O presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, António Gomes Pinho, defendeu hoje a extinção do Ministério da Cultura e a sua substituição por uma secretaria de Estado, autonomizando as instituições actualmente dependentes da tutela.
(…)
“Teria outro significado: iria promover a libertação de um conjunto vastíssimo de instituições da tutela do Estado”, acrescentou.
(…)
Com “as poupanças resultantes da extinção do Ministério da Cultura”, o administrador de Serralves defende a constituição de um fundo — gerido profissionalmente — e que contratualizaria as funções culturais definidas como prioritárias, a longo prazo, com as várias instituições. (via Público)

De repente, como que por artes mágicas, apareceu primeiro o Dr. Rui Rio e agora o Dr. António Gomes de Pinho a defender que o mal da cultura é a existência de Ministério dedicado e que a sua passagem a Secretaria de Estado tudo resolveria!
É muito mau que pessoas com tanta responsabilidade saiam a terreiro a defender que uma mera cosmética administrativa – a passagem de Ministério a Secretaria de Estado – resolve os problemas de que padece a cultura em Portugal! Dá a ideia de que ouviram umas coisas aqui e outras ali e colam-nas sem nexo!
Por outro lado, pasme-se, não advoga e muito menos reivindica que o Estado deva, antes de mais, estabelecer uma política e modelos de gestão cultural assumidos, transversais e transparentes.
Inusitado é, para mais, não apelar ao investimento privado e sustentar que o importante é que o Estado constitua um fundo para financiar várias instituições, prioritárias no seu entender, e no entender de cada governo que em sorte nos calhe, ou seja, continuar com a subsídio-dependência, mas só para alguns, os eleitos de cada governo! Nada há de mais perigoso neste momento do que deixar ao critério dos aparelhos partidários a distribuição de fundos sejam eles para a cultura, educação ou outra qualquer área!
Estimado Dr. A. Gomes de Pinho, o que o senhor defendeu só viria favorecer o que neste momento é o cancro do sistema – o financiamento do Estado ser feito a bel-prazer dos governantes, sem uma missão, objectivos nem modelos de gestão e de controlo definidos e transparentes!
Volto ao que venho defendendo na tese Educação em Cultura, o estabelecimento de uma política cultural do Estado orientada para as escolas, que terá de ser, forçosamente, transversal a várias tutelas dispersas por vários Ministérios, i.e., uma Gestão Global e Integrada da Cultura, onde as tutelas da cultura, da educação e do audiovisual tenham uma única missão, objectivos complementares e articulados entre si, obrigando a uma reformulação profunda na constituição dos governos para que tal seja possível.
Passo a citar (link):

Sem esquecer a essência da escola – ensinar – o que está hoje em causa, em especial nos primeiros anos de escolaridade, diria até aos 16 anos, é dotar as crianças e adolescentes de uma vivência multidisciplinar integrada o mais abrangente possível, onde o habitat digital seja natural, permitindo-lhes adquirir uma consciência crítica que propicie a construção de identidades, com fundamentos éticos e morais, capazes de participar e interagir criativamente na construção deste novo mundo – a passividade na sociedade digital conduz, inevitavelmente, a fracturas na coesão social.
Neste contexto, as soluções não poderão continuar a ser um exclusivo do Ministério da Educação! A questão é educativa, é certo, mas antes do mais, é cultural, de gestão cultural, mais precisamente (política cultural se se preferir), onde a interdisciplinaridade será obrigatória, envolvendo, profissionais de educação, sim, mas sociólogos, antropólogos, psicólogos, artistas, especialistas de audiovisual e media digital e, necessariamente, de gestores capazes de traçar objectivos precisos e objectivamente quantificáveis e avaliáveis
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10 Respostas to “António Gomes de Pinho defende extinção do Ministério da Cultura”

Comentários (10)
  1. rui diz:

    no actual estado do MC eu também concordo que não serve para nada. Uma secretaria de estado seria muito mais eficiente e muito menos despendiosa. acabavam-se também os institutos que nem para distribuir subsidios servem.

  2. Pois é, estimado Rui, já trocamos impressões sobre este assunto e, curiosamente, apesar de defendermos objectivos idênticos, não estivemos nem estamos de acordo quanto ao desaparecimento do Ministério da Cultura.
    Mas, Rui, já viu o perigo que representam os motivos que o Presidente da Fundação de Serralves adiantou para sustentar a sua posição?
    Abraço e obrigado pelo comentário.

  3. rui diz:

    Caro Carlos,

    apenas me referi ao desaparecimento do MC e dos institutos que tutela. Nada tem a ver com o que esse senhos defende. Claro que antes de acabar com o ministério deveria haver uma tentativa de o tornar culto e eficiente. Eu não acredito nisso pois os últimos governos têm revelado uma autêntica inoperância e mesmo desprezo pela Cultura, e tornaram o MC num antro de incompetentes com cunha.

    um abraço, é sempre um prazer trocar opiniões consigo.

  4. É, estimado Rui, mas eu tenho idade para ter memória do que aconteceu no tempo do Dr. Santana Lopes e da Dra. Teresa Patrício Gouveia enquanto a cultura era uma Secretaria de Estado e também me lembro do que o Dr. Manuel Maria Carrilho conseguiu fazer nos primeiros 2 anos do seu mandato de Ministro da Cultura – o melhor de que tenho memória desde o 25 de Abril. Pena que não tenha mantido essa excelência por mais tempo…
    Abraço

  5. Roteia diz:

    Lúcido. Concordo inteiramente com o que Carlos diz no post e na caixa de comentários. Ia aliás lembrar os tempos de desgoverno de Santana Lopes, enquanto secretário de estado, em contraponto com os tempos de Carrilho, enquanto ministro. É estranho que as questões de ordem cultural sejam frequentemente factores de divisão e polémica, e que as políticas de cultura não tenham entre nós o mesmo tipo de tratamento que as políticas de outras áreas da governação. Há até um velho preconceito, que tende a desligar vida política e e vida cultural.

  6. Roteia
    Muito obrigado pelo comentário.

  7. espera aí…vou voltar a ouvir os concertos de violino de chopin;
    e já volto

  8. Concertos para violino, Ricardo…?? Terá sido o Pollini?
    Abraço e não levas a mal porque é brincadeira mesmo.
    Abraço

  9. rui diz:

    Caro Carlos, claro que se me fala do Santana Lopes e da Teresa Patricio Gouveia, os meus argumentos ficam logo por terra. Também me lembro bem deles. Comecei no teatro nessa altura. Também acompanhei de perto, já com o carrilho, a criação do antigo IPAE e as coisas funcionaram quase bem durante uns anos, parecia que finalmente iria haver uma politica cultural. No entanto, para as actuais funcionalidades do MC, não é necessária uma máquina tão grande e despendiosa.

    um abraço,

    rui rebelo

  10. Eu compreendo, Rui, mas é muito, mas muito perigoso defender isso neste momento!
    Abraço e obrigado.

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