Completa-se hoje, dia 17, 1 ano desde que o Pax Julia reabriu as suas portas.
O Pax Julia é um recinto cultural de programação regular (utilizando a designação do Programa Operacional de Cultura (POC) que pagou a sua reconstrução e sustentou, em grande parte, a sua programação, até agora, pois termina precisamente este ano de 2006), incluído no contexto de Arte em Rede do Ministério da Cultura, juntamente com outros 62 recintos.
Não sei se será hora de balanço pois a sua gestão não é diferenciada, estando a ser gerido directamente pela Câmara Municipal de Beja, através de uma equipa de funcionários sem qualificação ou experiência específica (tirando sempre uma ou outra excepção), a qual, entre muitas outras responsabilidades, tem a seu cargo a gestão deste espaço.
Já seria muito bom sabermos qual a missão, objectivos e metas particulares a que o Pax Julia se propôs inicialmente, por um lado e, por outro, a sua concretização bem como saber se cumpriu as metas impostas pelo POC que o sustenta.
Não pretendendo ser pessimista – aliás o modelo de gestão (ou a sua falta) do Pax Julia é idêntica ao da maioria dos recintos apoiados – sempre adianto que muito me preocupa saber que o Ministério da Cultura financia actualmente o grosso da manutenção e programação de 74 recintos culturais (incluíndo os nacionais) e que, concluído que está o Programa Operacional de Cultura, como é que eles sobreviverão.
Vivemos num país onde está na moda dizer que queremos menos Estado e simultaneamente exigir mais do Estado, ou seja, uma prática oposta ao discurso, mas a verdade é que, em tempo de balanço, o que os directores destes espaços invariavelmente lançam é a quantidade de espectáculos exibidos e, por vezes, a taxa de ocupação das salas, sem curar de tocar no pomo da questão: o que é que fizeram no sentido do auto-financiamento destes preciosos espaços, de forma a assegurar o seu futuro?
Convenhamos que (nem será necessário recorrer ao bom senso, basta à honestidade intelectual) o Estado não pode sustentar 74 espaços de programação regular! Porquê? Primeiro porque esta política inviabiliza a empresarialização da cultura (o aparecimento de empreendedores, de produtores e agentes culturais – condição essencial para a constituição de uma indústria cultural) e, em segundo lugar, porque o Estado não tem mesmo capacidade financeira para o fazer (as prioridades e o orçamento estão muito longe deste desiderato).
Regressando ao POC e lendo um dos seus principais objectivos,

«(…) estruturadas sob a forma de circuitos de programação, co-produção e divulgação das artes do espectáculo e visuais, demonstrando que com o projecto se obtêm efectivamente ganhos de eficiência que contribuam para as condições de sustentabilidade dos recintos culturais envolvidos e para a melhoria da oferta cultural nas regiões mais desfavorecidas do território nacional.»

facilmente e sem grandes contas constatamos que, tirando honrosas excepções de Câmaras que entregaram a gestão destes espaços a pessoas ou entidades externas com conhecimento e a quem possam ser assacadas responsabilidades, não se vislumbram quaisquer iniciativas conducentes à sustentabilidade! Mais grave, ainda, é saber que os detentores dos espaços pensam mesmo que o Estado tem obrigação de, per si, os sustentar!
Não sou pessimista, mas estou muito preocupado com o futuro destes espaços, preocupação essa que já vem desde a aventura de os restaurar e/ou construir (basta correr o que por aqui escrevi sobre gestão cultural e sobre o Pax Julia).
Muito mais penoso do que não ter é ter de encerrar o que com muita dificuldade e com dinheiros públicos se ergueu, por manifesto desinteresse pelas mais básicas regras de gestão!
Apesar das minhas preocupações, endereço à Câmara Municipal, aos seus funcionários que, entre outras responsabilidades, têm a de fazer com que o Pax Julia funcione, bem como à equipa de prestadores de serviços (em especial técnicos) que faz com que possa acontecer, os meus parabéns e o desejo, muito sincero, de este dia seja o primeiro de muitos aniversários do PAX JULIA.
Hoje, às 21:30h, poderemos assistir a:

ficha técnica:

Direcção: Domingos Oliveira e Priscilla Rozenbaum
Director Assistente: Eduardo Wotzik
Adaptação: Leonor Xavier
Guarda-roupa: José António Tenente
Desenho de Luz: Marinel Matos
Intérpretes: Ana Brito e Cunha, Fernanda Serrano e Maria Henrique


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11 Respostas to “Teatro PAX JULIA – parabéns pelo seu 1º aniversário”

Comentários (6) Trackbacks (3) Pingbacks (2)
  1. Luis Beco diz:

    Amigo Carlos,
    Antes de mais há que felicitar e dar os parabéns ao Pax Júlia e a toda a sua equipa por um ano de trabalho e programação continuada.
    Depois há que felicitar também a iniciativa de recuperação dos muitos espaços que se encontravam fechados uns por falta de equipamentos outros por se encontrarem profundamente degradados e obsoletos, através dos acordos entre entidades locais e o programa Operacional de Cultura (POC).
    Em relação à equipa de funcionários que o Carlos denomina de “sem qualificação ou experiência específica� considero injusta esta afirmação pois pergunto eu como pode o Carlos julgar e avaliar o trabalho destes sem conhecer todo o trabalho desenvolvido pelos mesmos, vou mais longe e pergunto eu a quantos espectáculos assistiu em um ano de actividade?
    Talvez devesse primeiro pedir ás companhias e a todos os grupos que por este espaço passaram, informações sobre a forma de como foram recebidos e qual a qualidade do quadro técnico do Pax Júlia, e foram mesmo muitos para tal basta aceder a este link (http://www.paxjulia.org) e verificar.
    Quanto a programação devíamos felicitar acima de tudo por ser boa, diversificada e sim muita e para todos os públicos até acrescento mais, poucos distritos do país tem ou conseguem ter a quantidade e qualidade da programação que o Pax Júlia e Beja oferecem à sua população, devo acrescentar também e agradecer o apoio do público que cada vez mais enche as salas do nosso teatro, será um bom sinal?
    Quanto à gestão do Pax Júlia como o Carlos deve saber por ser um espaço com uma actividade tão mediática e tão importante será sempre sujeita a muitas criticas…mas para se criticar tem de se ir ao nosso palco verificar com os próprios olhos.
    Sim à muito que aprender e evoluir mas estou certo que todos o que fazem desta casa a nossa casa disso tem consciência.
    Não podemos ser tão pessimista.
    Os meus parabéns e obrigado ao Pax Júlia e a toda sua equipa.
    Um grande abraço deste amigo que muito respeita o que o Carlos escreve e diz.
    Luís Beco – luisbeco@sapo.pt

  2. Carlos a.a. diz:

    Estimado Beco

    Aqui fica registada a tua opinião que, aliás, muito prezo, mas que em nada contradiz o que afirmei. Vamos por partes:

    1 – enderecei os meus parabéns a todos os intervenientes no PAX JULIA, desde a Câmara Municipal, passando pela equipa de funcionários e acabando nos prestadores de serviços, como é o teu caso, sem nunca ter avaliado, julgado e muito menos menosprezado o seu desempenho;

    2 – conhecendo as pessoas, sua qualificação e experiência, já antes do Pax Julia abrir, não julgo ter necessidade de assitir a espectáculos para emitir uma opinião sobre a capacidade de gestão (GESTÂO, recordo, foi sobre o que escrevi);

    3 – não me pronunciei em lado algum sobre a qualidade nem a quantidade da programação, não sentindo, portanto, que o facto de ter assistido a mais ou a menos espectáculos no PAX JULIA seja relevante como alicerce ao que escrevi;

    4 – quanto à gestão do PAX JULIA, como doutros espaços similares, não necessito de ir a espectáculo algum! Preciso sim, aliás, deveria ser do conhecimento público, o balanço entre o deve e o haver, qual a taxa de cobertura das despesas pelas receitas, o que está a ser feita para melhorar esse rácio, e um estudo de viabilidade económica;

    5 – a minha preocupação pelo futuro destes espaços não é de agora como sabes, manifestei-me muito antes deles abrirem as suas portas ao público, não consistindo na programação o problema que coloquei, o qual volto achamar a atenção – como é que nós todos, o Estado e Câmaras Municipais, irão conseguir manter estes preciosos espaços com uma programação regular, que muito prezo, sem uma gestão eficaz conducente ao seu auto-financiamnto?

    6 – é perfeitamente compreensível o teu agradecimento à equipa do PAX JULIA da qual fazes parte mas, para quem, como tu, viveu todos os momentos do PAX JULIA desde o seu início, saberá que não fora, precisamente, o equipamento e o trabalho da equipa do então ARTE PÚBLICA muito antes da sua reabertura (da qual fazias e julgo que ainda fazes parte) e não estaríamos a comemorar o 1º aniversário.
    E sabes porquê?
    Por aquilo que disse e repito – a falta de qualificação e experiência da equipa da Câmara (repito também novamente, tirando honrosas excepções).
    E para constatar isto, estimado Beco, de nada me valeria ir a um único espectáculo porque tudo foi camuflado (não se via e não veio a público)!

    7 – a minha preocupação, acredita, aliás acho que tu sabes, é no sentido criar os alicerces para manter estes espaços vivos e activos por muitos anos e não esperar por, daqui a muito pouco tempo, alguém parecer muito surpreendido por ter de os encerrar, convocando gloriosas manifestações para os reabrir!

    8 – parece fazer escola dizer que quem critica algo no PAX JULIA são, precisamente, aqueles que a menos espectáculos vão, mas quem está à frente dos seus destinos, em vez de aduzir um argumento generalizado para todos os que criticam, deveria, talvez penso eu, separar as críticas dos detractores “encartados” daqueles que apenas pretendem o bem da instituição.

    Abraço e muito obrigado pelo comentário.

  3. Desaparece diz:

    O que tu querias nós sabemos. ainda não viste que niguém te liga nada?
    põe-te a andar, vai para a tua terra se é que a tens?

  4. nikonman diz:

    Há gente que não aguenta uma letrinha sobre o que se passa nesta terra e fica logo desbocada, como é o caso desse desaparece. Até dá mesmo vontade de fugir desta terra.
    Enfim, vamos ao essencial.
    O Pax-Julia prepara-se para, mais tarde ou mais cedo, integrar um projecto chamado Empresa Municipal (para a gestão dos espaços culturais). Reparte-se, assim, a incapacidade de equacionar uma programação cultural ambiciosa e evita-se que a veleidade privada fique municipalmente controlada. Tenho o maior respeito por todos quantos ali trabalham ( e sei que há alguns que estão desaproveitados, pois as suas capacidades são extraordinárias e a sua participação fica aquém dessas mesmas capacidades), respeito quem tenta trazer ao palco do Pax Julia o melhor que conhece, mas falta ambição e muita, muita força de vontade.
    Depois. Depois há uma série de complexos nos responsáveis culturais desta cidade. E enquanto forem esses complexos a determinar as escolhas culturais, não há equipe nenhuma que consiga fazer do Pax Julia a melhor sala de espectáculos do Sul.
    Um abraço.

  5. nikonman diz:

    onde se lê “e evita-se que a veleidade privada fique municipalmente controlada” deve ler-se “e evita-se que a veleidade privada se exiba e fique assim municipalmente controlada”.

  6. Carlos a.a. diz:

    Nikonman

    O respeito que me merecem todas as pessoas impede-me, precisamente, de individualizar o assunto que tratei (recordo mais uma vez, gestão, no caso, cultural).
    Mais adianto que, muito seguramente, apresentar alguns espectáculos, nas condições existentes, terá sido quase um milagre e que a maioria das pessoas que trabalham no PAX JULIA deverão ter tido muitos e muitos dias em que pouco dormiram ou comeram.
    Exactamente por isso enderecei os parabéns, sinceros, a todos os envolvidos – Câmara, funcionários e prestadores de serviços.
    Por outro lado, não falei dos espectáculos apresentados, nem da sua qualidade nem da sua quantidade, pois a programação deve ser, do meu ponto de vista, o reflexo de uma missão e objectivos previamente delineados, os quais desconheço.
    Por último, quando afirmei que existia «equipa de funcionários sem qualificação ou experiência específica (tirando sempre uma ou outra excepção», está perfeitamente implícito (sem individualizar a questão) o desajustamento funcional! Termos uma pessoa mais do que qualificada para executar determinado tipo de funções a fazer outras é mais um caso de ausência de gestão, para não dizer de má fé.
    Se quiserem pegar nas minhas palavras para entender um insulto, façam-no, estão no seu direito, mas não foi isso que escrevi nem foi essa (quem me conhece, sabe) a minha intenção.
    A minha intenção é clara (peço o favor de lerem com atenção, com mente aberta e sem emprenharem pelos ouvidos) – trabalhar para que daqui a uns tempos não tenhamos de constituir movimentos, manifestações e abaixo-assinados para que o PAX JULIA possa continuar a desenvolver um papel relevante para o Distrito de Beja.

    Quanto a uma empresa municipal para «evitar que a veleidade privada se exiba e fique municipalmente controlada» não sei que dizer, (aliás já escrevi bastas vezes sobre o assunto aqui no Ideias Soltas muito antes do PAX JULIA abrir), mas não sei de que tenha mais receio, se das veleidades privadas se das públicas.
    Há muito a pensar antes de dar esse passo:

    1 – tem Beja uma dimensão crítica que permita o desenvolvimento do projecto em condições de progressivo auto-financiamento?
    2 – se tem quais as prioridades que deve privilegiar?
    3 – se não tem o que deve fazer?
    3.1 – dar prioridade à formação de públicos?
    3.2 – investir mais no Serviço Educatido ou manter o investimento quase exclusivo na oferta de espectáculos?
    3.3 – envolver na sua gestão a parceria com outras Câmaras do Baixo Alentejo?
    3.4 – envolver na sua gestão a parceria com entidades privadas?
    4 – que responsabilidade deve ter na promoção dos artistas e instituições culturais da região?
    4.1 – há conhecimento dos valores que cá residem?
    4.2 – depois de os conhecere e seriar, têm valor para actuar no PAX JULIA?
    4.3 – deve e pode o PAX Julia promover os valores regionais pelo país afora, aproveitando a estrutura de rede em que está inserido e, se sim, qual a percentagem do orçamento que deve ser afecto a esse objectivo?
    5 – que papel deve desempenhar a iniciatica privada no Pax Julia?
    6 – se se considerar que deve desempenhar, que objectivos traçar e de que forma a implementar?
    6.1 – entregar o espaço à iniciativa privada?
    6.2 – manter o estado actual e dicidir pontualmente?
    6.3 – constituir mais uma estrutura camarária que defina universalmente quais os critérios, condições e meios de controlo para a sua prossecução?
    6.4 – definir a missão, objectivos e formato e entregar contratualmente a gestão a uma entidade privada que o faça, a quem se possa assacar responsabilidades?
    7 – obtidas as respostas às questões anteriores, qual a equipa de gestão mais adequada e qual o perfil de cada elemento?
    8 – elaborar o plano, onde está, entre outras coisas, incluído um modelo de programação, para cumprir a missão e objectivos traçados.

    As respostas a estas e outras questões deverão ser prévias a qualquer decisão, pois sem elas, sem se estabelecer, com rigor, o que se pretende, como se avalia e quais as formas de controlo, tudo poderá não passar de inciativas meramente especulativas.

    ps: vou passar este texto a post.

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