O Pedro Gomes Sanches, a propósito do que aqui escrevi sobre o PAX JULIA, bateu-me forte e feio, apontando-me grosseiros erros de análise que, humildemente, reconheço toda a sua propriedade.
Com a devida vénia, agradeço o pertinente reparo que toldou toda a minha verborreia.
Arquivo: Junho, 2006
Festa do Cante
Começa já hoje a III Festa do Cante no Teatro Pax Julia que decorrerá durante todo o fim de semana.
Lá estarei sem falta (pena o ambiente não se prestar a uns copitos e uns caracóis). Este ano estará presente aquele que considero, de momento, o melhor grupo de Cante!!
Qual? Ora, ora, vão lá ouvir!!!
an damça levan tarmui tace-do!
Há 6ª feira?
Esta semana parece que sim!
é um livro livro de ficção do João Norte, editado recentemente pelas Edições Ecopy, no Porto.
João Norte
ps: clicar na imagem para aceder ao sítio de promoção da editora.
Apoio às Artes - IV
Estimado A.A. (resposta a comentário)
É fácil, com frases feitas, é demasiadamente fácil.
Peço que leia com atenção o que escrevi, livre de defuntas ideologias como as de querer mais ou menos Estado.
Defendo um Estado forte, exigente, regulador, fiscalizador, mas nunca centralizador e muito menos determinante no que ao acto criativo diz respeito.
O que defendo é, como disse, a centralização de esforços na escola e provo, em estudo já realizado, que o Estado gastará menos, controlará melhor o investimento e produzirá, a médio prazo, muito melhores resultados.
Some, por favor e se tempo tiver, quanto despendeu em 2005 o Estado no programa de itinerâncias, no programa de difusão cultural, no programa de formação de novos públicos, no programa de Arte em Rede, nas 74 salas de espectáculos distribuídas pelo país, em orquestras sinfónicas, nos teatros Nacionais e no Serviço Público de audiovisual, sente-se, veja o resultado, e diga-me como é que se pode gastar tanto dinheiro com tão pouco proveito!
Trata-se de uma necessária e urgente reforma administrativa que coloque todos estes recursos em missões e objectivos comuns e não desconcertada e avulsamente como tem sido.
nota final: Mercado distorcido?
Será preciso um modelo ideal para ver o que está à vista de qualquer pessoa de bom senso?
1 - será que alguém desconhece que a PT impede o funcionamento normal do mercado em desfavor dos consumidores?
2 - será que não é visível aos olhos de todos que a concentração da banca privada coloca os seus clientes como seus reféns?
Não são precisos mais exemplos, pois não? Não necessitamos de modelos ideais nem de frases feitas. Necessitamos, sim, de alocar muito seguramente os nossos parcos recursos e rentabilizá-los!
E, para esta receita, são também dispensáveis discursos de esquerdas e de direitas, necessitamos, isso sim, de gente com bom senso e coragem.
O Apoio às Artes - III
No A Arte da Fuga o Adolfo Mesquita Nunes e o António Costa Amaral colocam duas questões pertinentes:
1- «No seguimento do que escreveu,
No entanto, o Estado deve ter missões e objectivos específicos na educação, na formação de públicos e na redução das assimetrias [culturais?] Lisboa/Porto e o resto do país
Desafio a responder à pergunta “Porquê?”. Porque é que se entende que uma visão centralizadora e paga com o dinheiro de todos nós é melhor do que aquilo que a sociedade é capaz de produzir espontaneamente?»;
2 - que papel deve o Estado representar na cultura?
1 - Exactamente porque entendo que o Estado deve, progressivamente, desvincular-se da tentação de tutelar a criação artística e centrar-se na sua vocação - a de regulador e de incentivador da fruição das artes.
Só que regular é estar atento e intervir quando o mercado provoca distorções, como por exemplo, a assimetria Lisboa/Porto e o resto do país
Incentivar a formação de novos públicos não é gastar milhares de milhões de euros, como aconteceu nos últimos 30 anos, em programas de subsídios aos criadores e às salas de espectáculos sem qualquer resultado (o público decresceu assustadoramente).
1 e 2 - Defendo, sinceramente, que o Estado, no seu papel de incentivador da fruição das artes, deve centrar os seus esforços na escola, proporcionando o ensino artístico curricular, como o faz noutras áreas do conhecimento.
Nesta perspectiva, consideraria muito positivo que o Estado desse trabalho (não subsídios) aos criadores através de encomendas que enriquecessem, de forma integrada, esses planos curriculares, seja ao nível de produções audiovisuais, teatrais, literárias, musicais, plásticas ou multidisciplinares.
Ensinar e criar um habitat cultural na escola é o melhor, mais eficaz e mais produtivo meio de, simultaneamente, educar, formar novos públicos, dar trabalho aos artistas e esquivar-se da subsídio-dependência.
Só que para isto, como tenho defendido, é necessária uma política de Gestão Cultural do Estado integrada e transversal a várias tutelas.
Blogues cuja leitura sintamos falta são cada vez menos, ou melhor, cada vez mais difíceis de encontrar entre tantos e tamanhos…
Eu não sei quantas vezes já botei links pró Dragão, mas não me cansa nem dinheiro me custa e, daí, vai mais este.
Encostem-se para trás e saboreiem o humor e a ironia que condimentam a razão na arte de bem escrever!
Novo Regime de Apoio às Artes - II
O Adolfo Mesquita Nunes na Arte da Fuga entendeu que as novas orientações do Ministério da Cultura não «pretendem liberalizar o sistema, tornando-o mais ágil e independente, mas tão só pretende racionalizar os custos na atribuição de subsídios. Uma vez mais, o que determina a reforma é a necessidade de poupar dinheiro e não tanto a de tentar uma via alternativa de desenvolvimento.»
Mas, estimado AMN, o que é que impede um artista de criar em total liberdade e colocar no mercado o seu trabalho dentro do mais rigoroso conceito liberal?
Nada! Rigorosamente, nada! Faça-o e não dê contas ao Estado!
No entanto, se se candidatar e for contemplado com um subsídio do Estado para criar é porque está disposto a cumprir as regras do mandante - cumprir com o que lhe foi pedido!
Trata-se de um contrato comercial, para todos os efeitos, obrigando, como tal, a que as partes cumpram o estipulado.
O que andou (e anda) muito mal há muitos anos é o Estado não controlar o que subsidia, não saber porque é que o faz, não avaliar a relação custos/benefícios e não obrigar os subsidiados a rigorosos métodos de gestão e prestação de contas!
Passo a reproduzir o comentário que deixei na caixa do Arte da Fuga.
Estimados
Estou do lado dos que consideram que ao Estado não compete balizar a liberdade dos criadores. Mas o Estado não impede que os artistas criem na maior das liberdades!
O problema é que os criadores querem criar à conta do Estado e sem prestar contas!
Esta é que é a questão!
No entanto, o Estado deve ter missões e objectivos específicos na educação, na formação de públicos e na redução das assimetrias Lisboa/Porto e o resto do país, sendo que, para cumprir estes desígnios, não me incomoda nada que o Estado encomende trabalho específico a artistas de variadas artes e ofícios, desde que estipule o que pretende, controle os processos e avalie e premeie os resultados - na perspectiva do lucro (porque não?) e do benefício.
Que está esgotado o modelo de um ministério dito da cultura para distribuir subsídios a troco de não se sabe bem o quê, parece pacífico, mas o salto a dar, que incomoda muita gente, é o de articular transversalmente as tutelas da Cultura, da Educação e do Audiovisual numa política de Gestão Cultural única, agilizada e ao serviço dos contribuintes.
Neste sentido, não me parece que não querer pactuar com espectáculos que ficam ao Estado a 300 euros por assistente (ressalvando excepções sempre necessárias) e exigir o controlo da gestão dos projectos subsidiados seja motivo para acusar alguém de apenas ter uma visão economicista ou de querer reduzir a despesa!
Ouve-se há muito tempo dizer que a cultura não é para dar lucro, mas permitam-me duas perguntas:
- há algum artista que não pretenda vender o seu trabalho?
- e se o quer vender porque será que acha que o Estado tem obrigação de comprá-lo?
FESTA na PRAÇA

é o espectáculo de final de ano lectivo das classes de Música do Conservatório Regional do Baixo Alentejo.
Decorrerá em plena Praça da República, em Beja, às 21:30h, prevendo-se a repetição do êxito alcançado nos anos anteriores.
Nada escrevi sobre a selecção nem nada sobre ela me apetece escrever! Basta-me ver os jogos e alegrar-me por estarmos nos quartos de final.
Estranho no entanto que, após o pré-campeonato, quando que todos diziam mal agora, como que por acto de bruxaria ou puro encanto, parece ser proibido ou incorrecto criticar seja o que for!
Será que não posso dizer, apesar do sucesso, que: Meira não dá conta do recado; Nuno Valente já não tem pernas nem rins; o Ricardo é um guarda-redes vulgar, havendo por cá uma mão cheia melhores que ele?
Será que não posso dizer que, contra a minha expectativa inicial, Maniche e Simão têm feito um campeonato extraordinário?
Será que não posso defender que o sucesso do campeonato da Europa e o actual é ainda fruto do trabalho que Mourinho por cá deixou?
Será que alguém me baterá por continuar sem perceber o que é que Nuno Gomes, o Postiga, o Boa Morte e o Hugo Viana lá estão a fazer, quando cá deixámos o João Tomás, o Hugo Almeida, o João Moutinho e o Quaresma?
Não, ninguém se atreve a falar ou escrever sobre isto - um tabu, o do cagaço de ser socialmente incorrecto ou o medo de ser insultado num jornal brasileiro!
Ou então poderá não ser nada disso, estarei a ser muito injusto, trata-se apenas de vergar-se perante as vitórias e os recordes e, como sabemos, quem ganha tem sempre razão, seja no que for… e, quando perderem, ah sim, aí sim, quando perderem, cá estaremos para os desencar sem apelo nem agravo!
Pode ser, pode ser só isso, tal como os EEUU não podem ser criticados sem nos acusarem de anti-americanismo, ou de fascistas se denunciássemos Estaline no seu tempo, ou de comunistas se apelarmos ao fim do embargo a 10 milhões de pessoas que nasceram em Cuba!
Enfim, o mundo é assim, é fodido, todos são grandes, enormes, quando sentem o adversário diminuído, mas quando ele está forte…, pois sim, nem vê-los!
E siga para as meias que é o que interessa!
«Em comunicado, a Fundação Caja Duero informou que “a grande pianista Maria João Pires viu-se obrigada a cancelar, à última hora, o seu concerto a quatro mãos com Ricardo Castro, devido a problemas de saúde”.» (no Público)
Apesar de Maria João Pires raramente ser motivo de notícia nos media portugueses, desejo, ansiosamente, o seu rápido e total restabelecimento para prosseguir o seu projecto de Belgais e para eu poder voltar a ouvi-la.
Novo Regime de Apoio às Artes
Sobre o documento de intenções, apresentado hoje no CCB, relativo ao novo Regime de Apoio às Artes pela Ministra da Cultura e Secretário de Estado, retive algumas ideias:
1 - Nas candidaturas de apoio à programação de cine-teatros, serão privilegiadas as candidaturas que visem a captação e formação de novos públicos, contemplem uma dimensão educativa e impliquem o acolhimento de uma entidade de criação em regime de residência permanente ou temporária não inferior a três meses por ano;
2 - promover a fixação de entidades de criação artística no interior do país;
3 - promover a internacionalização das artes e dos artistas portugueses e contribuir para o aprofundamento da cooperação artística internacional;
4 - ligar as artes ao emprego jovem, ao meio escolar, às ciências, ao turismo, à inclusão social, solidariedade social, ambiente e ordenamento do território, bem como a o desenvolvimento regional;
5 - proporcionar maior sustentabilidade das entidades apoiadas pelo Ministério da Cultura através do Instituto das Artes;
6 -acompanhar melhor o processo de apoio e reforçar a responsabilização das entidades apoiadas.
Ou seja, para quem andou apenas a despejar espectáculos (bons ou maus, muitos ou poucos) sem estabelecer uma missão, objectivos precisos, nem providenciou uma gestão que proporcionasse uma maior sustentabilidade, obriga a que venha agora o papá Estado fazer o que quem de direito deveria, atempadamente, ter feito e não fez!!!
Mas é evidente que o que recentemente escrevi aqui e aqui não passou de uns meros devaneios…
Anteontem, por ocasião da entrega do Grande Prémio da A.P.E. pelas mãos do Presidente da República, Francisco José Viegas reafirmou o que há muito vem defendendo para o ensino do português nas escolas:
«ensinar mais literatura nas escolas»” porque é “impossível estudar português ou valorizar a língua portuguesa sem valorizar a literatura portuguesa“» (JN de ontem)
Alargando este conceito à globalidade do ensino, derivamos para a necessidade do ensino curricular da cultura, em todas as suas formas de expressão (ética, musical, dramática, plástica ou corporal), como plataforma indispensável para a compreensão, pela contextualização, do conhecimento transmitido e assimilado.
Ousar dar este pequeno passo significaria um salto enorme em termos do sucesso escolar no que há construção de identidades e à criatividade profícua dizem respeito.
Quando falo sobre a necessidade de uma «Educação em Cultura» é isto mesmo que pretendo dizer.
Uma pianista integrada numa instituição portuguesa sediada em Lisboa, foi obrigada, após processo de reintegração ordenado por sentença judicial, a montar e apresentar publicamente, entre 26 de Setembro e 16 de Outubro de 2005, o seguinte programa:
26, 27, 28 e 29 Setembro:
Piano Recital
- J.S. Bach Toccata in D major BWV 912
- Beethoven Sonata no. 26 in Eb major, op.81a “Les Adieux”
- Chopin Ballad in G minor op. 23
- Ballad in F major op. 38
6, 7 e 8 Outubro:
Piano Recital
- W.A. Mozart Sonata KV. 331
- J. Brahms Sonata op.5
- Chopin Scherzo in B minor op.20
20, 21, 22 e 23 Outubro:
Piano Recital
- Chopin 24 Preludes op.28
- Shostakovich 24 Preludes op.34
19, 20, 21 e 22 Outubro (!!!):
Piano Recital
- Beethoven Sonata no.14 in C minor, “Moonlight Sonata”
- Mussorgsky Pictures at an Exhibition
Por ser humanamente impossível e por desabonar não a pianista, mas a pessoa e a instituição que ordenou tamanho dislate, subscrevi e divulgo a petição online - Musical Mission Impossible.

É o espectáculo de fim de ano lectivo das classes de dança do Conservatório Regional do Baixo Alentejo.
Amanhã, Sábado, às 21:30h, no Teatro PAX JULIA, em Beja.
225.000.000.000,00 de euros é o valor dos subsídios atribuídos, em 2005, aos proprietários de terrenos agrícolas nos países da OCDE!
Estes subsídios representaram 32% do seu rendimento na UE, 16% nos EEUU, 56% no Japão, 63% na Coreia do Sul, 64% na Noruega e 68% na Suíça.
59% destes subsídios, 137.000.000.000,00€, foram destinados ao objectivo de evitar a descida do preço dos produtos agrícolas!!! (OCDE).
Ah, como é bom ser neo-liberal - defender a livre circulação de produtos, bens e capitais e, simultaneamente, subsidiar os produtores ricos!
Menos Estado, meus senhores, menos Estado, e, já agora, vamos lá avançar com o cultivo de produtos transgénicos para melhorar a produtividade!
Para que servem os Live Aids, para que serve o programa Luta contra a Pobreza da ONU se nós, os ricos, gastamos 225.000.000.000,00€ para sentenciar milhões à pena de morte pela fome?
«À Orléans, c’est la municipalité qui vient de notifier des réductions de crédits aux deux grands artistes de la ville. Moins 75 000€ pour Josef Nadj, moins 45 000€ pour Olivier Py. Le premier, directeur du centre chorégraphique, répète actuellement le spectacle d’ouverture du prochain Festival d’Avignon. Le second, directeur du centre dramatique, vient de triompher au Rond-Point et doit signer l’hommage à Jean Vilar qui aura lieu vers la fin de la 60e édition d’Avignon.»
(…)
«À Aubervilliers, c’est le département de Seine-Saint-Denis qui coupe drastiquement la subvention du théâtre équestre Zingaro, passant de 130 000€ à 40 000€ ce qui est le montant de la taxe professionnelle que reverse Zingaro.» (Le Figaro sob o título “Des subventions coupées“)
Evidentemente eu é que sou louco em pensar que, se isto está a acontecer nos países ricos, poderá, muito brevemente, acontecer em Portugal!
É, manifestamente, um insensato devaneio meu!
«“O grande desafio é apresentar a ópera de Mozart, numa versão com alguns cortes, de forma a ter uma ópera com um pouco menos de duração, e mais acessível ao tempo de concentração que uma criança aguenta. (…) Foi recriar ao máximo todos os ambientes, o humor, a alegria, o dramatismo também, mas adaptado à língua portuguesa”, diz Catarina Molder, da iniciativa “Descobrir a música na Gulbenkian“.» (notícia da SIC)
Genial! Pequena, façam-na muito pequenininha, embora plena de magia coreográfica e de encenação!
As crianças são burras e precisam de estímulos que Mozart seria, de todo, incapaz de oferecer, na opinião dos… de alguns adultos!
Depois, caso encontrem crianças que não considerem burras, ofereçam a versão original, na íntegra, às escolas, em estreita colaboração com os professores de música. Pode ser que dê alguma coisa…
E daí talvez não…
Será que, atendendo à lei do menor esforço constante da natureza humana, uma criança consegue apreciar um suculento bife de lombo se só estiver habituada à magia da carne picada coreografada em sande, maionese e ketchup?
a ler «Les Riches, toujours plus riches e plus nombreux» de Hervé Rousseau no Le Figaro.
Estarrecedora a origem geográfica da maioria novas grandes fortunas - América Latina, Ásia do Pacífico e Médio Oriente: Índia (+ 19,3%), Rússia (+ 17,4%), África do Sul (+ 15,9%) Indonésia (+ 14,7%)!
Menos Estado, meus senhores, livre circulação de mercadorias e capitais, uma política monetária forte, é tudo quanto precisamos para criar mais riqueza, e muita, mas para muito poucos!
Mais pobres? Não faz mal, deles não reza a história!
…vale mais do que mil palavras
Pax Julia - de novo
O texto que escrevi a propósito do 1º aniversário do PAX Julia foi alvo de algumas interpretações que me parecem completamente descontextualizadas. Por isso transfiro para post um texto que lá coloquei a propósito de um comentário do Nikonman, que vai muito mais além de uma resposta. Passo a transcrever.
O respeito que me merecem todas as pessoas impede-me, precisamente, de individualizar o assunto que tratei (recordo mais uma vez, gestão, no caso, cultural).
Mais adianto que, muito seguramente, apresentar alguns espectáculos, nas condições existentes, terá sido quase um milagre e que a maioria das pessoas que trabalham no PAX JULIA deverão ter tido muitos e muitos dias em que pouco dormiram ou comeram.
Exactamente por isso enderecei os parabéns, sinceros, a todos os envolvidos - Câmara, funcionários e prestadores de serviços.
Por outro lado, não falei dos espectáculos apresentados, nem da sua qualidade nem da sua quantidade, pois a programação deve ser, do meu ponto de vista, o reflexo de uma missão e objectivos previamente delineados, os quais desconheço.
Por último, quando afirmei que existia «equipa de funcionários sem qualificação ou experiência específica (tirando sempre uma ou outra excepção», está perfeitamente implícito (sem individualizar a questão) o desajustamento funcional! Termos uma pessoa mais do que qualificada para executar determinado tipo de funções a fazer outras é mais um caso de ausência de gestão, para não dizer de má fé.
Se quiserem pegar nas minhas palavras para entender um insulto, façam-no, estão no seu direito, mas não foi isso que escrevi nem foi essa (quem me conhece, sabe) a minha intenção.
A minha intenção é clara (peço o favor de lerem com atenção, com mente aberta e sem emprenharem pelos ouvidos) - trabalhar para que daqui a uns tempos não tenhamos de constituir movimentos, manifestações e abaixo-assinados para que o PAX JULIA possa continuar a desenvolver um papel relevante para o Distrito de Beja.
Quanto a uma empresa municipal para «evitar que a veleidade privada se exiba e fique municipalmente controlada» não sei que dizer, (aliás já escrevi bastas vezes sobre o assunto aqui no Ideias Soltas muito antes do PAX JULIA abrir), mas não sei de que tenha mais receio, se das veleidades privadas se das públicas.
Há muito a pensar antes de dar esse passo:
1 - tem Beja uma dimensão crítica que permita o desenvolvimento do projecto em condições de progressivo auto-financiamento?
2 - se tem quais as prioridades que deve privilegiar?
3 - se não tem o que deve fazer?
3.1 - dar prioridade à formação de públicos?
3.2 - investir mais no Serviço Educativo ou manter o investimento quase exclusivo na oferta de espectáculos?
3.3 - envolver na sua gestão a parceria com outras Câmaras do Baixo Alentejo?
3.4 - envolver na sua gestão a parceria com entidades privadas?
4 - que responsabilidade deve ter na promoção dos artistas e instituições culturais da região?
4.1 - há conhecimento dos valores que cá residem?
4.2 - depois de os conhecer e seriar, têm valor para actuar no PAX JULIA?
4.3 - deve e pode o PAX Julia promover os valores regionais pelo país afora, aproveitando a estrutura de rede em que está inserido e, se sim, qual a percentagem do orçamento que deve ser afecto a esse objectivo?
5 - que papel deve desempenhar a iniciativa privada no Pax Julia?
6 - se se considerar que deve desempenhar, que objectivos traçar e de que forma a implementar?
6.1 - entregar o espaço à iniciativa privada?
6.2 - manter o estado actual e decidir pontualmente?
6.3 - constituir mais uma estrutura camarária que defina universalmente quais os critérios, condições e meios de controlo para a sua prossecução?
6.4 - definir a missão, objectivos e formato e entregar contratualmente a gestão a uma entidade privada que o faça, a quem se possa assacar responsabilidades?
7 - obtidas as respostas às questões anteriores, qual a equipa de gestão mais adequada e qual o perfil de cada elemento?
8 - elaborar o plano, onde está, entre outras coisas, incluído um modelo de programação, para cumprir a missão e objectivos traçados.
As respostas a estas e outras questões deverão ser prévias a qualquer decisão, pois sem elas, sem se estabelecer, com rigor, o que se pretende, como se avalia e quais as formas de controlo, tudo poderá não passar de iniciativas meramente especulativas.
Quem quiser ver os joguitos à borliu, faça o que o Vítor I. recomendou:
download deste programa (não tens vírus nem spywares) e sintonize um dos canais ESPN à disposição!
Avaliar o Sistema Educativo?
É evidente que existe uma correlação estreita entre o sucesso escolar e a capacidade financeira das famílias e, se assim é, quem poderá avaliar o actual sistema e seus intervenientes?
Em boa verdade o Sistema Educativo deve centrar-se, precisamente, naqueles que só dele, em exclusivo, usufruem, ou estarei a ver mal?
Completa-se hoje, dia 17, 1 ano desde que o Pax Julia reabriu as suas portas.
O Pax Julia é um recinto cultural de programação regular (utilizando a designação do Programa Operacional de Cultura (POC) que pagou a sua reconstrução e sustentou, em grande parte, a sua programação, até agora, pois termina precisamente este ano de 2006), incluído no contexto de Arte em Rede do Ministério da Cultura, juntamente com outros 62 recintos.
Não sei se será hora de balanço pois a sua gestão não é diferenciada, estando a ser gerido directamente pela Câmara Municipal de Beja, através de uma equipa de funcionários sem qualificação ou experiência específica (tirando sempre uma ou outra excepção), a qual, entre muitas outras responsabilidades, tem a seu cargo a gestão deste espaço.
Já seria muito bom sabermos qual a missão, objectivos e metas particulares a que o Pax Julia se propôs inicialmente, por um lado e, por outro, a sua concretização bem como saber se cumpriu as metas impostas pelo POC que o sustenta.
Não pretendendo ser pessimista - aliás o modelo de gestão (ou a sua falta) do Pax Julia é idêntica ao da maioria dos recintos apoiados - sempre adianto que muito me preocupa saber que o Ministério da Cultura financia actualmente o grosso da manutenção e programação de 74 recintos culturais (incluíndo os nacionais) e que, concluído que está o Programa Operacional de Cultura, como é que eles sobreviverão.
Vivemos num país onde está na moda dizer que queremos menos Estado e simultaneamente exigir mais do Estado, ou seja, uma prática oposta ao discurso, mas a verdade é que, em tempo de balanço, o que os directores destes espaços invariavelmente lançam é a quantidade de espectáculos exibidos e, por vezes, a taxa de ocupação das salas, sem curar de tocar no pomo da questão: o que é que fizeram no sentido do auto-financiamento destes preciosos espaços, de forma a assegurar o seu futuro?
Convenhamos que (nem será necessário recorrer ao bom senso, basta à honestidade intelectual) o Estado não pode sustentar 74 espaços de programação regular! Porquê? Primeiro porque esta política inviabiliza a empresarialização da cultura (o aparecimento de empreendedores, de produtores e agentes culturais - condição essencial para a constituição de uma indústria cultural) e, em segundo lugar, porque o Estado não tem mesmo capacidade financeira para o fazer (as prioridades e o orçamento estão muito longe deste desiderato).
Regressando ao POC e lendo um dos seus principais objectivos,
«(…) estruturadas sob a forma de circuitos de programação, co-produção e divulgação das artes do espectáculo e visuais, demonstrando que com o projecto se obtêm efectivamente ganhos de eficiência que contribuam para as condições de sustentabilidade dos recintos culturais envolvidos e para a melhoria da oferta cultural nas regiões mais desfavorecidas do território nacional.»
facilmente e sem grandes contas constatamos que, tirando honrosas excepções de Câmaras que entregaram a gestão destes espaços a pessoas ou entidades externas com conhecimento e a quem possam ser assacadas responsabilidades, não se vislumbram quaisquer iniciativas conducentes à sustentabilidade! Mais grave, ainda, é saber que os detentores dos espaços pensam mesmo que o Estado tem obrigação de, per si, os sustentar!
Não sou pessimista, mas estou muito preocupado com o futuro destes espaços, preocupação essa que já vem desde a aventura de os restaurar e/ou construir (basta correr o que por aqui escrevi sobre gestão cultural e sobre o Pax Julia).
Muito mais penoso do que não ter é ter de encerrar o que com muita dificuldade e com dinheiros públicos se ergueu, por manifesto desinteresse pelas mais básicas regras de gestão!
Apesar das minhas preocupações, endereço à Câmara Municipal, aos seus funcionários que, entre outras responsabilidades, têm a de fazer com que o Pax Julia funcione, bem como à equipa de prestadores de serviços (em especial técnicos) que faz com que possa acontecer, os meus parabéns e o desejo, muito sincero, de este dia seja o primeiro de muitos aniversários do PAX JULIA.
Hoje, às 21:30h, poderemos assistir a:
ficha técnica:
Direcção: Domingos Oliveira e Priscilla Rozenbaum
Director Assistente: Eduardo Wotzik
Adaptação: Leonor Xavier
Guarda-roupa: José António Tenente
Desenho de Luz: Marinel Matos
Intérpretes: Ana Brito e Cunha, Fernanda Serrano e Maria Henrique
Nesta entrada recebi um comentário muito pertinente de Carlos Semedo sobre a natureza extra-curricular do Ensino Artístico anunciada pelo M.E., ilustrando, muito assertivamente, a minha afirmação de que se trata de «uma assumida regressão no que concerne ao almejado projecto de integração do ensino artístico no ensino regular.» Passo a transcrever integralmente.
Durante onze anos estive ligado a um projecto na área da expressão/educação/oquequiserem musical que obedecia a dois princípios: ser integrado no horário lectivo das escolas do 1º Ciclo e ser inteiramente gratuito para as famílias. Começou com cerca de 500 alunos e, no 11º ano de funcionamento, abrangia 2100 crianças; os professores eram recrutados pelo Conservatório Regional local e pagos segundo os bons preceitos: nada de recibos verdes ou 10 meses de salário, mas sim de acordo com o Contrato Colectivo de Trabalho, 14 meses, descontos todos feitos e, até um momento, com contagem de tempo de serviço.
Foi pago, sem falhas, pela Câmara Municipal local e, de uma forma sempre arrancada a ferros, pelo ME. Houve, por vezes, necessidade de recorrer à angariação de patrocínios para cobrir a diferença que o próprio Ministério não assegurava na totalidade.
Soube, hoje, que o projecto enquanto tal vai acabar, por causa destes delírios pós-lectivos/extra-curriculares/enriquecedores. Vai passar a ser uma coisa difusa, diluída nos diversos agrupamentos.
Curioso é o facto de, pelo menos até há dois anos atrás o custo aluno ser cerca de 55 euros/ano e, pelo que leio na comunicação social, o pessoal anda muito contente pelo custo ano/aluno das aulas de inglês que durante o ano lectivo corrente abrangeram o 3º e 4º anos. Sabem qual foi? 100 euros.
Não há aqui qualquer coisa que não bate certo?
Carlos Semedo
Projecto Sonata
Hoje, às 21.30h, na Sala do Capítulo da Pousada de S. Francisco, em Beja, o Arte Pública - Artes Performativas de Beja apresenta a sua mais recente intervenção performativa, The Sonata’s Project, homenageando Mozart, a propósito dos 250 anos passados desde o seu nascimento.
«The Sonata’s Project aborda e cruza universos sonoros e musicais, aparentemente distintos entre si, tais como a musica clássica e a improvisação jazzística.» Gisela Cañamero
ficha técnica:
piano: Angelo Martino
voz: Gi Cañamero
UAU!!! Veio-se-me uma luz!!!
Na sequência da entrada anterior proponho ao Ministério da Educação que adopte a mais que comprovada estratégia do “Head & Shoulders” - 2 em 1!
Despeçam os professores, ocupem os meninos em atelieres, workshops e os mais diversos e variados enriquecimetos extra curriculares em regime de atêèles e dêem-lhes os diplomas na idade indicada.
Mas atenção, não dispensem os atêèles porque os pais não têm ninguém em casa para tomar conta deles nem para lhes dar de comer.
Assim, não duvido que a avaliação dos pais seria brilhante e o sucesso escolar, ena pá, um verdadeiro sucesso! UAAAUUU!!!
A U.E. aplaudiria unissonanimemente de pé e o Sr. Presidente da República, Sra. Ministra, com tanto corte na despesa do Estado, até era capaz de se intrometer na actividade governativa e vir publicamente dizer:
- deixem a Sra. Ministra trabalhar!
Há palavras e expressões que, quando aplicadas ao ensino, provocam-me mesmo urticária aguda!
Ele é oficinas, ele é atelieres, ele é workshops, ele é despertar, ele é currículos alternativos, ele é enriquecimento curricular…
«No próximo ano lectivo todas as escolas do 1.º ciclo do ensino básico terão de disponibilizar aos seus alunos pelo menos duas horas diárias (dez semanais) de actividades de enriquecimento curricular.»
«O enriquecimento curricular (que a escola tem de oferecer, mas de que as famílias podem não querer usufruir, uma vez que a inscrição dos alunos nestas actividades não é obrigatória) pode acontecer no espaço da escola, em salas de aulas, centros de recursos, bibliotecas, por exemplo. Mas também podem ser utilizados espaços não escolares - por exemplo, se a escola tiver uma parceria com um estabelecimento de ensino profissional de música local, os meninos podem ser deslocados para as instalações deste último, para ter aulas de música.» (palavras do Primeiro Ministro e da Ministra da Educação, via Público)
Havendo um projecto curricular aprovado e em vigor (no âmbito do ensino da música, da dança, do teatro) que sentido faz esta de coisa de enriquecimento, como opção e extra-curricular?
Se algum vislumbro, Sra. Ministra, será o de uma assumida regressão no que concerne ao almejado projecto de integração do ensino artístico no ensino regular.
E quem irá dar este tal de enriquecimento? Professores que concorreram segundo critérios universais ou serão nomeados, quiçá, também ao abrigo do enriquecimento… dos amigos?
Começa a ser muito erro - a manta começa a ficar muito curta! Começa a ver-se que, se calhar, não existe mesmo intenção de melhorar o ensino, apenas cegos cortes orçamentais e passar os meninos a torto e a direito.
Mas se é esse o objectivo, para quê tanto estudo, tanta comissão, tantas questiúnculas de natureza educativa?
György Ligeti

Mesmo correndo o risco de, por esquecimento, poder ser injusto, quero agradecer à Gisela Cañamero, à Catarina, ao Anarca Constipado, ao Francisco Nunes, ao Orlando Braga, à Guida Alves, ao Paulo Querido, à Teresa Cascudo, ao Luís Tata, ao The Old Man, à Ana Mello, ao João Norte, à Jacky, ao José Vieira, à Rosana Garcia, ao Leonel Vicente, ao Raúl, ao Tiago Bartolomeu Costa, ao César Viana, ao Paulo Bastos, bem com a todos que por correio electrónico manifestaram o seu apoio e, muito particlarmente, à Filipa Taipina e ao Rogéro Santos, cuja presença activa em muito enriqueceu as ideias que pretendi passar…
À parte, porque convém realçar estas atitudes, agradeço à Alice Valente, promotora financeiramente desinteressada do evento, que acreditou no “meu sonho” e na necessidade de o divulgar.
Um bem haja a todos.












