do Ser, da Mente, do Corpo, do Sexo, da Psicanálise | Ideias Soltas

do Ser, da Mente, do Corpo, do Sexo, da Psicanálise


A ALI_SE escreveu o processo interior de “(re)construção” com o intuito de analisar uma forma, hipotética a meu ver, o acto criativo, sob o título “Imagina-se o INCONSCIENTE“, investindo contra a psicanálise pelo facto de, no seu entender, que ela poderá “«matar»por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente”. A polémica ficou instalada, como será evidente, na sua caixa de comentários, em especial com a troca de impressões entre a Ana Almeida do Salpicos e a autora.
É interessante o lá é dito, mas o debate ficou-se, um pouco, entre o sim e o não, entre os totems - a afirmação e a negação. Tudo se joga no objecto da psicanálise e na forma como ela é desenvolvida na prática clínica: se “a psicanálise tem como objectivo a cura do inconsciente” como entende a ALI_SE e, como eu acho que muitos psicanalistas têm, mesmo que inconscientemente, essa tentação clínica, ou se a psicanálise tem por o objecto ajudar as pessoas a conhecerem-se melhor a si próprias.
Afinal é neste ponto que reside a diferença já que, se este objecto fosse cumprido, o risco de formatação seria bem mais reduzido.

À boleia desta polémica apetece-me inserir um outro factor: o excessivo valor que hoje atribuimos ao corpo, por via de um inevitável movimento de libertação sexual, que conduziu ao hedonismo que hoje vivemos, reduzindo o corpo, quase, a um mero objecto sexual, como se mente não tivesse, ou, a ter, tudo o que contém é pelo sexo determinado!

Deixo um excerto de um ensaio de José Augusto Mourão, “SEXO, TEXTO E CORPO VIRTUAL” que pode ser lido aqui na íntegra.

«(…)
Que está a mudar? Depois da repressão sexual, a libertação. Ao fim e ao cabo, continuamos a reproduzir o negativo ou o positivo absoluto, não a ambivalência.
Depois de ter libertado a sexualidade do repressão da era vitoriana, Freud acabou por a canalizar para o quadro restrito da economia doméstica. Quem não respeita o esquema que circunscreve a sexualidade ao território dos fantasmas parentais, vidé triângulo edipiano que codifica a sexualidade e a retira de qualquer ambivalência é, ou doente, ou perverso ou louco. O erotismo endémico (e outras formas de êxtase como o misticismo, a embriaguez e a toxicodependência), associada à rapina, é um sinal de bifurcação ópio para o esquecimento, gozo da morte alheia. Em qualquer bem conquistado, esse rumor éperfeitamente audível.
Os bens da rapina (e da retina) são bem conhecidos: o ouro, as mulheres, os escravos e a tirania. Só em tempos de fome é que o estômago domina. O eros só é possível se o corpo preserva toda a sua ambivalência e não se reduz a essa significação unívoca que é o sexo, codificado. Não há todo (ou o todo), dizia Lacan. Dois não fazem um, mas um par de forças. O que o sexo faz é distinguir. Ninguém é homem ou mulher sem resto como ninguém é homo ou heterosexual sem resto, escreve Jean-Luc Nancy. Afinal não é essa a questão do nome próprio que para Deleuze designa um efeito, um zigzag, algo que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial?
A maior parte do tempo, a libertação sexual reduz-se à libertação da roupa. Que é a moda senão a encenação do corpo através dessa única significação que é o sexo? Triunfo da equivalência, derrota da ambivalência simbólica. Por isso o strip- tease fascina: provocando o desejo sexual, mantém-no à distância encanto da ambivalência. Para os povos que têm ainda o sentido do adorno, a roupa é a glória do corpo: Rien ne va aussi profond que la parure.
Deve ser por isso que a apocalíptica judaica e cristã apelam ao tema da roupa para dizer o brilho dos corpos gloriosos. O perigo que nos espreita é a libertação do corpo que não o abre à ambivalência, antes o encerra na monovalência duma sexualidade que se torna inteiramente positiva. Se os primitivos se passeavam nus é porque o seu corpo era visto como um rosto, como expressão simbólica.
Ora, se o rosto é invisível, o sexo também o é. O corpo não é apenas força de trabalho nem apenas fonte de prazer: libertá-lo apenas reforça a sua estrutura codificada.
A ambivalência não quer a revolução, ela é revolucionária em si, ao interromper a circulação ordenada dos signos através dum equivalente geral. A lei éo lugar em que se acumula o valor. Transgredir a lei significa medir-se ainda com ela, logo não sair da família. Escreve Galimberti, Se a lei do pai ou a moral puritana é hoje anulada pela pressão dos movimentos de libertação sexual, aquilo que se anuncia, quando não se abandona a lei mas nos limitamos a transgredi-la, é uma regressão ao seio da mãe que esta sociedade, que se tornou permissiva, tolerante, gratificante e lenificante tolera, suprimindo qualquer censura, qualquer repressão com a qual outrora defendia a lei do pai.
É preciso que a miséria sexual seja muita para que o sexo seja hoje uma preocupação dominante. Quando o corpo muda, então tudo está a mudar. O corpo tornou-se um campo de batalha: The body is a battleground, diz Bárbara Krueger numa das suas montagens.
A época anunciada por Donna Haraway em que o monstro, o híbrido vem extremar a categoria de corpo, substituirá o enigma de um corpo demasiado orgânico, logo viscoso e enigmático, por um outro, agora biotécnico, sem órgãos, limpo de paixões e de sentido?»

Nota: introduzi parágrafos no excerto para melhor se ler num blogue, salvaguardando que o original não os contém.


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