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Pacheco Pereira e relação media – blogs

11, Setembro, 2007 Carlos Araújo Alves

A Cristina Vieira no Contracapa pega no assunto do excerto do artigo de Pacheco Pereira (que atrás abordei) e abre portas ao que sinto que poderá estar por trás não só daquela passagem, como doutros ataques desferidos contra a blogosfera – uma campanha orquestrada e desesperada dos media tradicionais devido à drástica quebra de vendas e as virtualidades abertas pela Web 2.0 (vulgo Web Social), nomeadamente à criação de redes específicas e especializadas e seu inter-relacionamento digital.
O excerto em causa tem provocado alguma polémica, nomeadamente através do escritos de Fernando Venâncio, do José (aqui e aqui), da Zazie, do Paulo Querido e do Dragão, mas foram Paulo Querido e Fernando Câncio que me incitaram a procurar ler na íntegra o artigo de Pacheco Pereira.

Afinal, deduz-se, que o artigo tem por base a leitura de The Cult of the Amateur de Andrew Keen que não li mas, socorrendo-me da Wikipédia, dou conta de que este autor tenta alertar para os perigos da Web 2.0, identificado-a como um grande movimento utópico similar à sociedade comunista, pelo facto de todos, mesmo os que não receberam educação adequada, poderem usar a tecnologia digital para se tornarem realizadores cinematográficos, músicos e escritores autodidactas. No seu entender este processo empobrece a criatividade, democratiza os media e nivela por baixo tanto amadores como profissionais. Propõe ainda como solução que os media tradicionais elitistas se constituam como inimigos da Web 2.0.

Sendo sensível à preocupação que Pacheco Pereira tenta manifestar – o tal empobrecimento cultural – não me parece defensável a tese de Andrew Keen, muito menos num mundo que diz defender a liberdade individual e cujo poder se sustenta no sufrágio universal e no apelo a uma cidadania activa, seja de professores catedráticos, seja de analfabectos! Regular a liberdade para que a de cada qual não colida com a do próximo, parece-me evidente em lugares que prezam o Estado de Direito; agora limitar a liberdade de expressão (de opinião ou de criação) parece-me, isto sim, muito mais próprio de uma ditadura, comunista ou de qualquer outra adjectivação. ( leia-se a crítica sugeria por Paulo Querido de Lawrence Lessig no Lessig 2.0)
Se seguíssemos à letra a solução preconizada por estas profecias apocalípticas e pelo calar dos tais amadores autodidactas, nunca teríamos tido um Torga, um Eugénio de Andrade, um Fernando Namora, um Carlos Paredes, uma Amália…

Continuo, afinal, com a impressão primeira que formei, a de que está constituído um poderoso lobbie global que colocou em marcha uma campanha contra a rede da blogosfera, nomeadamente a proporcionada pela Web 2.0 (vulgo Social Web), por parte dos media tradicionais, desesperados que estão com a drástica redução das suas vendas, contando com o apoio dos comentadores contratados pelo facto de sentirem diluir o seu poder enquanto opinion makers, buscando sustentação teórica nas inusitadas opiniões escritas de Andrew Keen.

A apoiar o que defendo, vejo o que a Cristina adiantou sobre a campanha contra os blogues que o Estadão lançou há cerca de um mês, criada pela empresa Talent, onde se lê e passo a citar, todos os blogs, ou melhor, todo o conteúdo gerado por não profissionais, não presta. A tónica da campanha estava em duas ou três ideias: blogs limitam-se a copiar informação, blogs não são fidedignos (…).. A Resposta não tardou através de Cristiano Dias no blogue Brainstorm#9 onde se lê o óbvio: Obviamente, existe muito lixo na internet. Falando especificamente de blogs, dos milhares que aparecem todos os dias, poucos se aproveitam, é verdade. Mas a lei da sobrevivência é a mesma: apenas os com conteúdo relevante e/ou divertido permanecem. A tecnologia avança, mas isso não muda.

Assim sendo, para além do artigo do Dr. Pacheco Pereira não acrescentar novidade dentro deste estratagema, a sua motivação para o escrever deverá ter sido bem mais elaborada e alargada que a nobre defesa da cultura e de uma elite de qualidade que a lidere, como insinua, enquadrando-se, antes, num lobbie global que ataca os blogues por considerar ser a melhor defesa para travar a tendência de redução de vendas dos media tradicionais e a não diluição do poder de opinion makers dos comentadores lá instalados.


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  1. 11, Setembro, 2007 a 16:46 | #1

    As vendas descem e as pessoas têm acesso a mais informação sobre o que as interessa, mas enquanto os livros não deixam de se vender e até encontram mais compradores (Amazon e similares que possibilitam a quem tem acesso internet poder comprar livros que lhe interesse e que nem saberia que existiam há alguns anos atrás) os jornais perdem leitores.
    É raro comprar um jornal, já que não encontro nenhum motivo que me leve a gastar o dinheiro. Noticias nacionais posso sempre ver no televisão e internacionais há muitas fontes no cabo e na web.
    Em releção ao “culto do amador” acho que embora a maioria dos “amadores”, (em geral, pessoas que não terão treino formal em determinadas áreas) possa efectivamente produzir apenas lixo e desinformação, é muito injusto e tendencioso afirmar peremptóriamente que [amador = mau] e ficar implícito que as excepções são tão poucas que nem se notam.
    A parte do nivelamento por baixo referida é divertida, já temos isso em todos os meios tradicionais (jornais, rádio, televisão), e é justamente na internet que é possível fugir a este menor denominador comum.
    Depois, detecto aqui uma certa arrogância em relação a quem não frequenta determinados circulos, um fenómeno que até parace colocar uma grande parte da população na categoria dos “intocáveis” que as luminárias nem querem ver perto deles, podia ser que lhes pegassem alguma coisa……

  2. 11, Setembro, 2007 a 16:57 | #2

    Estimado Mário Pires

    A parte do nivelamento por baixo referida é divertida, já temos isso em todos os meios tradicionais (jornais, rádio, televisão), e é justamente na internet que é possível fugir a este menor denominador comum.

    Melhor não poderia ser dito! De facto com web ou sem web o nivelamento por baixo advém da pressão de vendas e não da liberdade. A liberdade de edição que se frui na blogosfera, como muito diz, é o melhor antídoto para que, no meio de muito lixo que se produz, é certo, haja quem possa fazer com qualidade seja o que for, sem pressões sejam elas quais forem.

    Abraço e sinceramente grato pela assertividade do comentário.

  3. anónimo
    14, Setembro, 2007 a 18:21 | #3

    Fernando Câncio é um híbrido do Fernando Venâncio com a Fernanda Câncio? ;-)

  4. 17, Setembro, 2007 a 10:55 | #4

    Obrigado Anónimo pela dica e as minhas desculpas ao Fernando Venâncio por em Câncio o ter feito!

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