pressupõe um despojamento de poder(es) que só se poderá alcançar através de uma longa viagem interior.
Não espero que alguém me assegure a liberdade. Desejo, creio e caminho para alcançá-la, para poder ser eu e mostrar que é possível a quem pretender ser, seja na ditadura ou nesta democracia onde o plebiscito, por mais irracional que seja, de tudo legitima.

«Em nome do Estado, do bem comum, das crenças absolutas dos outros – sempre com a bênção dos que sabem, por nós, o que é melhor para nós. Sim, estamos em guerra pela nossa liberdade.»
Francisco José Viegas, no JN, “A Nostalgia da Liberdade


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9 Respostas to “A liberdade”

Comentários (8) Pingbacks (1)
  1. LB diz:

    Mas a liberdade também se constrói/conquista-se. Talvez haja muito a noção de que liberdade é a nossa, é fazer o que se quer sem ter em conta a dos outros.

  2. T-Regina diz:

    carlos, não está nem escrito o que gostei da frase com que inicias o teu postal de hoje! Foi Natal e tu levaste-o bem a sério! Parabéns, homem, que sei que me entendes!!! Caloroso abraço T-Regínico :)

  3. Rui diz:

    Bom ano Carlos,

    Concordo plenamente. A liberdade alcança-se dentro.

    Fico à espera de assuntos em que não estejamos tão de acordo para poder gerar discussão produtiva.

    um abraço

    rui rebelo

  4. joão diz:

    Da Liberdade

    A: Eis uma bateria de canhões que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a não ouvir?
    B: É claro que não posso evitar ouvi-la.
    A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
    B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
    A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
    B: Isso é evidente.
    A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
    B: Nada mais verdadeiro.
    A: E se fôsseis paralítico? Não teríeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; não teríeis o poder de estar onde agora estais: teríeis então necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhão e necessariamente estaríeis morto?
    B: Nada mais claro.
    A: Em que consiste, pois, a vossa liberdade, se não está no poder exercido pelo vosso indivíduo de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade?
    B: Embaraçais-me; então a liberdade é apenas o poder de fazer o que bem entendo?
    A: Reflecti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa.
    B: Neste caso o meu cão de caça é tão livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando vê uma lebre e o poder de correr se não estiver doente das pernas. Eu nada tenho, pois, mais do que meu cão: reduzis-me ao estado das bestas.
    A: Eis uma série de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instruíram. Eis que estais despeitado por não serdes livre como o vosso cão. Ora, não vos pareceis com ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, não são em vós como nele? Pretenderíeis cheirar com outro qualquer órgão além do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem?
    B: Porém eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu cão não pensa em coisa alguma. Ele apenas tem idéias simples, enquanto eu tenho mil idéias metafísicas.
    A: Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto é, tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; porém a vossa liberdade é perfeitamente igual à dele.

    B: Como? Eu não tenho a liberdade de querer o que desejo?
    A: Que entendeis com isso?
    B: O que toda gente entende. Não se diz diariamente: “As vontades são livres”?
    A: Um provérbio não é uma razão; explicai-vos melhor.
    B: Penso que sou livre de querer como melhor me agradar.
    A: Com vossa licença, isso não tem o mínimo sentido; não percebeis que é ridículo dizer: “Eu quero querer”? Necessariamente, vós desejais em consequência das idéias que se vos apresentam. Quereis
    casar, sim ou não?
    B: Mas e se eu vos disser que não quero nem uma nem outra coisa?
    A: Responderíeis como aquele que disse: “Uns pensam que o cardeal Mazarino está morto; outros, que está vivo; eu não creio nem numa coisa nem noutra”.
    B: Pois bem, quero casar-me.
    A: Isto é responder! Por que quereis casar?
    B: Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua família.
    A: Eis uma razão. Vedes, pois, que não podeis querer sem razão. Declaro-vos que tendes a liberdade de vos casar: isto é, que tendes o poder de assinar o contrato.
    B: Como! Eu não posso querer sem motivo? Que sucede então a este outro provérbio: Sit pro ratione voluntas: a minha vontade é a minha razão, eu quero porque quero?
    A: Isso é absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vós um efeito sem causa.
    B: Que? Quando jogo par ou ímpar tenho então um motivo para escolher par em vez de ímpar?
    A: Sim, sem nenhuma dúvida.
    B: E qual é essa razão, por obséquio?
    A: É que a ideia de par se apresentou ao vosso espírito mais do que a ideia oposta. Seria muito cómico que nalguns casos desejásseis por existir uma razão para o vosso desejo e que noutros desejásseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razão dominante, evidentemente; não a sentis quando jogais par ou ímpar, e contudo é mister que exista uma.
    B: Mas, uma vez ainda: sou ou não sou livre?
    A: A vossa vontade não é livre mas as vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer.
    B: Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença…
    A: São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por pessoas que o não possuem.

    Voltaire, in ‘Dicionário Filosófico’

  5. cristina diz:

    carlos, um grande 2007 para ti e para os teus.

    um beijo e um abraço grande.

  6. cristina diz:

    ahhhhh…………………………………. volta!!!!!!!!!!

  7. T-Regina diz:

    Carlos, um 2007 melhor, incomparavelmente melhor do que 2006. Felicidades para ti e para o teu clã e para o clã dos convivas daqui:) Bom Ano! Saudações blogosáuricas.

  8. Há um post atrás falávamos sobre a era de totemizações em que vivemos e a liberdade é uma delas. A liberdade é um caminho, individual e colectivo, um caminho para a Luz, sendo que este mundo de informação desmesurada e de redes não difere em muito daquele outro a que se convencionou chamar de trevas!
    Não é a informação, o conhecimento, a cultura que faz de nós melhores pessoas, mas sim o caminho que interiormente cada um pode percorrer em direcção à Luz, onde a liberdade encontrará, certamente, o seu lugar harmoniosamente enquadrada entre as outras virtudes.

    Beijinhos e abraços a todos, com as desculpas de vos ter deixado aqui com o anfitrião fora.

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