Set 182006
 

«Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Não, não e não!” e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!” o substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” – presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por ílaba…Diante de uma notícia irritante qualquer um “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo.

Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”.

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo?

Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.»

autoria incerta, mas atribuída a Millôr Fernandes ou Ivo Resende

  14 Responses to “O direito ao Foda-se”

Comments (14)
  1. Sempre estive de acordo com essa posição. O português falado a norte do sistema Montejunto-Estrela é mais rico, tem mais vocabulário e nessa zona do país todos os palavrões tem um sentido metafórico e libertador. É possível ouvir uma mãe que está à procura do filho na Ribeira no Porto dizer: “Onde estará aquele filho da puta?”.
    A dificuldade é explicar isto, este carácter a um gajo de Lisboa que usa como maior insulto a seguinte frase: “Olhe que isso é muito desagradável!”. Não é possível. Portugal tem duas culturas o que aliás já foi dito por José Mattoso, insigne historiador. Esta é uma questão interna que prefigura todas as outras em que “não se compreende o Outro”. Tanto faz que seja judeu, árabe, hindu, ou francês. Não se consegue. Vivo em Lisboa desde 1995, uso o nosso rico vocabulário, rodeado de muitas pessoas que não dizem nem um simples merda. É duro. Tentei explicar esta diferença sem nunca ter sucesso. Que se foda!.

    • É exactamente como dizes, António, libertador e nada ofensivo, representando culturas diferentes.
      No Alentejo, onde estive durante 12 anos, também apesar de não abdicar da minha identidade, não consegui que entendessem, mas confesso que também demorei algum tempo a compreender a cultura local. coisas de raízes e identidades.
      Obrigado pelo comentário.

  2. nada mais interessa, cabrões militantes da verborreia com aspiração a serem a polícia moral do que é correctamente político.
    morreu Millôr. – ou ainda não tinham reparado, seus egocêntricos de merda?
    aprendam com ele se puderem, cabeças de caralho murcho. (já vão tarde)

  3. Foda-se, uma posta do caralho. Um abraço do Raul

  4. Ora bem, Chico, é dar-lhe quando podemos…

    Naeno, pois, obrigado pelo teu texto.

    Ora aí está, Rui, malta do Porto é assim! E a outra, se calhar, também.

  5. Foda-se,
    é um prazer expressar-me assim caralho. É uma puta de uma ideia libertadora e catártica.

  6. Verde Oliva
    A consistente disputa entre Comunistas e Capitalistas. Uma realidade que vem resistindo ao tempo. E, na medida do possível, essa convivência divergente, serve para aguçar nas pessoas o lívre abítrio de fazerem suas opções. O que é melhor para cada um. Isso a nível de Nação, de País. No momento o mundo anda repleto de pessoas defensoras da igualdade para todos, em divisão igualitária, fraternidade, e luta comum. Estabilisando a muralha dos adeptos do regime Socialista Communista. Por outro lado, principalmente nos Países Ocidentais, e muito especialmente nos Estados Unidos, vigora a força capitalista cujos princípios direcionais são: trabalho e individualidade para todos. Democracia. Isto nos induz a pensar na possibilidade de que aqui no Brasil se crie, como no restante dos países, ditos subdesenvolvidos, coincidentemente, todos da América Latina, da implantação de um regime pesado, a Ditadura. Um regime de imposições de fortes interferências naquilo que se produz nas áreas culturais, nos pensamentos individuais de cada cidadão. Isto é um fato. Ainda persiste o interesse da União Soviética em se estabelecer em terras latinoamericanas, concorrendo diretamente com os EUA, em se ramificar também nesses países alvos estratégicos, no que concerne, segundo juizo das duas potências mundiais, a má condução desses países por parte de seu povo e de seus governantes. Bem como por se mostrarem frágeis economicamente, ideologicamente, no entanto com potencial de virem a ser, para um lado ou para o outro grandes aliados no futuro. Existe a força imbativel dos Estados Unidos da América em evitar que ocorram com os pobres países, até poderem administrar suas fronteiras, seus espaços físicos, o que se viu acontecer em Cuba, uma república filial da União Soviética. Isto faltamente acontecerá e, pela posição do ranking, fatalmente os Estados Unidos levarão a melhor. Pela proximidade, pelo que já se adiantaram em conversações com os presidentes desses países, na sua grande maioria adepos seus.
    Tal regime, impede as pessoas de suas indidualidades. Por exemplo: ninguem mais sai às ruas depois das dez horas da noite; todos os muros serão pichados “Abaixo a Ditadura�; os sermões dos padres serão ouvidos atentamente por agentes do SNI. A maioria dos professores, formadores de opinião terão de prestar conta dos seus atos heróicos junto aos DOPS.
    E eu temo por mim. Mas é inevitável que isso aconteça, para que os saudosos façam valer os seus desejos de última hora concretizados. Depois a coisa continua… pau da nuca, pau de arara, pessoas torturadas das mais diversas formas, como os americanos aprenderam nas duas guerras qeu tomaram parte, deportações, extermínio de combatentes contrários, o escambau.
    Eleições só para Miss Brasil, presidentes de Clube de Futebol, da Câmara e Senado Federais, que farão apenas o papel de tal, no fundo tudo, tudo, tudo, o Senhor General de tudo cuidará e tudo determinará, e resolverá.
    Temo por mim, que não tenho pernas para correr, e não poder participar desse carrosel da alegria, porque não tenho, também altura, para chegar acima do meio do muro e escrever, gostosamente “Abaixo a Ditatura�, O DOPS é merda!
    Temo por mim que não vou poder comprar os Lps que o Chico, o Caetano, o Gilberto Gil, MPB4, Quarteto em CY, lançam todos os anos. O do Roberto Carlos, meu pai sempre compra. Agora que impulsionados pelo reúdio ao novo sistema implantando cresceu vertiginosamente o poder criativo em cada um deles, que farão coisas esplendorosas. A Ditadura tornou-se o dínamo da produção literária e fonográfica em nosso País. Em injustificadamente veremos a fuga forçada de alguns, ironicamente para os EUA, França, para onde vai Frei Tito, Geraldo Vandré. Caetano Veloso, Gilberto gil, estes agora vivendo na Inglaterra. Por aqui se fala que o exílio dos dois, Caetano e Gil, foi, vamos assim dizer um auto-exílio patrocinado por eles mesmos que, por iniciativa própria foram à PF atualizaram seus passaportes e se mandaram, em busca de inspiração e novidades herméticas. De lá, todos os anos cada um lança um disco; vimos agora chegarem às lojas do Caetano, London London, do Gil Expresso dois, dois, dois, maravilhosos.
    Temo por mim que não poderei namorar nenhuma filha de militar, sendo eu membro do Grêmio Estudal da Escola Técnica Federal. Mas é necessário que isso se confirme mais ainda em nosso País, uma Nação que não se modificava em nada, não progredia para qualquer lado, e ainda com a ameça por partre dos professores da rede pública de ensino, e dos alunos gremistas, e de alguns pensadores, religiosos de tornarem daqui um País Comunista.
    Não foi melhor assim? Estamos livres dessa idéia absurdo, e finalmente convivemos com a Ditadura. Que chegou no tempo certo, depois, já poderia ser tarde para muitos que ansiavam tanto pelo restabelecimento da ordem. E eu, por egoísmo não devo ir de encontro aos fatos. Comunista que se presa, presa pela privacidade, individualidade de cada um. O bem comum nas mãos de todos. Tudo é dividido, inclusive o pescoço da cabeça. Que se concretise a Ditatura, pois existem muitos que não se contêem com a ditamole. Acham acanhada, desmantelada, coisa que todo mundo bota a mão e continua dormente, inaltevável. Que dure a Ditadura. Que venha em seguida a escravatura. Pois existem ainda aqueles que, dando os seus últimos suspiram, ainda desejam contemplar um pelourinho, e ainda mudam de calçada quando seriam forçados a pisarem no mesmo quadro de chão de um ser igual, de outra cor. Que entrem em movimento todos esses dínamos que impulsionam o nosso País para a frente e o tornam mais democrático, independente, concorrente gual no mercado internacional, mais exportador que importador – inclusive de pessoas submetidas ao exílio, uns forçadanmente, outros nem tanto; tri campeões do mundo no futebol. Que venha Pelé, Tostão, Carlos Alberto “nosso capitãoâ€?, Garrincha, Jairzinho; que o Chico Buarque continue nessa efervecência criativa, todo semestre lançando um lp, cada um mais blo que o outro, o mesmo acontece com Caetano Veloso, Augusto Boal, Rui Guerra “um português integrado com nossa música e nosso teatroâ€?, Cacaso, Wally Salomão, Geraldo Vandré, Elis Regina, com os Tropicalistas, com Tom Zé, Rogério Duprat, com o meu conterrâneo Torquato Neto.
    Que Pinochet seja nosso aliado, que Médici seja um dos escolhidos para presidente da República Federativa do Brasil. Que os Bossas Novistas, João Gilberto, Roberto Menescal, Toquinho, Tom Jobim, Jonny Alff, Carlinhos Lira, Vinícius de Moraes, Paulo Sérgio Vale, João Bôscolli, fiquem dias e dias nas bordas das piscinas tomando Uisque, cantanto: O Pato, Amor sem Fim, Se Todos Fossem Iguais a Você, Berimbau, Samba de Uma Nota Só, Eu e a brisa, pouco incomodados com a inquietude lá foira, com as rondas contínuas dos policiais federais, caçando comunistas, maconheiros, porque cada um des dispõe de uma carteirinha que lhes permitem compor e cantarem, músicas que só falem de flores, amores, ipanema, corpo dourado, e já se inicie o processo de americanização, também de nosas melodias, compondo uma música inédita, nascida da mistura do nosso samba, com o jazz americano, no seu requinte harmônico.
    Que se estabeleça o regime que faz com que todas as músicas, todos os curtas metragem em super oito, todos os livros de poesias e prosas, todo pronunciamento acadêmico, toda festa promovida pelos grêmios estudantis, sejam gravadas e passados de mão em mão dos sensores brasileiros e vistoriadas por servidores do DOPS.
    Que se alegrem por isso os donos do mundo, os Estados Unidos da América, que sem se saber, ironicamente nos fazem viver o melhor regime e ficam constrangidos diante do que passam hoje, o pior.
    Vai entender esses gringos e esses que estão para morrer e tem o coração resistente.
    Cadê Olga Benário? uma guereira nata, que se enamorou por Luis Carlos Prestes, e este fez o favor em de presenteá-la ao baixinho invocado Getúlio Dornellas Vargas. Criador da Carteira de Trabalho, do décimo terceiro salário, da clt.
    Eu temo por mim que não posso comprar nem ler O Capital do genial Karl Max, nem o Quiabo Comunista de Carlos Novaes, nem Brasil Nunca Mais, nem o Jornal Olinião, nem o Pasquim, e vou continuar na retórica baixa, sigilosa com os meus comparsas do grêmio Dom Avelar. “Viva a Ditadura, O povo unido jamais será vencido�.
    naeno:061006

  7. Ótimo texto …

    É muito bom falar um bom palavrão vez por outra..

    Quando o Bonner falou na tv que o Lula não ia ao debate, acho que o Brasil inteiro falou algum…

    Eu pelo menos, caprichei..

    Tudo de bom !

  8. Muito obrigado a todos.

  9. Boa remodelação e boa posta!
    Um abraço
    Isidoro de Machede

  10. Muito obrigado pelas boas palavras.

  11. Boa posta!

    Um abraço,
    Francisco Nunes

  12. foda-se um post bom pra – caralho