Há quem nos queira convencer que afinal a crescente abstenção em toda a Europa (excluindo as últimas eleições em França) não é fruto do distanciamento dos polÃticos dos cidadãos até porque, dizem, vejam estas eleições de Lisboa onde até havia independentes e tudo…
Independentes? Primeiro não sei o que isso possa ser, nem independentes nem isentos, será alguma doença genética nova que torna as pessoas amorfas? Depois, mesmo desses independentes a que se referem (não ter filiação partidária), também não vi nenhum nestes eleições. Dissidentes, sim, mas também polÃticos de longa data, muito datados…
O que se impõe é que apareçam polÃticos que façam PolÃtica, que se acerquem dos cidadãos e que com eles resolvam os seus problemas em vez de esbanjarem os dinheiros públicos em campanhas eleitorais de propaganda enganosa de circunstância cujo único objectivo é o show mediático!
Não precisamos de independentes nem de isentos, porque também não precisamos de eunucos; precisamos sim, como de pão para o boca, de gente séria na polÃtica, gente interessada em chamar os cidadãos à participação activa e que antes dos interesses do Estado ou da União Europeia (que cada vez menos se percebe que sejam diferentes e até contraditórios dos das pessoas) coloquem os desses mesmos cidadãos, os que têm problemas para resolver e que eles querem que os elejam.
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Estou inteiramente de acordo com o seu texto no que se refere aos independentes, menos de acordo com as questões da abstenção expressas neste e sobretudo noutro texto mais abaixo.
Quanto aos independentes, repugna-me especialmente a posição de Helena Roseta, ainda deputada “independente” pelo PS, mas que segundo a nova lei não se poderá recandidatar a novo mandato no parlamento. Despudor e arrogância, é o que eu diria da atitude de Roseta, sempre referindo os “cidadãos” e a “cidadania” como se fossem atributos apenas dos seus actuais ou potenciais seguidores. O movimento que ela e Manuel Alegre têm protagonizado, ao mencionar constantemente os “vÃcios” dos partidos, parece-me perigoso, sabendo-se como se sabe o que é uma sociedade sem partidos.
Quanto à abstenção, se é verdade que ela é um direito dos eleitores, e que ela tem um significado do qual os partidos deveriam tirar ilações, também é verdade que muitos dos abstencionistas não vão à s urnas por comodismo, por desresponsabilização individualista dos assuntos que são “causa pública”, ou até, o que é pior, por falta de sentido de cidadania. De todas as pessoas que conheço que dizem não ter ido votar, excluindo, claro está, aqueles que por motivos de força maior não o poderiam ter feito, constatei que é gente desinteressada de quase tudo, excepto dos seus interesses e prazeres imediatos, e são estes abstencionistas aqueles que mais ouço refilar contra os polÃticos e a crise do paÃs, crise que atribuem exclusivamente a “eles”, aos polÃticos. Ora é este mesmo um dos problemas do paÃs, serem sempre os outros que deveriam ter feito aquilo que cada qual não exige a si próprio.
Roteia
O problema do divórcio entre a classe polÃtica e os cidadãos já vem de trás e não é exclusivo de Portugal. É um problema generalizado a quase toda a Europa (e é aqui que reside o inusitado), que se vem enraizando e sedimentando pelo facto de os cidadãos estarem a sentir que meia-dúzia de polÃticos de 3 famÃlias partidárias resolvem e decidem tudo sem deles quererem saber nem com eles se importarem! Que cidadão europeu compreende o preço do Euro? Que cidadão europeu compreende o Pacto de Estabilidade e Crescimento que apenas reduz os seus direitos adquiridos sem que o tal crescimento se senta? Que cidadão europeu compreende que não tendo contribuÃdo para os absurdos défices dos Estados tenha agora que os pagar com grande sofrimento para as suas famÃlias?
Ninguém percebe isto a não ser essa tal meia-dúzia de iluminados que necessita dos votos dos cidadãos para os mandatarem, mas logo deles se desinteressa para tratar de assuntos exclusivamente de finanças estatais e interesses fiduciários mundiais!
A abstenção acontece pelo facto de os cidadãos sentirem que o seu voto, seja ele qual for, é impotente para alterar este rumo e os polÃticos, sabendo disso, até de referendos já fogem para tudo, entre eles, aprovarem!
Assim vem sendo desde Maastricht e, pelos vistos, assim será, agora com total despudor, com a Constituição Europeia que virará Tratado só para não terem de passar pelo referendo dos cidadãos!
Solução? Não tenho, mas creio firmemente que o termo da purga da abstenção, dos votos brancos e nulos dos resultados eleitorais, com o consequente, porque óbvio, não assumir mandatos para os quais não foram eleitos, obrigará os polÃticos a acercarem-se dos cidadãos e da resolução dos seus problemas reais, por um lado e, por outro, alertará os tais abstencionistas por comodismo de que o voto, apesar de não ser um dever, a sua falta poderá tornar a Europa ingovernável, tornando a necessidade do exercÃcio de uma cidadania activa muito mais evidente.
O problema resume-se a um biunÃvoco e progressivo afastamento entre cidadãos e os detentores do poder polÃtico, sendo a inversão desta tendência absolutamente indispensável para a manutenção da democracia representativa.
Muito obrigado pelo comentário.
Ao ler o comentário do comentário, fiquei com a sensação de que a abstenção seria entendida como uma forma de protesto. Continuo a discordar. Para isso há o voto em branco. A abstenção só tem um significado: não comparência; porquê? Não se sabe. Mas quando ela tem a expressão que teve em Lisboa, naturalmente que não foi por motivos de força maior; foi por indiferença. E não se pode aceitar que as pessoas cruzem os braços e só saibam denunciar os males; e não se organizem . Mas não à moda dos de Lisboa; parecia um desfile…
O comentário foi extensivo à Europa; mas aà a análise é outra. Embora, esteja sempre subjacente algum desconhecimento do processo. Esta fica para outra ocasião.
Adeus
Esqueci-me de dizer que concordo com a designação de eunucos aos independentes. São independentes de quê?
Estimada C.C.
Distingo bem o voto em branco, do voto nulo e da abstenção: o voto em branco manifesta que não se pretende escolher nenhumas das candidaturas, mas que se está de acordo com o regime e o modelo; o voto nulo manifesta desprezo e protesto pelas candidaturas, acordo com o regime, mas subsiste a dúvida sobre o modelo; a abstenção pode de facto ter diversas leituras, mas uma delas é a de que não se está de acordo com o modelo, poderá não estar de acordo com o regime e desprezo pelas candidaturas.
É evidente que abstenção sempre houve e que nos habituamos a considerá-la como comodistas que alienam aos concidadãos o encargo de escolher por eles porque não sentem nada em risco, mas isso era quando os valores andavam pelos 10 a 20%!
Agora acima dos 40% será que alguém ousará acreditar que a abstenção não tem significado polÃtico?
Eu não ouso.
Obrigado pelo comentário.