Chegado de outras paragens defronto-me com o descontentamento generalizado dos professores relativamente à apresentação da proposta do Ministério da Educação para alterar o estatuto da carreira docente, para mais depois de na entrada anterior ter abonado o trabalho desenvolvido pelo M.E.
Terão os professores razões objectivas para se melindrarem? Será que a revisão do estatuto da carreira docente não é prioritária?
É certo que as questões poderão sempre ser analisadas sob vários prismas, mas 2 factos ocorreram que feriram, a meu ver, despropositadamente e sem qualquer aparente proveito, a honorabilidade dos bons professores:
1 – a afirmação do Sec. de Estado Jorge Pedreira de que a degradação do sistema educativo se deve, única e exclusivamente, à «apropriação dos institutos jurídicos (…) por interesses corporativos», dos professores, entenda-se;
2 – A extremamente infeliz comparação que a Sra. Ministra fez na Maia, entre o médico “abnegado”? que atende prioritariamente os casos mais difíceis, contrariamente, no seu entender, ao que acontece nas escolas e com os professores.
Estes dois ataques, repito, muito infelizes, porque generalizam os maus exemplos, são razões mais que suficientes para desencadear a indignação de muitas escolas e professores que desenvolvem acções junto das crianças e adolescentes mais problemáticos, a suas expensas até, bem para além do que lhes é exigido! Não preciso de sair do Alentejo para apontar vários exemplos de como assim é.
Mais desajustadas se tornam estas generalizações de incúria profissional se atendermos a que a aparente pretensão do M.E. será a de avaliar o desempenho individual para premiar a competência, reconhecendo assim, implicitamente, que há professores e escolas competentes.
A Sra. Ministra, de facto, não esteve bem e o seu Sec. de Estado ainda pior!
Mas não nos desviemos do fundo do problema – a alteração do estatuto da carreira docente e o que ela implica – avaliar o desempenho dos professores e das escolas e melhorar o grau de conhecimento dos alunos. É salutar que se tenha tomado esta iniciativa e, fugindo à tipologia das atitudes governativas deste país, motivo de aplauso o facto de submeter a proposta, com alargada antecedência, ao debate público.
Na próxima entrada deter-me-ei, em exclusivo, à análise desta proposta.
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Quase se aplica aqui o ditado: “Casa onde não há pão…”.
Na educação, tal como em todos os outros sectores, grassa uma certa impunidade que tem de acabar. Há professores que não sabem sê-lo e, às vezes, nem as regras mínimas de civismo e dignidade respeitam, até porque não precisam. É assim também no resto da sociedade? Mas dos professores pode-se e deve-se esperar um pouco mais. Afinal a sua principal missão é educar.
É inquestionável que quem falha, em primeiro lugar, na educação, são as escolas e os professores. E que há algumas regras que podem e devem ser respeitadas, que ajudam.
A resolução do problema passa, sem sombra de dúvida, por se ser mais exigente com as escolas, quanto à sua eficiência. As escolas podem e devem identificar os professores que não correspondem e que não devem sê-lo. Mas, aqui como em tudo, nestas coisas predomina o corporativismo que compromete, em última análise, o prestígio de toda uma classe. Isto porque as organizações sindicais têm uma visão distorcida e pérfida da sua função…
Mas a actual situação só é possível com a complacência do governo e Ministério, porque há sempre quem denuncie e reclame, nos casos mais graves, permitindo intervenção e correcções atempadas. Em vez disso impera o compadrio…
A visão individualista dos profissionais não ajuda, mas é inquestionável que, para que a eficiência dos professores aumente são necessárias outras condições…
Parece-me, em última análise, que o governo e Ministério não se querem assumir, se escusam de cumprir, também, a sua obrigação e pretendem uma muleta ou uma desculpa para a gravidade da situação.
Mas se nem a Ministra nem o Secretário abordam a questão correctamente, como é que se pode esperar de gente assim que tornem produtiva e eficiente a nova regra de avaliação?
Enfim… são muitos vícios a corrigir, inclusive da sociedade, e duvido que seja este o melhor caminho.
Tenho escrito pouco. Este assunto é muito importante. Como é hábito, vou acompanhando as palavras inteligentes do Carlos.
Pois é, Biranta, e não é, ou seja, os problemas da educação são visíveis na escola, sendo muito intuitivo induzir que são o origem de todas as maleitas.
Creio que há muito a fazer nas escolas, na carreira docente, no desempenho dos agentes educativos, mas, e este mas tem para mim muito peso, por experiência prossional, habituei-me a que a responsabilidade do sucesso ou do insucesso deve ser, em primeiro lugar, assacada aos gestores das organizações, neste caso aos diversos governos que se foram sucedendo.
Repito, o problema, antes de educativo, é cultural, de falta de hábitos de exigência, de responsabilização, de avaliação do desempenho…
Assacar a totalidade da responsabilidade (note, sem escamotear os problemas que enunciou, com os quais estou globalmente de acordo) à escola e aos professores parece-me muito comezinho…
Muito obrigado, Biranta e João Norte, pelos comentários.
Não tenhas a mínima dúvida! É um problema cultural e não é só no ensino; em geral é a doença das organizações portuguesas, públicas, claro está. Como deves calcular todos o que não encaixam no sistema são ETs.
Um pouco, sim, ET’s, Susana, mas também muito, mas muito, passivos, infelizmente.
Obrigado pelo Comentário