Deus não é um objecto de conhecimento, donde não faz qualquer sentido alguém arengar que pretende conhecer ou desconhecer Deus. Ou, o mesmo é dizer-se, “gnóstico” ou “agnóstico”. Porque, na verdade, um tipo munir-se do “conhecimento” para ir à procura de Deus é o equivalente a armar-se duma cana de pesca para ir à caça de elefantes. E quem diz Deus, diz um mero indivíduo – um Chico, Manel ou Francisco quaisquer. Ou seja, desde o “Indivíduo por Excelência” ao “indivíduo por existência”. Já Aristóteles o explica detalhadamente – Livro Zeta, da Metafísica, para quem se quiser dar ao trabalho. Não obstante, o que mais por aí abunda é gente que afirma conhecer tudo e mais alguma coisa – desde o parto do Universo até às ínfimas privacidades galácticas – e nem a si próprio se conhece. Querem um exemplo flagrante: nós todos.

Todos os sistemas lógicos baseados estritamente no conhecimento – como, por exemplo, a Ciência Moderna -, apenas alcançam o nível das espécies: escapam-lhes os indivíduos. Precisamente, porque não têm como finalidade saber “o que as coisas são”, mas apenas “aquilo para que as coisas servem”. Não espanta pois que operem e porfiem pela uniformização, pela massificação, em suma: pela “standardização”. Aquilo que não atingem, não compreendem e, por conseguinte, terraplanam. O que escapa à “média” – dada pela “estatística”, pela “lei geral”, pelo “mito autorizado”, enfim, pela “moda gnoseológica” da berra – amputa-se ou tortura-se até não restar mais que um puré de factos e invólucros normalizados.

Dragão no Dragoscópio

O que é dito neste texto pelo Dragão deveria ser obrigatório antes da catequese, depois do crisma e sempre, em especial nos centros de educação e investigação, sendo que o que aqui é dito, da paranóia de que só existe, só é, como facto, como verdade, o que o método experimental consegue comprovar, é exactamente a mesma premissa que está a enfermar os cientistas da educação, de que só o que pode ser aferido por um dos cinco sentidos do cânone, ou capaz de ser abstractamente compreensível, poderá ser passível de ser ensinado ou aprendido.

Como as manifestações artísticas, em geral, escapam a este espartilho cientista, já que nos impressionam através de formas de percepção que ainda desconhecemos, ditas de sensitivas (coisa que ao certo ninguém sabe precisar de que se trata), as confusões e os mais descarados dislates podem ser ditos e autoritariamente prescritos sobre a educação artística como se, mesmo atendendo às múltiplas e desconhecidas formas por que a arte nos pode impressionar, não existissem conteúdos passíveis de ser transmitidos, ensinados e aprendidos, como por exemplo a tradição, a cultura, mais exactamente.

Aos cientistas convinha terem consciência de que o conhecimento humano é ainda um grão de areia no que há para conhecer no cosmos e, por analogia, no Ser Humano, da mesma forma de que os artistas e educadores especializados nas mais diversas artes, deveriam respeitar, transmitir e ensinar o que é sabido, o currículo, para que a criatividade individual, possa, então sim, revelar-se e manifestar-se com a liberdade que a plenitude do Ser permite, mesmo que explorando o desconhecido, como convém.

A treta da libertação pela criatividade e a paranóia de não coarctar psicologicamente a iniciativa artística desde tenra idade com a transmissão e aprendizagem de conteúdos, fez (e faz) proliferar uma série de estudos, investigações e cursos que mais não são que umas mezinhas desgarradas da tradição e da cultura, correndo o risco de que em inusitado dia, um notável menino, em denso transe criativo, abanando o rabiosque ao som de um gig de um jogo da playstation, pegue em dois seixos e invente a pedra lascada, num autêntico produto refinado de uma qualquer performance multidisciplinar de artes plásticas, música e dança…, ao som do Lou Reed, YEAH!!!

É baseado neste embuste intelectual, onde o conhecimento recusa admitir a sua ignorância (coisa estranha para a sabedoria), transmitido por diversos investigadores muito atreitos a elaborar estudos para o Ministério da Educação com conclusões previamente contratadas, que a educação artística não é inserida curricularmente no sistema educativo, coarctando, aqui sim, e indelevelmente, as crianças e os adolescentes de fruirem de uma educação muito mais próxima do Ser, que cada uma é, e que necessitam de conhecer e explorar para, livre e interactivamente criativa, conseguirem construir e ir redesenhando a sua identidade.


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8 Respostas to “da luxúria do Cientismo ao desnorte da Educação Artística”

Comentários (8)
  1. Não resisti a este teu texto e fiz um post alusivo, com o título: A Educação Artística no * espartilho cientista
    Abraço

  2. Obrigado pela referência, Alice, mas o texto que a propósito escreves é remarcável!

  3. Susana Serrano diz:

    Tanto um texto como o outro estão muito bem escritos e perceptíveis. Digo eu, eu não diria melhor! Mas infelizmente a maioria das pessoas não atinge o sentido total do que diz o Dragão e do que tu dizes. E a maioria das pessoas estão na maioria das estruturas com poder de decisão sobre o que nos interessa. Infelizmente! Tenho passado a minha vida a tentar explicar isto no meu local de trabalho e nunca fui compreendida: respondem-me que é por eu ser da música e da filosofia e querem-me fazer crer que a culpa é minha.

  4. Não tenhas pressa, Susana. Faz disto um caminho, uma via a percorrer, porque, acredita, essas pessoas compreendem ou, se eventualmente não compreendem, poderão um dia vir a compreender.
    A verdade é um caminho a percorrer, semeando e colhendo num final que não se vislumbra.

    Obrigado pelo comentário.

  5. a “treta da libertação pela criatividade” não é nenhuma treta – nem a dita “libertação” nem o caminho para o auto-conhecimento, nem o treino para um olhar abrangente, divergente e achamento de um percurso singular de expressão – que podem, OU NÃO estar relacionados com a prática artística.

    em relação a esta última, só conheço um caminho: entrega, concentração, estudo, experimentação e treino – muito treino.

  6. Estimada Gisela

    Comecemos pelo que nos une: a entrega, a concentração, o estudo, experimentação e treino – muito treino para a prática artística. E o mesmo pode ser dito para a educação artística, já que é necessário ser-se e munir-se de conhecimentos pedagógicos e também experiência e muita de educar.

    É que esse tão raro quanto valioso percurso que anuncias – o caminho para o auto-conhecimento – que pode ou não estar relacionado com uma práctica artística exige, esse tal que exige, como bem dizes, um olhar abrangente, um achamento de um percurso particular, só possível (e desejável, entenda-se) através de uma reflexão intra-pessoal e inter-pessoal baseado num conhecimento e saber existentes, que vai (re)desenhando a tal particularidade de cada qual – a identidade, afinal!

    E assim vistas as coisas, não encontro nada no que escreves que nos separe! A frase “treta da libertação pela criatividade”? Pode ser, mas repara que não a utilizei como crítica ao desenvolvimento e manifestação da criatividade, antes enquadrando-a em quem pretende estar na educação sem transmitir conteúdos, sem transmitir a tradição, sem fornecer, afinal, as ferramentas para a interpretação e auto-reflexão.

    Obrigado pelo comentário.

  7. Nuno Góis diz:

    Obrigado pelos textos, com os quais concordo plenamente, bem como com os comentários onde me reencontro com a Gisela Cañamero que há uns anos me encenou na nossa Romagem dos Agravados onde vemos/lemos Gil Vicente reflectindo sobre toda esta questão.
    Abraços

  8. Obrigado sou eu, caro Nuno Góis.

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