Henrique Silveira, assina mais dois desassombrados textos que, se bem que sobre assuntos diferentes, entroncam numa mesma maleita – a educação, a falta dela, a cultura e a congénita peçonha de não conseguir dar a volta a isto! O problema só pode ser resolvido num local, na escola, no chamado ensino básico que é onde as crianças e os adolescentes formam as bases da sua identidade, i.e., do seu comportamento cultural.
Há dias atrás, Guilherme d’Oliveira Martins tocava também na ferida, ao afirmar «A cultura é que faz a diferença no desenvolvimento económico de um país» conforme aqui escrevi. Transcrevo 2 excertos dos 2 textos do Henrique:

«Mercê de uma cultura musical fraquíssima no país as escolas não têm formação musical. Ao longo dos ciclos iniciais não há professores (existem apenas no 5º e 6º anos) e os pais não têm uma cultura de exigência porque não sentem falta do que não conhecem. Quem decide e faz os programas não tem a menor noção de que existe sequer a música. Assim temos o privilégio de ter um pianista de nível internacional, e não de nível local, num estado de cristalização e excelência das suas capacidades, capaz de uma técnica tremenda e de uma maturidade artística superior, sendo capaz de abordar em seis dias a integral Debussy, Ravel com imaginação, cor e subtileza dignas dos maiores mestres e a sala está às moscas.»

«Ron Howell a tal espécie de coreógrafo que fez aquele nojo do bailado da Lauriane é autor daquilo que se chama de forma algo estranha: “movimento coreográfico”. De facto estava à espera, Ron Howell tem “coreografado” sempre que aparece Graham Vick, quer a propósito quer a despropósito. E se há ópera que não tolera uma coreografia apatetada, aliás onde não há menor necessidade de coreografia, é o Rheingold.»

São dois retratos fiéis da principais consequências da falta de uma educação em cultura: falta de público em espectáculos de elevada qualidade, no 1º caso; no segundo, a tentação dos arautos da criatividade a partir do nada, como se nada se tivesse criado, e até por encomenda, nos milhões de anos que por cá já andamos.
A escola terá de ser o habitat para inverter este estado de ausência de cultura. A escola tem de se centrar em ENSINAR o vulgo e alargar o seu âmbito curricular ao ensino artístico, com uma participação muito activa dos meios audiovisuais e digitais, que facultem às crianças e adolescentes vivências e conhecimento que os ajudem a formar uma identidade capaz de agir e interagir culturalmente neste mundo digital global.

ps: já agora, Henrique, parabéns! Passou-me no dia.


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2 Respostas to “Ao 3º ano de blogue, o Crítico Musical,”

Comentários (2)
  1. Susana Serrano diz:

    A escola não pode inverter a situação cultural, ela é composta maioritariamente por gente sem cultura. Conheço gente nova que passou pela escola, como professor/a e desistiu, não por dificuldade de colocação, mas por se sentirem mal, nesse meio comezinho de marasmo cultural, sem ideias, sem crítica, sem responsabilidade e com “matéria” para dar.

  2. Carlos a.a. diz:

    Sem dúvida, Susana, mas ao dizer que «A escola terá de ser o habitat para inverter este estado de ausência de cultura» não quero responsabilizar a escola, que sem os meios adequados, pouco ou nada mais poderá fazer.
    Mas não tenho dúvida que é na escola e na família que tudo acontece…

    Obrigado pelo comentário.

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