Cultura e Elites
A Cristina Vieira no Contra Capa pegou no assunto que atrás abordei da cultura e sua gestão aludindo que, por considerar que a cultura é elitista se deveria enveredar pela progressividade de níveis de complexidade na programação e, coincidentemente com uma educação para a arte também progressiva.
Eu compreendo o que a Cristina pretende dizer e aceito que se se optar, exclusivamente, por programações de fruição mais complexa o carácter elitista adensar-se-á. Apesar de o assunto ser demasiadamente vasto e de difícil solução transcrevo para aqui o comentário que deixei no seu blogue embora só seja compreensível se antes lerem o seu texto.
1 - não há cultura elitista - cultura é cultura, é tudo o que nos deixaram;
2 - por deficiente educação o legado cultural cuja fruição requer bagagem prévia foi sendo “apropriado” por cada vez menos pessoas que formaram um grupo restricto e, por outro lado, esse mesmo grupo foi-se fechando e reivindicando a “sabedoria” de fruir só para eles (aqueles a que tu bem inseres na “elite” que referes;
3 - a única forma que encontro para devolver da sua fruição a todos é ela ser objecto de estudo na escola, desde tenra idade, onde as artes não sejam vistas como um apêndice, mas como imprescindíveis para a formação da identidade, tal como a língua e a matemática;
4 - como em qualquer outra área para lá das artes, devemos dar às crianças os clássicos originais, uma vez que elas não são burras e têm uma capacidade de assimilação muito superior a um adulta (como sabes melhor do que eu, a capacidade de assimilação ou de aprendizagem, se preferires, é das poucas coisas que vamos perdendo desde o dia em que nascemos);
5 - qualquer clássico original será sempre melhor do que um sucedâneo do mesmo, uma vez que tudo está datado e a criança deve enquadrar cada obra no seu tempo, para perceber a nossa evolução bem como para compreender, mais tarde, manifestações mais vanguardistas; começar por estas é que seria (e tem sido) um erro de palmatória;
6 - entretanto, para os adultos que não beneficiaram de uma educação deste tipo e que têm direito à fruição artística, pode-se perfeitamente (penso eu) encaminhá-los para manifestações menos complexas, embora sem ceder ao facilitismo e à falta de qualidade;
7 - tudo tem a ver com educação e com gestão cultural e, neste último particular aspecto, com uma gestão criteriosa do investimento e da receita em especial no que concerne aos equipamentos culturais - defendo que, sem nunca ceder na qualidade, deve-se incluir na programação manifestações artísticas mais comerciais de modo a que a receita de bilheteira consiga financiar outros projectos essenciais, mas fora do circuito comercial.
Esta última questão levar-nos-ia à mentalidade vigente (que escrevi noutro sítio) do divórcio entre os actores culturais e os “contabilistas” que saem das nossas escolas de economia. Enquanto não resolvermos esta tendência secular, enquanto os “contabilistas” não forem gestores para olhares para a cultura como um bem a investir e os actores culturais não admitirem que têm um produto para comercializar e rentabilizar, será muito difícil chegarmos a bom porto.
tags: Apoio às Artes, Cultura, Cultural Management, Culture, Educação em Cultura, Gestão Cultural, Opinion, Reflexões, Rivoli
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perfeito Carlos. sensato como sempre (esqueci-me deste…lol)
e agora, juro que não falo mais nisso….:p
Sensato, Cristina, vais-me colando cada coisa que qualquer dia vêem-me como um velhinho muito, mas muito, ajuizadinho!
Caro Carlos,
até que enfim que discordo da sua opinião em relação ao “produto para comercializar”. O objecto artístico apesar de poder ser comercializável não o deve ser por imposição ou regra sob pena de baixarmos a qualidade a um nível inaceitável. (que na minha opinião já está a acontecer).
Não se pode resumir tudo a produto comerciável rendido às leis do mercado. Acredito que o homem não é apenas consumivel ou consumidor e a sua produtividade não se mede apenas em euros. O efeito que uma obra de arte tem no individuo e na sociedade não pode ser quantificável.
Logo tem de haver investimento a “fundo perdido”. Com critérios mais bem definidos concordo.
Mas é um pouco como na ciência pedir aos investigadores que vão vender produtos comerciais para poderem fazer investigações importantes para a humanidade mas que não sejam rentáveis.
O investimento na arte, na ciência e na educação não é rentável a curto prazo.
um abraço e bom ano.
Rui
Apesar de manifestar o seu desacordo eu não encontro fundamento no que escreve para o sustentar.
Repare que em sítio algum eu escrevi que o produto artístico tem obrigatoriamente ser colocado no mercado. Bem pelo contrário, defendo que os produtos comercializáveis devem contribuir para financiar os que o ainda não são. É uma diferença substancial.
No fundo, tudo se resume a uma gestão dos recursos culturais: rentabilizar o que o mercado procura (coisa que não tem sido feita) para financiar o que ainda não tem procura suficiente e isto independentemente da qualidade.
Vamos a um exemplo: não posso concordar que as Câmaras promovam espectáculos gratuitos ou a preço muito inferior ao custo de artistas consagrados (do Rui Veloso, por exemplo, que tem qualidade inquestionável, julgo eu), em vez de através de uma boa receita de bilheteira poderão financiar outras performances que não atraem tanto público.
É evidente, que mesmo que alguém tivesse a coragem de levar esta ideia por diante, ela seria ainda insuficiente para financiar todos os eventos, continuando a caber ao Estado uma responsabilidade substancial no financiamento artístico. No entanto, seria bem menor a pressão sobre os dinheiros públicos permitindo, quiçá, que se pudesse continuar a manter uma aceitável oferta artística.
O meu receio, Rui, é exactamente esse - o encerramento dos equipamentos culturais pois durante muito pouco tempo mais o Estado, mesmo que queira, terá verbas para continuar a financiar como até aqui.
Este problema que antecipo não é uma miragem - já está a acontecer por essa Europa fora - sendo que seria melhor nós, os que nos preocupamos com estes assuntos atalharmos caminho do que, quando acontecer, virmos para a rua em gloriosas manifestações que a nada já conduzirão.
Abraço
Ok Carlos,
Acho que o mal entendido é o seguinte:
O Carlos fala em “produtos comercializáveis devem contribuir para financiar os que o ainda não são” do ponto de vista do programador ou gestor cultural e não do ponto de vista do artista, espero.
Aí concordo consigo. Mas se me disser que o artísta deve fazer projectos comercias para ter direito de fazer os que representam a sua manifestação artística e que não são rentáveis, aí já discordo.
Há manifestações artísticas de grande valor que nunca vão ser rentáveis. Por isso fazia o paralelismo com a investigação cientifica.
Acha que a familia medici rentabilizou aquilo que pagou ao Leonardo da Vinci? Mas para a humanidade foi bastante rentável. O macenato em vez de ir para os clubes de futebol deveria ir exclusivamente para a ciência, cultura e educação. Os valores do mecenato para o futebol é muitas vezes o orçamento de estado para a cultura e os empresários que o fazem têm enormes benefícios fiscais. Se esse dinheiro fosse para a cultura…
Existem ainda outras soluções. Vi em Espanha, na Alemanha, em França e em Itália, espaços pluridisciplinares que tinham áreas de recreio e entretenimento (bares, lojas, artesanato, formação, etc.) que financiavam a criação artística de qualidade e sem rentabilidade, podendo assim fazer uma “economia cultural” que os isentava fiscalmente.
É verdade que não existe gestão cultural competente em portugal e que está na hora de se falar sobre isso. Mas olhar para a gestão cultural como se olha para outra qualquer é um erro. Pois aqui trata-se de minimizar os custos e não maximizar as receitas, pois esse caminho só tem um fim - extinguir toda a arte não rentável.
1 - Tal nunca disse, de facto, Rui! O artista necessita de não abdicar de si para criar. Contudo, o próprio acto de criar tem regras, seja um texto para representar, seja uma sequência harmónica para improvisar, seja o encenador para aceitar. Daí quem sem retirar ao artista a sua faculdade de criar, julgo ser possível, aceitável e, muitas vezes, recomendável que ele trabalhe por encomenda.
2 - As tais manifestações que dificilmente serão rentáveis e 2 aquelas que nuca o serão terão de continuar a ser suportadas pelos contribuintes, mas também pelo rendimento que as rentáveis proporcionam - estou de acordo consigo.
3 - Os espaços multidisciplinares que enuncia, geridos por uma “economia cultural”, não é mais do que a confirmação do que venho defendendo, mas não só à escala local - a gestão cultural do Estado que defendo é, precisamente, aplicar esse conceito à escala nacional e até transnacional.
4 - A comparação com a investigação ciêntífica é que não me parece muito feliz, uma vez que os maiores centros de investigação mundiais são hoje sustentados pelas grandes multinacionais que adquirem as patentes que lhes interessam, financiando dessa forma a investigação em áreas necessárias mas não lucrativas.
Como vê, Rui, não vejo, desde o início da nossa troca de impressões, divergências palpáveis a não ser o facto de o Rui ter entendido que eu defendia o aniquilamento dos artistas e a regressão da qualidade do seu trabalho, coisa que não me passa pela cabeça. Bem pelo contrário, para defender a qualidade eu proponho a rentabilização do que é rentável sob pena de daqui a poucos anos os Estados não poderem mais financiar tudo sozinhos.
No tocante ao que diz que a gestão cultural deve ser diferente de outros tipos de gestão é que não estou de acordo. a boa gestão é a boa gestão seja em que domínio for. Agora, consoante a área em que se desenvolve o trabalho deve cuidar a gestão de conhecer e estudar as suas especificidades.
Abraço
Caríssimo Carlos,
pelos vistos só não estamos de acordo que a gestão cultural se rege por normas destintas das outras. Digo isto porque a arte não é quantificável e dificilmente qualificável. A filosofia estuda esta matéria há tantos anos e ainda não chegou a nenhuma designação concensual do que é arte. Nem os artístas e pensadores. Ora não se pode fazer gestão de uma coisa inqualificável ou com várias qualificações. Quem define? o gestor? o artísta? o público? os Euros?
E talvez também não concorde (ou não tenha entendido o que quer dizer) que o acto de criar tenha regras. No meu caso tem disciplina mas muita liberdade. A única regra que tenho é a de não ter regra nenhuma e trabalho fundamentalmente por encomenda, sendo cada vez mais intransigente na defesa do que acredito artísticamente.
De resto Carlos, só quero deixar aqui um convite para almoçarmos quando vier a Lisboa. Gosto da comunicação ao vivo, por isso sou bicho de palco e não vivo sem ele. A palavra não é o meu dom e expresso-me por vezes de forma muito subjectiva e abstracta mas é assim que penso também. Não lhe conseguirei nunca explicar porque componho de uma forma e não de outra. Se tentar o Carlos vai dizer mais uma vez que não tenho fundamento para sustentar aquilo que digo ou defendo. Sou músico e não fundamento quase nada do que faço musicalmente. Acho mesmo que seria um assassinato.
um abraço,
rui
Carlos,
a propósito de uma frase sua
“A comparação com a investigação ciêntífica é que não me parece muito feliz, uma vez que os maiores centros de investigação mundiais são hoje sustentados pelas grandes multinacionais que adquirem as patentes que lhes interessam, financiando dessa forma a investigação em áreas necessárias mas não lucrativas.”
Como não sou especialista em ciência perguntei à minha irmã que faz investigação em Cambridge e que já fez em grandes laboratórios europeus e tenho de informá-lo que o Carlos está equivocado. A única investigação “em áreas necessárias” é feita nas universidades e em fundações pró-ciência que adquirem alguns donativos com beneficios fiscais (e não patrocinios) das multinacionais. O que nos leva de volta ao tema do Mecenato. A grande percentagem de investigação científica que se faz no mundo é feita pela industria faracêutica que como deve saber se rege apenas por euros e apenas forja fazer outro tipo de investigação para ter beneficios fiscais.
Parece que agora sou eu que lhe digo que não encontrei fundamento que sustente essa afirmação.
Estimado Rui
Quer só sobre Cambridge para não nos alongarmos?
1 - Gold sponsers - http://www.cue.org.uk/sponsors/term/57
2 - Silver sponsers - http://www.cue.org.uk/sponsors/term/58
3 - Bronze sponsers - http://www.cue.org.uk/sponsors/term/58
4 - Finaciadores - http://www.cue.org.uk/sponsors/term/60
Muito boa noite
só está a corroborar o que disse. Não percebo onde quer chegar.
um abraço,
rui
A lado algum, Rui. Só que um dos temas de discussão mais actuais sobre o futuro da investigação é precisamente como conviver com o registo de patentes e o peso (cerca de 82%) que as multinacionais detêm na exploração dos inventos registados.
Mas isto é um assunto que cai fora da alçada do que nos move - a cultura e a sua gestão.
Abraço
o que é assustador. E ainda andam a patentear as plantas da amazónia como se as tivessem descoberto ou inventado.
Mas não creio que caia tão fora da alçada do nosso assunto. Uma vez que, como o Carlos defende, “boa gestão é a boa gestão”, é inegável que à volta da ciência se tem gerado muito dinheiro. Mas será que se tem gerado “qualidade ciêntififica” proporcional ao volume de dinheiro?
Quantos medicamentos não são postos no mercado por não serem rentáveis, ou aqueles que são colocados o mais gradualmente possivél (sida) para se tentar estudar a melhor forma de lucrar com eles.
São os gestores que mandam e não os cientistas.
Isso preocupa-me. Bem como na Cultura.
Não defendo que sejam os cientistas ou artistas a fazer gestão, mas tem de haver um equilibrio ou apenas impera a lei do cifrão.
abraço
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