Mai 212007
 

de Alice Valente

Estou a ler (só agora) com todo o cuidado o Relatório Final (Fev.2007) do Estudo de Avaliação do Ensino Artístico e estou muito compreensivelmente estupefacta! E porquê assim tão admirada? Basta começar a saber quem é quem pela formação profissional-académica dos responsáveis do Relatório.
Isso mesmo: há que dar trabalho aos teóricos do nosso país e aí estão eles contentinhos por bem teorizarem sobre tudo e mais alguma coisa. Trabalham para os currículos, é uma fartura de curriculares vidas… Belo país este!… O que é um psicólogo entende de educação artística, tem por acaso sensibilidade ou algum conhecimento nalguma das áreas artísticas? É que a psicologia não lida bem com a arte e o artístico, é um «outro» que lhe é extremamente estranho e por isso se distancia em suas formulações de referências de seus especialistas autorais…
Afinal que esperamos destes avaliadores ? NADA, claro está!!!… 3 da área da Psicologia e 3 Anas que serão o quê, professoras ou também psicólogas? E há o principal o coordenador que diz que os responsáveis são os outros: a sociedade! É fácil psicanalizar o que nos rodeia, é só apontar o dedo não o apontando directamente (assim escondidinho), ou seja, é-se bem educadinho, fazendo que faz, não fazendo, por ora assim ser, o que acontecerá é em que hábitos ensinados e aprendidos, mais um recém-chegado às lides com obrigatoriedades para estragar o pouco que ainda está… Pois!
Palavras psicológicas do coordenador: Já não temos um país para este tipo de ensino artístico… Aliás, se me perguntar quem é o responsável pelo preocupante cenário, respondo-lhe: a sociedade em geral.
É esta a forma conveniente e generalizada, sempre tão típica dos discursos dos psicólogos e do psicologicamente correcto… Mas que malandragem que anda para aí assim tão freudo-conscientemente aceite!
Não nos preocupemos mais, basta assistir à derrocada total! Serão eles próprios os 3 x 3, ou seja, os não conhecidos e os desconhecidos, seguindo-se-lhes depois e também os ministeriais dos pacotes encomendais que virão, muito brevemente, pedir socorro ao povo (dos pais e alunos mal sucedidos) não porque os julgais mas que ainda assim os culpais!
Sim a Escola, o Ensino, a Família… estão todos Mal, todos doentes e com tantos especialistas que curam! Não será por todos se terem entregue, necessária e lascivamente, no divã cómodo dos estudos e mais estudos freudo-psicológicos e psico-lacanianos de aconselháveis relatórios e mais relatórios desaconselháveis a nada admitirem ao Fazer pelo Pensar e Sentir?

Alice Valente

Passei este comentário para post por ser um dos poucos textos com o qual me identifico na totalidade.
Antes de qualquer dissertação sobre o Ensino Artístico é fundamental denunciar a paupérrima qualidade, a ausência de sensibilidade e falta de seriedade deste relatório de burocratas que não faz a mínima ideia do que diz, nem procurou apurar o que se passa, de facto, no Ensino Artístico em Portugal!

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  10 Responses to “Ensino Artístico – reacções”

Comments (3) Pingbacks (7)
  1. Esta ausência de especialistas tem sido uma constante em praticamente todas as propostas de reforma do ensino artístico. Parece existir uma desconfiança básica por parte do funcionalismo do ME em relação aos que poderiam dar contributos decisivos. Também é verdade que em alturas cruciais do passado os especialistas se perderam em questões corporativas e de carreira, perdendo assim oportunidades preciosas, mas o seu lugar é incontornável. O ensino artístico está a ser tratado ao nível da formação de vendedores de telemóveis. Nas artes, a relação mestre/discípulo (no que ela presume de exemplo, lealdade, intimidade, respeito…) é insubstituível e tem de ser a base de qualquer regulamentação.

  2. Estimado César Viana
    Não poderia estar mais de acordo! Se há responsabilidades a atribuir na desorganização do ensino artístico elas vão directas para os sucessivos ministérios da educação pós 25 de Abril e para os próprios profissionais do sector.
    No entanto, convém não esquecer, que há hoje profissionais muito mais bem preparados que outrora (sinal de que se fez alguma coisa) e, por outro lado, o que há a estudar e implementar terá de ser equacionado com quem tem experiência e resultados no ensino artístico.
    Abraço e obrigado pelo comentário.

  3. Muito grato pela referência no Retorta, estimado Mário Pires.