do Aborto | Ideias Soltas

do Aborto


Ontem a Cristina Vieira no Contra Capa fez referência a um texto que aqui deixei abrindo um debate para o qual não tenho a necessária frieza de raciocínio para assumir uma opinião definitiva.
Por muitas e variadas sensações que vivi e que, portanto, vivem e viverão em mim sentidas enquanto a minha memória vida lhes der, a questão do aborto é para mim muito difícil de abordar. Não vai há muito escrevi um texto sobre uma série de excelentes posts da Maria do Rosário Fardilha no Divas & Contrabaixos, onde afirmava o meu não ao referendo sobre o assunto.
Hoje não sei se mantenho ou não esse não, porque não é suportável continuar a ver mulheres a serem publicamente humilhadas pelas salas de tribunal.
Até lá, a ver vamos o que irei sentindo, mas por ora deixo-vos este outro texto, Manucha morreu a seu tempo, que é afinal um hino à vida.
Eu continuo sem saber, sem certezas, mas respeito quem as tem. Já mais dificuldade tenho em respeitar opiniões de quem nunca viveu momentos em que a vida se vive e sente no extremo do equilíbrio possível.


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9 Responses to “ do Aborto ”

  1. mais uma vez, obrigada pela forma como abordaste o assunto.
    como bem dizes, é dificil avaliar e muito mais julgar que em determinadas situações toma decisões seguramente dramáticas. por isso mesmo, porque não temos o direito de julgar não tendo passado por, é que a minha posição é, definitivamente, não o fazer.

    um beijo grande. tem um dia bom:)
    cris

  2. Acabei de ler “Manucha morreu a seu tempo”.
    É sempre difícil, mas especialmente quando nos toca directamente.
    São, no fundo, as nossas experiências de vida que nos moldam. Por isso também respeito quem tiver opinião diferente da minha, pelo simples facto de não ter vivido o mesmo que eu.

  3. Sim, às vezes torna-se evidente que as pessoas falam sem empatia. Não fazem ideia do que é passar por uma experiência como o aborto. De cada vez que ouço as palavras “crime” ou “pecado”, penso na dor psicológica, na culpa que se agrava, no silêncio doído daquelas (e daqueles) que passaram por essa experiência. Também foi o meu caso. há muitos anos já. Demorei muito tempo a conseguir falar sobre esse assunto. Correu tudo bem do ponto de vista clínico mas sei que depois disso, pela primeira vez, e durante muito tempo, não quis ser “eu”. Não existe nenhuma miúda que não sonhe desde cedo com a gravidez, que não se envolva e emocione com a perspectiva da maternidade. O confronto com uma (primeira) gravidez num contexto que não é nada favorável ao seu desenvolvimento é muito doloroso. Ainda hoje não sei se fiz bem, imagino muitas vezes como teria sido a minha vida se tivesse tomado outra decisão. Mas não chego a nenhuma conclusão. Pode parecer contraditório, mas é também por tudo isso que quero que o aborto seja “legalizado” (e não apenas despenalizado). É importante libertarmo-nos de fantasmas e garantir a todos(as) condições para tomar a melhor decisão___ seja ela qual for, se necessário com apoio técnico (médicos, psicólogos, assistentes sociais).

    Em França (país que conheço melhor), a requerente de uma IVG é recebida nos hospitais por uma equipa. Sinceramente acho que muitos abortos podem ser evitados se ajudarmos as pessoas a gerir o medo, os receios que surgem, sejam eles quais forem. Mas sem falsos moralismos. Por cá, do lado do Não ou do Sim, é só isso que vejo: venda a metro de moral.

  4. Um exemplo da vida bem contado demonstrativo da preciosidade da vida.
    Sim,independentemente de sermos a favor do sim, a interrupção voluntária da gravidez põe sempre fim a uma vida humana. Contudo também é doloroso ver as mulheres serem arrastadas para as salas dos tribunais, obrigando-as a sofrer duplamente.
    Quanto ao exemplo “postado” fiquei com “pena” do casal alicerçar os seus fundamentos como casal(passo o pleunasmo) na existência de um filho.

    Bom dia

    Lobo das Estepes

  5. Cristina,
    nada há para agradecer pois nada fiz ou disse que não de mim.

    LB
    é só isso, o assunto é tão íntimo que julgar é a última atitude a tomar.

    Maria do Rosário
    “venda a metro de moral” - nem mais. Mas a ética, que também tentam vender a metro bem medido, é muito importante para nos aferirmos a nós próprios. Eu tento e pelo que leio a Maria do Rosário também, mas não entendo, viajando agora de assunto, porque raio insistem em manter a disciplina de opção de Moral em vez de incluírem uma obrigatória de Ética!

    Fernando
    Ora aí está, veja lá, “um casal alicerçar os seus fundamentos na existência de um filho”. Nem mais.

  6. ‘venda a metro da moral’ - exactamente! E é isso que anda a tornar-me insuportável o debate a que assisto.Lá no loch, há uns tempos referi-me a isto em Outubro sob o título ‘Luminosas janelas, foscos céus’. E continuo a pensar exactamente da mesma maneira: É uma questão de consciência, do foro do indivíduo, nao do cidadão, que é indevidamente trazida para o foro do cidadao. Por isso sou a favor do sim. Já que se atropelou a ética, então que se minimize o impacto do atropelo na vida real. Até a maneira como se formulam as coisas me parece um disparate - ’ser a favor do sim ou do não’, como se estivessesmos a discutir o cartão da via verde! E, mais curiosamente ainda, em muitos casos a argumentação é de um paternalismo tal que me pergunto cada vez mais que significado é que hoje vamos atribuindo à liberdade individual.
    Quanto à tocante história de Manucha e à desarticulação que a sua morte provocou na família, não concordo muito com os comentários. Conheci casos semelhantes e creio que o que se passa é que as famílias, os casais, não conseguem reconstruir-se para além da memória da dor e, principalmente, de anos e anos de rotinas indispensáveis de entrega e de amor que acabam por esvaziá-los de si próprios naquela relação a dois, como se toda essa vivência de algum modo apagasse a sua capacidade de se inventarem um ao outro (como diz E Andrade - «Às vezes tu dizias: ‘os teus olhos são peixes verdes’ (…) Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade. Uns olhos como todos os outros.») Saudações blogosáuricas.

  7. T-Regina,
    Assim não vale! Escrever desta forma num comentário deste blogue é “desperdício”. Por isso menina, com ou sem a sua autorização, este comentário vai passar a post com a devida referência.
    Agora a sério, T-Regina, um grande beijinho.

  8. oh Carlos! consegues imaginar uma T-Regina ruborizada??? Pois foi o que aconteceu! Culpa da tua generosidade. Quem diz ‘assim não vale’ sou eu!!!! Muito obrigado :) Um beijinho T-regínico.

  9. Rubor, ao tempo que não ouvia essa palavra.
    T-Regina, o que construiste a partir da expressão da M. do Rosário, fez-me muito bem. Essa da distinção entre o indíviduo e o cidadão (tão simples, do tal simples que já temos dificuldade em enxergar) pôs-me a sentir de outra forma.
    Muito obrigado.

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