Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Sob o título Sinais dos Contratempos o Dragão, sempre com uma escrita irrepreensível, desfia sobre o despudor e arrogância dos políticos no rescaldo destas eleições de Lisboa. Deixo excerto:

Seja como for, quem se abstém apenas descomparece à urna, não deixa de existir. O não-votante, por muito que custe ao regime e os comensais deste teimem em tratá-lo como tal, não se transforma automaticamente num fantasma, num nada ostracizado para um limpo periódico. Fantasmagórica, efabulástica e espectral tem vindo a tornar-se, isso sim, ao longo das cleptodiceias, a paródia eleiçoeira. Com uma única e fatal constante: os espectros vão aparecendo cada vez mais gordos e as afluências cada vez mais magras. Já não falta tudo, se é que ainda falta alguma coisa, para que aqueles atinjam o ponto de balão e estas o nível mínimo de clientela.


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  1. C.C. Said,

    Discordo em absoluto. Os «não votantes» são os que se demitem da responsabilidade da escolha; sem direitos aos benefícios mas também sem direito às contestações; se tiverem brio, claro está.
    São amorfos, incolores, insípidos e de cheiro duvidoso. Não pensam, não se irritam, não gritam, não vêem o que os rodeia; sofrem de cegueira.Tanto lhes vale.
    Os «não votantes» costumam embandeirar-se numa de «eu não me quero meter em política»; como se a política fosse uma coisa exterior a cada um de nós. É tenebroso pensar que 30 anos ainda não foram suficientes para abrir cabeças por muito duras e retrógradas que elas sejam. Que isto é um exemplo do baixo grau de instrução e educação dos cidadãos, isso é consensual. Que é fruto das más políticas nessa área, também.
    Então não podemos aplaudir a indiferença de uma maioria de lisboetas que preferiu espapassar-se ao sol a untar o umbigo com manteiga de cacau no Algarve ou no ao raio que os parta.
    Até mais ver

  2. Carlos Araújo Alves Said,

    Estimada C.C.
    Está no seu pleno direito, mas não é assim que vejo as coisas.
    Eu abster-me-ei sempre em eleições legislativas enquanto:
    1 - não acabarem com o monopólio dos partidos aos processos de candidaturas;
    2 - não obrigarem os candidatos a concorrerem apenas nas listas do distrito onde têm a sua residência fixa;
    3 - enquanto depois de eleitos os deputados não puderem representar os eleitores que os elegeram, os da região por onde concorreram, e não todo o país;
    4 - os partidos não legislarem no sentido da transparência das suas contas, i.e., enquanto não forem públicas e visíveis a todo e qualquer cidadão e em qualquer momento, com actualização diária;
    5 - as contas bancárias dos partidos políticos não puderem ser consultadas em qualquer momento por qualquer cidadão;
    6 - os partidos não apresentarem atempadamente as suas contas a quem de direito e caso não estejam consoante a lei percam todo e qualquer mandato conferido pelo voto.

    Posto isto, acredite piamente, que não sou indiferente, que não abdicarei de fruir de qualquer dos direitos que a lei me confere ou que me absterei de me envolver, sempre que considerar adequado e oportuno, em acções e/ou movimentos de cidadãos.
    Não tenho jeito para ser amorfo nem insípido, assim como não tenho jeito, por brio, para aceitar convites para cargos, ou para aceitar comendas ou prebendas no e/ou do Estado, como já aconteceu e uma não vai há muito tempo, por acreditar e defender aquelas condições que atrás referi e a mim próprio me impus, porque acredito que sem elas não é possível haver representatividade democrática, liberdade e, em última análise, uma real democracia representativa, que defendo, sim, como o menor dos males.

    Beijinho e obrigado pelo comentário.

  3. C.C. Said,

    Estive para não voltar a este assunto, mas hoje apeteceu-me. Devo dizer, que os comentários que fizer, são de ordem geral, sem os personalizar. Os argumentos por si usados não me justificam a atitude negativa da demissão de uma opinião; nem a abstenção pode ter outras interpretações, que não esta. De resto até subscrevo os pontos que referiu nomeadamente e essencialmente os nº4-5-6, mas não me parece que a atitude fechada de nada exprimir, possa de algum modo alterar esses desideratos. Porque para nada interessa «os espectros atingirem o ponto de balão e as afluências o nível mínimo de clientela» como diz o Dragão. E também me preocupa que os partidos não sejam fortes; e não simpatizo nada com os dissidentes em correrias eleitoralistas, numa espécie de despique com o partido que até ao dia anterior lhes servia de abrigo e lhes deu a notoriedade .
    E para que travemos a «paródia eleiçoeira» é minha opinião que nos façamos sentir, e usemos os nossos Direitos de cidadãos, e um deles é votar; da forma que quisermos, livres e responsáveis. Outras coisas viriam no encadeado, mas não me vou alongar.
    Obrigada pela sua reflexão.

    Abraço

  4. Carlos Araújo Alves Said,

    Afinal, estimada, C.C., tudo nos une exceptuando o método de combater a “paródia eleiçoeira” e, claro, o significado da abstenção.
    Fugindo à debate sobre este significado, porque julgo já termos aduzido argumentos bastantes para defender a nossa posição sem chegarmos a acordo, insisto no que nos une - a repugnância pelo que se passa nos aparelhos partidários que meia-dúzia de pessoas conseguem manietar tudo quanto é poder neste país. E aí, confesso, como não acredito que por eles próprios cessem com a sua clientelar forma de estar, não tenho alternativa que não seja pugnar pelos pontos que acima invoquei e as eleições uninominais, onde os eleitores votam em pessoas e não em partidos e os mandatos conferidos serão pessoais e não partidários.
    Partidos fortes? Mas fortíssimos são eles, mas sem que a sua força advenha da vontade dos cidadãos nem sequer dos seus militantes. Partidos fortes necessitam de candidatos fortes que se apresentem per si e pelo povo sejam mandatados.
    Esta é a minha leitura, pois o estado a que este país chegou só tem um responsável - o aparelho clientelar centralista de todos os partidos.

    Obrigado pelo comentário

    Beijinho.

  5. Mário Pereira Said,

    Concordo, de uma forma geral, com todos os 6 argumentos que Carlos Alves justifica a sua abstenção em eleições legislativas. Só não percebo porquê só em eleições legislativas! Por que não nas outras? O voto branco ou nulo não seria uma atitude mais esclarecedora para evitar interpretações, embora distorcidas, sobre a clarividência de quem exerce a abstenção, como o faz de resto C.C. atrás, e como o fazem conscientemente os políticos do “Centrão”?
    Eu acrescentaria,antecedendo as já apontadas, mais umas tantas razões, para não votar nestes, cabem aqui todos, partidos.

    - os candidatos a dirigentes partidários,deputados e autarcas, deveriam ser escolhidos, pelo menos, e para começar já não seria mau, por todos os cidadãos que o desejassem fazer. Primárias? Chamem-lhe o que quiserem. Quem poderá candidatar-se? É uma boa questão, discuta-se a forma.

    - A Assembleia da República, deverá ser representativa do universo eleitoral português. Sim mesmo dos abstencionistas, dos que votam em branco e nulos! Por exemplo, se os votos expressos forem 50% dos eleitores, então somente elegerão metade dos deputados! Como solucionar o problema da representatividade dos não votantes, brancos e nulos? É que estes continuam a ser cidadãos portugueses de corpo inteiro! Só que discordam, não se revendo no actual quadro partidário!

    - As actuais competências das Câmaras Municipais deveriam passar todas(?) para as Juntas de Freguesia. Só assim, aproximando eleitos de eleitores, se podem projectar, orçamentar e fazer cumprir as “obras” prometidas. As políticas de proximidade deixam muito a desejar! Aliás é mais ou menos isto que se faz, p.ex., em França! As boas práticas não são para copiar por cá! É claro que os poderes instalados não estão nada interessados nisto!

    Como se podem induzir estas mudanças, se os partidos não estão nada interessados nelas? Mudando-os por dentro? Como, se é mais difícil entrar num partido do que assaltar o Banco de Portugal? Os “boys” não estão nada interessados em saír desta real pasmaceira lodosa em que a política nacional se transformou. É bom para eles, os tachos continuam, a bem do país!!!

    Só obrigando-os, por via da pressão da opinião pública? Como, se a opinião pública foi conquistada pelos poderes establecidos? Veja-se há quantos anos, que as mesmas pessoas vão “doutrinando”, de acordo com as necessidades estratégicas do momento, nos mais variados orgãos de comunicação social! Muitas vezes dando autênticas cambalhotas ideológicas!

    Até já

  6. Carlos Araújo Alves Said,

    Estimado Mário Pereira

    Agradeço o seu comentário, mas aceite as minhas desculpas por não ter tempo para responder uma vez que estou de partida para férias. O tempo não seca…, e depois poderemos regressar sempre a ele.

    Abraço e muito obrigado.

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