«Em Portugal, por exemplo, a percentagem do sector cultural e criativo para o PIB é de 1,4 por cento, abaixo do sector têxtil (1,9) mas acima do dos derivados de borracha e plástico (0,5 por cento).
(…)
Já em França, Itália, Holanda, Noruega e Reino Unido, o sector cultural e criativo é o que mais contribui para os PIB nacionais.» (no Público)
Há evidências que a insigne e nobel escola económica portuguesa (especialistas em finanças públicas e de todos os tipos ou, mais concretamente, versão moderna de guarda-livros) não consegue decifrar por evidente formatação do ensino. Nas nossas faculdades de economia e de gestão não se formam gestores, não se incute o desenvolvimento do “faro” do negócio, antes espartilham o conhecimento na gestão corrente, na despesa e na receita, escamoteando a análise de oportunidades de negócios e mercados emergentes, condicionamento que limita drasticamente a capacidade de discernir o que é despesa do que é investimento.
Num momento em que o investimento na indústria ruma para o Oriente e a dos serviços concentra-se em enormes grupos financeiros que ninguém conhece ao certo seu modus operendi nem as regras do jogo, o negócio da cultura parece ser o que de mais promissor a Europa pode explorar. Temos património, temos criadores, temos equipamentos, mas falta-nos o know how para explorar o negócio – o investimento na formação de gestores, no caso, gestores culturais. Temos o ouro, mas não o sabemos garimpar…
Não tenho a veleidade de pretender sensibilizar pessoas como o Dr. Rui Rio para este fenómeno, mas há muita boa gente que ainda está a tempo de perceber estas mudanças dos mercados e do comportamento dos consumidores e arrepie caminho!
Pensem, por exemplo, no chavão de que o Estado gasta muito dinheiro com a cultura! O que é que isso quer dizer em termos práticos? Não sei, mas os factos são estes: o orçamento do ministério da cultura é de cerca de 0,6% do PIB enquanto o contributo da cultura para o nosso PIB é de 1,4%!
Repare-se no fenómeno Casa Fernando Pessoa. Trata-se de uma instituição nova? É sobre-financiada? De forma alguma! Trata-se de um caso de sucesso muito recente onde existe trabalho, muito com certeza, mas competência (o termo que a distingue e deveria constituir-se em case study nas nossas faculdades), competência intrínseca às coisas da cultura e, muito especialmente, à forma como é gerida.
É tempo de aprendermos e de arrepiar caminho sem nos deixarmos prender por conversas de café como a de saber se mais ou menos Estado, se somos neo-liberais ou sociais-democratas ou outra coisa qualquer, porque o mercado e as oportunidades de negócio não esperam nem dessas cogitações querem saber.
Para um economista, para um gestor, a questão deveria resumir-se a constatar que a cultura é uma das mais promissoras oportunidades de negócio para a Europa e que devemos investir o mais eficazmente possível para estar rentavelmente nele.
Para os governos a questão poderá ser mais complexa, como venho defendendo, pois eles próprios deveriam reorganizar-se numa perspectiva de gestão cultural, envolvendo tutelas dispersas pelos ministérios da cultura, educação e negócios estrangeiros e pelo audiovisual, com missões e objectivos próprios quando não contraditórios.
Tags: Cultura, Cultural Management, Culture, Gestão Cultural, Política






















…creio que o problema não é só de agora e nem sequer deste país…basta lembrar que os textos filosóficos de Hegel, por exemplo, reza a lenda, eram vendidos a peso no seu tempo…penso que todo este campo problemático é difícil e árduo de discutir já que tantas vezes promovendo(um)a cultura na verdade nada mais se faz do que em último reduto torná-la nada lançando tudo o que é produção espiritual e/ou intelectual para o desperdício…na verdade o que é de melhor talvez nasça mesmo assim..por caminhos muito ínvios..brotando do lodo e da dificuldade extrema…
De facto o problema é antigo. Continuamos a considerar a cultura um luxo e os pais oferecem as consolas em vez de livros.
Felizmente que há alguns teimosos.
Obrigado Carlos Araújo Alves por ter colocado este seu texto na Baixa do Porto.
Já desisti de pregar assuntos tão básicos como este a quem encara o desenvolvimento económico como contas de mercearia.
O dito relatório mistura muitas áreas de ‘cultura’, dos videojogos à edição, da publicidade às artes do espectáculo… mas talvez assim algumas pessoas percebam que os negócios culturais e criativos ‘talvez’ sejam mais importantes do que vender casas e porque é que os bancos põe tantas dificuldade ao crédito à promoção imobiliária.
Porque se há coisa que os bancos já sabem há muito é que as indústrias criativas representam um risco de investimento bastante inferior ao investimento noutras áreas tradicionalmente mais ‘rentáveis’…
É verdade, D.A. e João Norte, que o problema é antigo, ou melhor, trata-se de uma permanência de cariz mental centenária que se foi enraizando com o advento da burguesia – o divórcio entre a aristocracia culta cada vez mais falida e a burguesia comercial que foi prosperando.
É tempo, é o que teimo, de sairmos deste quadro, deste espartilho, para aliarmos a cultura à gestão e vice-versa, uma vez que a sua conjugação poderá ajudar ambas e todos nós.
Obrigado sou eu pelas suas palavras Hélder de Sousa. Tivera eu mais tempo e mais textos enviaria para o “A Baixa do Porto” um dos meus blogues preferidos.
Quanto à mistura que aduz eu já tinha constatado, mas não considero mistura porque o meu conceito de cultura e de gestão cultural abarca tudo isso enquanto produtos de criação artística