
E lida, e fossa, e sua, arranca á Terra
O luzente metal, que o vulgo adora.
Vem rico a Samardan; vinhas, searas,
Casas, moveis, baixélia compra fôfo:
Brocados veste, vae-se nos domingos
Espanejar á Egreja, acompanhado
De lacaios esbeltos; vem o Cura,
Saúdal-o com agua benta; os mais graudos
Do lagarejo a visital-o acorrem;
Para elle os rapapás, as barretadas
Se apostavam de longe a qual mais prestes.
Fallavam os visinhos e a gazeta
Na celebre Paris, cidade guapa
Onde todo o estrangeiro nobre ou rico
Vae fazer seu papel. Eil-o azoado
Que deixa a Samardan, que se apresenta
Na capital franceza; roda em côche,
Alardeia librés; passeia Louvres,
Versalhes, Trianões. Volta enfadado
A’ sua Samardan. - «Gabam tal gente
«De polida! Oh! mal haja quem tal disse!
«Corri casas, palacios, corri ruas;
«Não vi um só, nem grande nem plebeu,
«Que, ao passar, me corteje c’o chapeu.»

de Filintho Elysio, citado em O Degredado de Camilo Castelo Branco”, incluído nas Novelas do Minho, na 3ª edição, de 1915, Lisboa, Livraria Editora

Após uma citação de João de Barros, Camilo dedica O Degredado assim:

«Aos Senhores Fidalgos da Casa Real

e

CAVALLEIROS PROFESSOS DA ORDEM DE CHRISTO

Offereço a Vossas Excellencias por dois tostões esta biographia de um confrade. Vão as suas pessoas, senhores fidalgos e cavalleiros professos, ufanar-se do irmão d’armas que tiveram na sua cavallaria.

Deus guarde a Vossas Excellencias para confusão de Bonança, de Latino Coelho, de Oliveira Marreca e das outras cabeças da hydra.

De S. Miguel de Seide, aos 29 de Novembro de 1876.»


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