Sonny Rollins, meu, meu Pai e eu | Ideias Soltas

Sonny Rollins, meu, meu Pai e eu


De um dia para o outro, em Julho de 1997 desafiei o meu Pai a rumarmos de carro, quais imberbes adolescentes, a Antibes só para ver o Saxofone Colossus, então com quase 67 anos (nasceu em Setembro de 1930, no Harlem, não havendo uma data consensual, 7 ou 9). Pensava eu que talvez fosse uma das últimas oportunidades de o ouvir e ver ao vivo.
O concerto foi memorável como todos os do Sonny - um bicho, um animal de palco, um génio da improvisação com uma mestria rítmica e harmónica inigualáveis, que parece em ausentar-se para outra dimensão quando começa a revirar os olhos, em transe diria, como se ali fosse um outro que não ele, mas que por ele e com ele se exprime. Bom, o certo é que apesar dos meus receios ei-lo de volta com um novo CD, Sonny, Please, cujo primeiro concerto europeu foi este ano no Jazz at Viena, estarrecendo a crítica presente. Sonny, aos quase 76 anos apresentou-se assim:

Foi a única vez que fiz férias só com o meu Pai. Não me conhecia! Tinha uma ideia completamente diferente do que eu era - o rapaz e depois homem demasiadamente sério e sisudo, responsável e profissional, mas nada gozão, como ele era e sempre almejara que eu fora…. Mas era, embora nunca lho tivesse dado a conhecer.
Gozámos que nem doidos - o ambiente, as praias pagas da Côte, o vinho, as ostras, as gajas!
Morreu no ano seguinte com a doença que já carregava, mas durante esse último ano já mais não fomos Pai e filho; apenas 2 gajos folgazões e…. danados para a brincadeira!
À época, quando me apercebi de que nunca tinha permitido que ele me conhecesse para além da imagem formal, experimentei alguma amargura, culpa mesmo, mas hoje, sim, hoje e desde pouco após a sua morte, sei que esse ano foi um privilégio para mim. Já não sabe a pouco, sabe a muito, a tudo, porque um ano, um mês, um dia, um momento, podem ser tudo, ou quase tudo o que conta, o que fica.


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2 Responses to “ Sonny Rollins, meu, meu Pai e eu ”

  1. Memória ímpar, tocante, ainda mais com Sonny Rollins como pano de fundo.

  2. Muito obrigado pelas palavras, Maria.

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