O Leonel Santos, que conheci durante um concerto do ciclo “Jazz no Feminino” que decorreu no “Pax Julia“, teve a gentileza de me enviar uma “newsletter” de sua autoria da qual transcrevo o que ao evento diz respeito, por estar em sintonia, na generalidade. Aqui vai…
«Na semana que passou encerrou portas o Jazz no Feminino, o ensaio para o Festival de Jazz de Beja. Interessante na fórmula personalizada, “temático”; neste primeiro ano dedicado portanto às mulheres no Jazz. Interessante também na multidisciplinaridade que procurou e na diversidade da iniciativa.
Dois concertos, Paula Oliveira e Jacinta, e um espectáculo de dança pelo Lisboa Ballet Contemporâneo; “Uma Noite com Ella”, homenagem a Ella Fitzgerald.
E ainda, uma interessante panorâmica apresentação realizada por António Branco seguida de debate também por A.B. moderado e que contou com a participação da cantora Paula Oliveira e o público presente. Ainda também uma Exposição Fotográfica de João Henriques e uma mini-feira de discos. À margem do festival, uma prova de vinhos e produtos da região. O festival teve ainda a colaboração de unidades hoteleiras de Beja.
É possível observar que apesar da modéstia do evento há boas ideias e uma concepção que possui algo de originalidade, a prosseguir. Precisa ganhar público e consistência, mas a fórmula está lá: Jazz, tema, multidisciplinaridade, latitude.
Parabéns Beja!
Apenas assisti ao primeiro concerto, de Paula Oliveira. O projecto, de PO e Bernardo Moreira é ambicioso (e, para já, ganhador, já que ultrapassou em pouco tempo todas as expectativas de vendas da editora): trata-se de casar o Jazz com a música portuguesa; quer dizer alguma música ligeira “de culto”, de autores (poetas, músicos, intérpretes) como Ary dos Santos, José Niza, Sérgio Godinho, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho ou Manuel Alegre. A tarefa, à partida, não se revelava fácil, em primeiro lugar porque esta música portuguesa (e falo das música apenas, não dos poemas) não possui a riqueza melódica/ harmónica e subtileza dos clássicos norte-americanos, p. ex.. Depois porque devido a mesma relativa simplicidade das suas linhas melódicas e de terem sido servidas por bons cantores (no género, os melhores), expressivos e impressivos, são demasiado marcantes. Tratava-se portanto de fazer descolar as canções dos originais; uma tarefa nada fácil e que se revelou nem sempre conseguida. A espaços o engenho de Bernardo Moreira (o arranjador) e a voz magnífica de Paula Oliveira (”Lisboa que adormece”, “Flor sem tempo”) aliam-se para recriar as canções; por vezes a criatividade demite-se, substituída por meras transposições dos arranjos originais para combo de Jazz, eventualmente acrescidos de exercícios de scat ou solos de um ou outro instrumento (”E depois do adeus”, “Cavalo à solta”).
Lisboa que adormece perde-se com frequência no esforço de recolorir os originais que se revelam demasiado definitivos, de melhorar canções que fizeram uma época na memória dos portugueses quando o que havia era quase tudo pouco e mau e estas canções faziam a diferença. Depois, a espaços, o Jazz emerge trocando as voltas à melodia, cumprindo o seu papel recriador.
O público não parece no entanto partilhar das minhas observações já que, como referi, a venda do disco é já um êxito e o concerto foi um sucesso, aplaudido sem reservas, de pé, pelo público.»
Leonel Santos
O público talvez não, mas eu partilho, sinceramente.