Feliz Natal | Ideias Soltas

Feliz Natal


Natal 2006
Deus adveniens

de José Augusto Mourão

1. “E a noite como o dia ilumina”? (Sl 139,12). Há noites como esta que iluminam como o dia. E não é porque a cidade esteja mais iluminada. É porque esta é a noite de natal. Mesmo se esta palavra, que nasce sob o signo da criança e do vir-ao-mundo, soa hoje como algo artificial e parasitária. Os recém nascidos só chegarão a ser sujeitos com êxito no parto, se começaram a largar peso e a dissolver vínculos. Não, o natal não é a festa das ligações: nascer é desligar-se. Só o mito do Pai Natal, da obrigação das prendas e do estar juntos nesta noite sustenta esta ficção. Quem traz algo ao mundo fá-lo para se desligar e para se tornar mais ligeiro.

2. As mães parem ou são “desligadas”?, as crianças vêm ao mundo. O vir-ao-mundo significa também vir-à-linguagem, encarnar. Ser parido é des-asfixiar-se. É este o protótipo cénico de todas as experiências de libertação Na dor do parto a criança trazida ao mundo não cai de chofre noutro cenário que não seja o dominado pelo peso da liberdade e do braço desse contrapeso que na linguagem quotidiana se chama amor. À luz do nascimento brilha o primeiro esplendor de liberdade externa e com ele a claridade. A Vita nova de Dante e Bloch tem na evocação deste prelúdio a sua razão de ser. Aqui começa o Aberto, o Imprevisível e o Incerto.

3. Voltemo-nos para a Escritura. César Augusto julga que é deus, por isso manda fazer um recenseamento universal. Na Bíblia saber o nome dos homens na terra é um saber reservado a Deus. David quis fazê-lo e arrependeu-se como de um grande pecado (1 Cr 21,8). José, descendente obscuro de David, obedece ao imperador. Note-se: o gesto de César inverte o gesto de Deus que se faz homem e servidor de todos. Outro paradoxo: Maria é a sua noiva grávida, algo de irregular segundo a lei judaica: o noivado é um compromisso definitivo, mas o acordo é assinado antes que os noivos coabitem.

4. É em Belém que vai nascer o filho prometido a David, conforme o profeta Miqueias. David era pastor e são os pastores os primeiros a ver Jesus, o fruto da graça. Esta é uma das graças desta noite: que os pastores se tornem reis e que a palavra de graça se faça carne em Maria. Mas não há lugar em Belém: será numa manjedoura que Jesus vai nascer. Desde o nascimento, que se dá no lugar em que vivem pessoas do exterior – os pastores – até à morte – Jesus morrerá fora dos muros de Jerusalém – que ele está ao lado dos excluídos e bandidos. Os pastores são mal vistos – têm-nos por ladrões, não têm direitos cívicos nem podem servir de testemunhas porque vivem fora dos Templo e da sinagogas. É a eles que primeiro se mostra do Senhor. Há mesmo um anjo que deixa o Templo – porque é aí que reside a glória e se junta a eles! E ei-los envoltos na luz de Deus, em plena noite! Bem dizia Isaías: “eu mudarei a obscuridade em luz”? (Is 42,16). Admirável é que o anjo anuncie uma grande alegria ao mundo com as mesmas palavras de Páscoa que Pedro utiliza “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado”? (Act 2,36).

5. Qual o caminho moderno para Deus? Na cultura contemporânea, a transformação está em toda a parte: na publicidade, nos efeitos especiais dos filmes, nos brinquedos, na pintura holográfica, na política do corpo (operações de mudança de sexo, cirurgias cosméticas), na localização das fronteiras políticas, no discurso religioso, na filosofia New Age e na retórica da publicidade. Estamos constantemente a ser instados a nascer de novo; abrir-se ao crescimento espiritual, experimentar novas formas de vida.

6. O nosso mundo é incompreensível sem a tomada em consideração a afluência de motivos utópicos persas e judaicos no espaço europeu. Pérsia, a mãe do dualismo e do decisionismo: a Pérsia islâmica de hoje prometeu a luz e só conseguiu alistar os seus jovens para a morte na frente ocidental mais obscura. A utopia judaica gastou-se: basta ver imagens de soldados israelitas que patrulham até aos dentes a Páscoa de 1988 por Jerusalém e por toda a Terra santa assim chamada. O prometedor Deus do desligamento libertador que fala da sarça ardente transformou-se arcaicamente numa espécie de Baal territorial que distribui passaportes e recruta corpos amados.

7. Na história das religiões encontramos duas atitudes básicas na relação entre o global e o universal. No cosmos pagão reina a ordem divina hierárquica de princípios cósmicos, que aplicada à sociedade produz a imagem de um edifício coerente, em que cada membro tem o seu próprio lugar. O bem supremo é o equilíbrio global dos princípios, enquanto o mal representa um desequilíbrio em detrimento dos demais (do princípio masculino em detrimento do feminino; da razão em detrimento do sentimento). O equilíbrio cósmico restabelece-se por meio da justiça que endireita de novo as coisas, eliminando o elemento que saiu da ordem. O cristianismo (e a seu modo, o budismo) introduz nesta ordem cósmica global um princípio completamente estranho a ele, uma monstruosa deformação: o princípio segundo o qual cada indivíduo tem um acesso imediato à universalidade (do nirvana, do Espírito Santo ou dos direitos humanos hoje). De facto, o budismo rompe com a hierarquia da ordem social global que considera irrelevante (Buda ignora as castas e a diferença sexual). E é no mesmo sentido que vão as palavras de Cristo: “Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, á sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo”? (Lc 14,26).

8. O ódio que Cristo impõe é uma expressão directa do que S. Paulo descreve em Coríntios 1, 13 como agapé: é o amor que exige que nos “desapeguemos”? da comunidade orgânica em que nascemos. Não há homens nem mulheres, nem judeus nem gregos. Para os que se identificam com a substância nacional judaica ou com um império romano global Cristo foi um escândalo traumático. O cristianismo considera que o acto mais alto é aquele que a sabedoria pagã condena como fonte do mal: a separação, agarrar-se a um elemento particular que perturba o equilíbrio do todo. O cristianismo é o acontecimento milagroso que transforma o equilíbrio do uno-todo; é a violenta intrusão da diferença. O universo ideológico da Guerra das estrelas de George Lucas é o universo pagão da New Age. Cristo transtorna o equilíbrio do universo pagão, do vórtice do seu eterno círculo em que todas as diferenças giram submergidas no mesmo abismo. Como não ver uma conexão interna entre a morte das utopias e as metamorfoses político-realistas das promessas desgraçadamente irrealistas de outrora? A esclerose do espírito crítico actual corrobora essa fissura. A fonte de Jesus é Deus; nenhuma família o pode fechar no seu círculo, mesmo por amor! A sua universalidade está inscrita nos registos do recenseamento, é um filho do mundo para a terra inteira.

9. Um sinal não é uma prova. Convoca o olhar e a fé: Deus toma a nossa vida para nos dar a sua. Admirável comércio (troca), dizem os Padres da Igreja: Deus fez-se homem para que o homem se faça Deus! Deus não se impõe, nem é o todo poderoso que força o olhar; não se mostra aos pastores sentado num trono de glória, rodeado de anjos: está ali, criança, rodeada pelos pais. Aqueles que estavam oficialmente privados de palavra tornam-se agora evangelizadores: eles anunciam o que lhes foi dito acerca desta criança. São eles agora os anjos, antecipando o papel dos apóstolos. Este é o começo da tradição evangélica. Maria guarda todas estas coisas no coração, fazendo aquilo que a Igreja não deixa de fazer: meditar na obra da Palavra.

10. Deus não salva de longe; escondido, o Todo-Próximo aproxima-se de nós, dos excluídos aos pobres. Jesus criança é um sinal ao alcance dos pequenos. Só os olhos das crianças reconhecem na criança o milagre da incarnação. É assim a vida: a luz ilumina a noite de Natal, enquanto as trevas cobrem a terra em pleno meio-dia quando Jesus é crucificado. A salvação para nós humanos consiste em viver em presença de Deus, em partilhar a sua vida e a sua glória. O céu está na terra, os pastores, esses excluídos, no céu que não é o Templo, mas o campo. O quadro ordinário das suas vidas tornou-se o Santo dos santos, o lugar da presença de Deus. Os pastores são cidadãos do céu enquanto Jesus, o Filho de Deus se torna súbdito de César. A paz, dom que caracteriza a era messiânica, caminha com a salvação. Salvação e paz para todos os que acreditam no Aberto. Partamos com os pastores a ver “essa coisa que aconteceu”? e ajoelhemos diante do milagre que é a vida que nasce e diante de nós se expõe: nua e desprotegida.

11. A nós compete continuar o ofício dos anjos: o louvor incessante de Deus por aquilo que Ele é e dá: “um Deus nos nasceu, filho nos foi dado”?. Volte cada um à sua lavra: foi na obscuridade do presépio que os pastores foram iluminados. Que a mesma luz que cobriu os pastores nos envolva a nós nesta noite santa. Assim a luz que vem do alto ilumine o nosso coração para a travessia do tempo e o louvor que esta hora pede.

José Augusto Mourão


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5 Responses to “ Feliz Natal ”

  1. Obrigado Caa
    Retribuo o desejo de boas festas
    que o ano que aí vem traga o bem para si e para os seus

    e gostei muito de ler o extraordinário texto deste post.
    ensinando ele na minha própria escola, nem sequer ouvira falar antes deste homem notável; escandalizo-me ante a minha própria limitação!

    “O ódio (eu preferiria outra palavra)que Cristo impõe é uma expressão directa do que S. Paulo descreve em Coríntios 1, 13 como agapé: é o amor que exige que nos “desapeguemosâ€? da comunidade orgânica em que nascemos…O cristianismo considera que o acto mais alto é aquele que a sabedoria pagã condena como fonte do mal: a separação… O cristianismo é o acontecimento milagroso que transforma o equilíbrio do uno-todo; é a violenta intrusão da diferença”

    Notável, é por aqui, parece-me, que entra uma dimensão política fundamental da democracia enquanto garante da diferença, do instável, que assusta o edifício coerente expressão do princípio hierárquico.
    Mas também eu sinto esse medo da “separação” (e sou cristão no mais fundo do coração), também eu desejo conciliar sem romper, e desejo que sendo nós homens, mulheres, judeus, gregos (porque somos, e a nossa raíz é mater da identidade, mesmo quando pensamos que mudámos,… estou a pensar em S.Paulo), sendo multiplos, possamos con-viver, ter amor na diferença, amor pelo “outro” sem abdicar da própria identidade.
    Julgo que enquanto o “humano” não apaziguar o “animal”, esta minúscula parcela do Cosmos continuará pagã; a questão é se alguma vez isso acontecerá antes do Sol explodir :)
    abraço memo memo natalício

  2. Caríssimos, que vontade me dão de entrar na conversa! E que vontade também de partilhar alguns pensamentos ‘em voz alta’ :) De facto, cds, tabém não me pareceu adequado o termo ‘ódio’, porque realmente não creio que seja disso que se trata. Trata-se de ‘desapego’, no sentido em que estamos a referir-nos a um amor para além do amor, um amor sem posse nem sobranceria de identidades, um amor compreendido por denominadores comuns e consciência partilhada de algo maior, que nos trancende e une para além da consciência da nossa finitude, limitação e fronteira. E ‘conciliar sem romper’ implica fazer brotar esse amor em nós, para que em cada um possa ‘vir ao mundo o menino’. Aliás, cds, não me leve a mal comentar que ‘paganimo’ é uma palavra complicada desde que passou a ser utilizada com alguma leviandade, porque dentro do que se abrange hoje com esse termo havia também um profundo sentido de sacro, ainda que segundo um sistema de crenças, de uma cosmogonia, diferente. E, Carlinhos, apesar de considerar que entendo o texto do José Augusto Mourão, no sentido em que creio perceber o sentimento, raciocínio e análise e a sua fome de luz e vivência espiritual, se não te importares voltarei aqui com mais tempo para comentá-lo. Calorosas saudações blogosáuricas a todos e um feliz Natal.

  3. Cara T-Reg :) é isto, o que refiro:
    “Cristo transtorna o equilíbrio do universo pagão, do vórtice do seu eterno círculo em que todas as diferenças giram submergidas no mesmo abismo”

    Não diminuí o “paganismo” no seu conceito do sagrado (que existe), mas creio que aqui é referida aquela recorrente separação bergsoniana entre a religião fechada (pagã, neste caso) e religião aberta.
    Tendo em conta que existe um paganismo aberto (Grécia clássica) e um cristianismo fechado, o que levou ao esmagamento das diferenças e às inquisições.
    Mas existe, creio, uma diferença entre o “totemismo” e o “amor cristão” por exemplo; no fundo, aquilo que Bergson trata e explicita em “Les deux sources de la religion et de la morale”.

  4. Olá cbs :) (desculpe ter-lhe trocado o nome). Até penso que estamos de acordo, mas comentei porque há frequentemente a tendência de pensar que ‘o sagrado’ tem dono…
    Mas pegando nos seus comentários, conversemos um bocadito por aqui. Por um lado, vemos no homem desde sempre a necessidade de venerar o que o possui, o que teme, o que controla e transcende o seu entendimento, seja a Natureza seja o seu sentido do Divino, seja a forma como integra estes dois como um Poder maior, trazendo-o à sua dimensão, antropomorfizando-o de algum modo, em imagem ou atributo, emulando o que desse poder depreende entender, nem que seja para alcançar ‘entender que não entende’ - porventura poderemos falar de totemismo, de moral fechada, de religião enquanto sistema de crenças/valores subordinados a modos civilizacionais (culturais/sociais). Por outro, vemos nele a necessidade de amar, reintegrar-se, religar-se com algo a que sabe pertencer, algo que inclui as vertentes do cognoscível e do não cognoscível, onde a imagem e o atributo lhe servem de porta de entrada, de limiar, para outro patamar, morada ou estação - e aqui porventura poderemos falar, em certa medida, de moral aberta, de ética, de mística. Neste sentido, a doutrina cristã (como outras doutrinas - e não o que os sistemas construíram e destruíram com elas) altera, transtorna, como diz, o ‘status quo’ (o ‘equilíbrio’), traz a dimensão do amor, ‘revogando’ a do temor. Porém, hoje em dia, ainda que beneficiemos do legado de reflexão que tantos seres maiores nos deixaram, creio que continuamos a cuidar muito bem das escamas que trazemos nos olhos, a preferir confortos de consciência totémicos (porque não implicam qualquer rotura, qualquer parto interior), apesar dos nossos discursos. Acho que temos vindo a dissociar a intelectualidade da espiritualidade, a favor da religiosidade – isto é, temos vindo a enfeitar pesadamente a porta, em vez de a limparmos de obstáculos para podermos atravessá-la. Não sei se consigo explicar-me, mas quero acreditar que me entendem :). Saudações blogosáuricas e um óptimo dia.

  5. Meus amigos CBS e T- Regina

    Ódio é uma palavra cujo signficado temos relutância a atribuir a um sentimento de Jesus, mas sobre traduções do aramaico para o latim e do latim para o português não ouso meter-me.
    Contudo, não esqueço que Jesus não se fez homem para ser Deus; fez-se homem para, como homem, exortar-nos a percorrer um caminho em busca da Luz, de Deus!
    Jesus pecou, como homem, Jesus teve de procurar, também Ele, o caminho e ao Pai perdão pediu, como homem e sem intermediários.
    Infelizmente o maravilhoso, o fantástico (os milagres) vende muito mais Jesus e o Livro do que a dureza do caminho que teve de percorrer até à Luz e para nela permanecer.

    1 Jo 2, 3-11
    «Quem ama o seu irmão permanece na Luz»
    «(…) Quem diz que está na Luz e odeia o seu irmão ainda se encontra nas trevas.
    (…) encontra-se nas trevas, caminha nas trevas e não sabe para onde vai, porque as tevas lhe cegaram os olhos.»

    Jesus, como homem deve ter experimentado também as trevas uma vez que a sua mensagem maior é a sua vida, o caminho de Amor pelos outros que nos ensinou e exortou a seguir, enquanto homem.

    Muito obrigado ambos

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