Chegado de outras paragens defronto-me com o descontentamento generalizado dos professores relativamente à apresentação da proposta do Ministério da Educação para alterar o estatuto da carreira docente, para mais depois de na entrada anterior ter abonado o trabalho desenvolvido pelo M.E.
Terão os professores razões objectivas para se melindrarem? Será que a revisão do estatuto da carreira docente não é prioritária?
É certo que as questões poderão sempre ser analisadas sob vários prismas, mas 2 factos ocorreram que feriram, a meu ver, despropositadamente e sem qualquer aparente proveito, a honorabilidade dos bons professores:

1 – a afirmação do Sec. de Estado Jorge Pedreira de que a degradação do sistema educativo se deve, única e exclusivamente, à «apropriação dos institutos jurídicos (…) por interesses corporativos», dos professores, entenda-se;

2 – A extremamente infeliz comparação que a Sra. Ministra fez na Maia, entre o médico “abnegado”? que atende prioritariamente os casos mais difíceis, contrariamente, no seu entender, ao que acontece nas escolas e com os professores.

Estes dois ataques, repito, muito infelizes, porque generalizam os maus exemplos, são razões mais que suficientes para desencadear a indignação de muitas escolas e professores que desenvolvem acções junto das crianças e adolescentes mais problemáticos, a suas expensas até, bem para além do que lhes é exigido! Não preciso de sair do Alentejo para apontar vários exemplos de como assim é.
Mais desajustadas se tornam estas generalizações de incúria profissional se atendermos a que a aparente pretensão do M.E. será a de avaliar o desempenho individual para premiar a competência, reconhecendo assim, implicitamente, que há professores e escolas competentes.

A Sra. Ministra, de facto, não esteve bem e o seu Sec. de Estado ainda pior!
Mas não nos desviemos do fundo do problema – a alteração do estatuto da carreira docente e o que ela implica – avaliar o desempenho dos professores e das escolas e melhorar o grau de conhecimento dos alunos. É salutar que se tenha tomado esta iniciativa e, fugindo à tipologia das atitudes governativas deste país, motivo de aplauso o facto de submeter a proposta, com alargada antecedência, ao debate público.
Na próxima entrada deter-me-ei, em exclusivo, à análise desta proposta.

Há poucos meses atrás as Ministras da Educação e da Cultura anunciaram que aos professores com horário zero ou não totalmente preenchido poderia ser incumbida a tarefa de acompanhar alunos aos museus mais próximos das escolas.
Nem há três meses, a Ministra da Educação, com o apoio da Ministra da Cultura, anunciou a necessidade de alargar ao ensino artístico o plano curricular das escolas de ensino regular, iniciando, disse, talvez, através da modalidade de “oficinas” temáticas.
Esta semana, depois de escalpelizado o insucesso, educativo e económico, das escolas profissionais, a Ministra da Educação anuncia a integração do ensino profissional nas escolas regulares.
Foram três medidas sobre as quais muito pouco se ouviu falar e menos ainda debater, que demonstram uma orientação e uma vontade específicas de tornar a escola como o palco único e polivalente, de uma educação global.
Poderão parecer pequenos nadas, poder-se-ia ir mais longe, dirão alguns, mas é destes, aparentemente, pequenos passos e não de “amplas e profundas reformas” que o ENSINO necessita, em especial, de uma gestão partilhada e concertada entre os Ministérios da Cultura e da Educação, onde se consigam conjugar esforços e potenciar uma multicolor, embora integrada, paleta de soluções.
Se há coisa que gosto no trabalho destas duas senhoras é a vontade de fazer, a determinação em executar e, muito mais importante ainda, o não ter medo de errar. Só não erra quem não faz e, desde que o bom senso impere, o que parece ser o caso, os erros servem para aprender e serem corrigidos.

«Portugal com o maior crescimento da taxa de conclusão do secundário»

«Literacia em leitura não melhorou entre 2000 e 2003»

«Os países da Europa Central e de Leste distinguem-se pela reduzida taxa de abandono escolar precoce e pelas elevadíssimas taxas de conclusão do ensino secundário.» (excertos de notícia do Público)

Encontras aqui alguma resposta para as tuas interrogações, Henrique? Ajudas à compreensão da dimensão do problema que tens abordado, talvez! Se por bons resultados se entender a quantidade que conclui o secundário, estamos bem, mas se atendermos que, apesar desse crescimento, a iliteracia mantém-se, então “isto está mau“…
Remeto para a entrada anterior, para mais quando José Sócrates acaba de afirmar que «(…) a educação em Portugal precisa de “menos ideologia” e de “mais resultados”, defendendo a prioridade para o caminho das mudanças “passo a passo”, em alternativa às grandes reformas do sector

De defuntas ideologias não precisa, de facto, nem de reformas estruturais profundas (ocorreram em catadulpa e o resultado está à vista), mas as mudanças “passo a psso” terão de ser implementadas não de forma avulsa, mas integradas num plano de gestão transversal da cultura (repito, o problema é antes de mais cultural e da sua gestão do que de educação), onde a ética e o desenvolvimento da consciência crítica sejam os principais pilares.

Henrique Silveira, assina mais dois desassombrados textos que, se bem que sobre assuntos diferentes, entroncam numa mesma maleita – a educação, a falta dela, a cultura e a congénita peçonha de não conseguir dar a volta a isto! O problema só pode ser resolvido num local, na escola, no chamado ensino básico que é onde as crianças e os adolescentes formam as bases da sua identidade, i.e., do seu comportamento cultural.
Há dias atrás, Guilherme d’Oliveira Martins tocava também na ferida, ao afirmar «A cultura é que faz a diferença no desenvolvimento económico de um país» conforme aqui escrevi. Transcrevo 2 excertos dos 2 textos do Henrique:

«Mercê de uma cultura musical fraquíssima no país as escolas não têm formação musical. Ao longo dos ciclos iniciais não há professores (existem apenas no 5º e 6º anos) e os pais não têm uma cultura de exigência porque não sentem falta do que não conhecem. Quem decide e faz os programas não tem a menor noção de que existe sequer a música. Assim temos o privilégio de ter um pianista de nível internacional, e não de nível local, num estado de cristalização e excelência das suas capacidades, capaz de uma técnica tremenda e de uma maturidade artística superior, sendo capaz de abordar em seis dias a integral Debussy, Ravel com imaginação, cor e subtileza dignas dos maiores mestres e a sala está às moscas.»

«Ron Howell a tal espécie de coreógrafo que fez aquele nojo do bailado da Lauriane é autor daquilo que se chama de forma algo estranha: “movimento coreográfico”. De facto estava à espera, Ron Howell tem “coreografado” sempre que aparece Graham Vick, quer a propósito quer a despropósito. E se há ópera que não tolera uma coreografia apatetada, aliás onde não há menor necessidade de coreografia, é o Rheingold.»

São dois retratos fiéis da principais consequências da falta de uma educação em cultura: falta de público em espectáculos de elevada qualidade, no 1º caso; no segundo, a tentação dos arautos da criatividade a partir do nada, como se nada se tivesse criado, e até por encomenda, nos milhões de anos que por cá já andamos.
A escola terá de ser o habitat para inverter este estado de ausência de cultura. A escola tem de se centrar em ENSINAR o vulgo e alargar o seu âmbito curricular ao ensino artístico, com uma participação muito activa dos meios audiovisuais e digitais, que facultem às crianças e adolescentes vivências e conhecimento que os ajudem a formar uma identidade capaz de agir e interagir culturalmente neste mundo digital global.

ps: já agora, Henrique, parabéns! Passou-me no dia.

foi dia, conforme estava anunciado, ou melhor, foi manhã!
Cante de manhã? De manhã? Antes de comer e beber a preceito? Assim…, sem apurar a voz, embargada ainda pela frescura matinal?
Lá foi o desfile, às 11 da matina, sem a luz da noite, sem a sedução de ouvir as vozes muito antes de vermos quem as emite como se do nada surgissem.
Não houve magia!
Bom, tentou fazer-se diferente. Tentou arregimentar-se muitos, 2500, diziam, todos juntos a cantar para o Guiness.
Não sei se entraram ou não para o Guiness, sei apenas que não houve Cante, nem de noite nem de dia, pois o Cante é coisa de vésperas e não de matinas e, que diacho, por que será que mesmo o que está bem sentem necessidade de inventar e criar e fazer ainda melhor e mais sei lá o quê?
Está bem, estou triste, sinto que perdi, mas quem perdeu mesmo foi o Cante Alentejano.
Enfim, pode ser que para o ano inventem, num assomo de criatividade, voltar a fazer como sempre foi!

Todos os anos as ruas de Beja são palco de uma das mais belas e genuínas manifestações de cultura popular – o desfile dos grupos de Cante.

Mesmo sem plateias nem pomposas tribunas o público acotovela-se, indiferente ao estatuto social de cada um, para “ouver” o espectáculo, comentando, criticando, comparando a qualidade da performance de cada grupo, sendo tema para vários dias de acesa cavaqueira, tal a rivalidade que os une num só canto – o Cante Alentejano.
O melhor espectáculo que o Alentejo de seu ancestral ventre oferece é esta noite de sedução, genuína, a mais arrebatada que Beja proporciona, bem para lá que o conseguido por qualquer banda comercial que por cá passe.

Esta nossa riqueza não precisa de ser inventada – ela existe, está entre nós e é ainda vivida nas tabernas deste Alentejo; basta um pouco de pão e um…, talvez mais, copo…
Pena que ainda não tenhamos conseguido que esta riqueza produza frutos, isto é, falta “vender” este produto sem paralelo mundial, no estrangeiro e mesmo no país, a quem não conhece nem nunca sentiu a carga emocional e afectiva que este evento proporciona.

em cena na Sala Estúdio do Teatro Pax Julia, em Beja, desde ontem e até dia 20, sempre às 22:00h.

«… uma performance que nos prepara para o exercício do ouvido, e, através deste sentido, da percepção e/ou necessidade da transcêndencia do universo meramente material e físico – explorando, no entanto, a fisicalidade do corpo: um corpo que, simultaneamente, encerra e é transmutador de imagens, linguagens, crenças e ideias.»
(texto de Gisela Camañero)

ficha técnica:

espaço cénico: Gisela Camañero;
performers: Gi Camañero e Francesca Bertozzi;
Piano: Angelo Martino;
Música: Liszt, sonata em si menor;
Vídeo/Imagem: Rafael del Rio;
Vídeo/Edição: Marco Manaia;
Sonoplastia: Luís Beco;
Luminotecnia: Ivan Castro;
produção: Arte Pública – artes performativas de Beja

afirmou Guilherme d’Oliveira Martins, na qualidade de Presidente do Centro Nacional de Cultura, ontem, no seminário “Cultura, factor de criação de riqueza”, promovido pela Fundação Oriente, em Lisboa. (JN de hoje)
Concluiu, dizendo que «quando se fala da realidade cultural se deve ter em conta:

1 – A diversidade cultural é um factor central mas não pode ser confundido com excepções culturais.

2 – A política cultural não pode ser confundida com política de subsídios. Há que apostar em parcerias.

3 – O desenvolvimento económico e social tem que se basear na abertura, na aprendizagem, na responsabilidade e na avaliação.

4- A necessidade de cada vez mais articular um Estado regulador e incentivado com uma sociedade civil activa.

5- Ligar cada vez mais a articulação cultural ao forte investimento na educação e na formação.»

O problema está correctamente diagnosticado, mas subsídios e parcerias poderão não ser bastantes como receita. É na educação que tudo se joga, na escola! É lá que se deve ensinar (o termo educação tem-se prestado à prossecução dos mais variados dislates, entre os quais sobressai o de não ensinar) e ter à disposição recursos, curriculares e logísticos das mais variadas áreas, de forma a que os alunos acedam às mais diversas formas de manifestações culturais e ao desenvolvimento da análise crítica, como armas indispensáveis de descodificação do imenso arsenal de informação que lhes é continuamente despejado, com o objectivo de conseguirem formar a uma identidade própria capaz de compreender e interagir no mundo global em vivem.
A escola para o futuro não vingará sem a integração da educação artística e sem a presença constante do audiovisual, seja ele televisivo, radiofónico ou digital, como principal ferramenta de aprendizagem.

a medida é boa para o emprego no Alentejo e ajustada se considerarmos a conjuntura da evolução dos preços dos minérios nos últimos 2 anos.
Não se sabe, no entanto, para já, que contrapatidas contratuais terá o Ministro da Economia e da Inovação negociado perante as exigências da Eurozinc.
A ver vamos…