Abr 262007
 

A propósito do Concerto de 6º feira no Palácio de Mafra do Mediae Vox Ensemble transcrevo um texto sobre o Amor Místico, gentilmente enviado pela autora, Filipa Taipina.

Ave Sponsa et Mater

O Amor Místico na obra de Hildegard von Bingen

O Amor foi sem dúvida um dos temas tratado de forma intensa no final da Idade Média. Abordado tanto no âmbito profano como religioso, adquiriu neste último a forma de Amor Místico.

Neste concerto o Mediae Vox Ensemble irá abordar o tema do Amor Místico maioritariamente através da obra musical e poética de Hildegard von Bingen. Monja e abadessa do convento beneditino de Disibondenberg e posteriormente fundadora e abadessa do convento de Rupertsburgo, a obra de Hildegard é um dos expoentes máximos deste tema.

Para Hildegard as virgens monjas são como esposas de Cristo. Invocamos-te agora, Esposo e consolador, que nos redimiste na cruz. Por teu sangue comprometidas, somos para Ti esposas, repudiando homem para te preferir a Ti, Filho de Deus.

Hildegard defende que a beleza e a graça feminina em si não são uma tentação diabólica. Santificadas pelos laços do matrimónio, a graça e a beleza são instrumentos de harmonia e fecundidade. Assim, tal como uma esposa pode e deve ornamentar-se para o seu esposo, também as esposas de Cristo o deverão fazer. Deste modo, encorajava as suas monjas a adornarem-se em determinados dias como princesas, oferecendo a Cristo a sua beleza em vez da sua penitência. Ó tão belos rostos. Em vós o Rei se deleitou quando vos conferiu todos os ornamentos celestes e vos transformou em jardim de delícias, com todos os perfumes inebriantes.

Também a Virgem Maria aos olhos de Hildegard não é tanto a mãe chorosa aos pés da cruz mas, uma mulher vestida de luz do sol, que triunfa sobre o velho dragão com um ceptro e diadema de dignidade real. Uma mulher bela e brilhante aos olhos de Deus. Quando o Pai do céu se deteve no brilho da Virgem, quis que nela encarnasse seu Filho.

Cristo aos olhos de Hildegard tem também algo de especial, não é um sofredor desarmado mas, que gera pathos poderoso, amante divino e uma espécie de herói das elegias anglo-saxónicas que ascende orgulhosamente à Cruz como se fosse um trono. Tu, fortíssimo leão, rompeste o céu para descer ao útero duma virgem e destruíste a morte para elevar à vida a cidade de ouro.

E difícil não exultar com a coragem desafiante de Hildegard aos costumes sombrios e à misoginia que a rodeavam. O seu conceito de comunidade feminina e a sua convicção de que as mulheres podem exercer poder de forma positiva, tornaram certamente a sua comunidade num dos locais mais fascinantes onde poderia ter vivido uma mulher dedicada à religião.

Filipa Taipina

  5 Responses to “O Amor Místico na obra de Hildegard von Bingen”

Comments (5)
  1. gostaria de ler os livros dela, como posso ter acesso?
    obrigado
    bonito trab alho
    Carlos

  2. Muito obrigado pelo comentário, estimado Luís Henriques e, já, agora parabéns pelo seu excelente blogue que ainda não conhecia.

  3. Esta Hildegard… e era Monja. Acho fantástica esta sua concepção do amor, numa altura em que essa definição por parte do clero seria bastante reprimida…

    Greetings,
    Luís

  4. Aqui fica a tua sugestão, Susana.
    Obrigado.

  5. Já no outro dia me lembrei que tinha um livro sobre ela, Hildegarda, e que tinha gostado muito de o ler. Se não levares a mal deixo aqui: ” Música Escarlate” de Joan Ohanneson, publicado pela editora Gótica em 2002 e traduzido pela Maria Eduarda Correia. Como gostei bastante recomendo a quem não leu.