José Sócrates escolheu a Educação e a Saúde para o debate mensal no Parlamento. Dá-me ideia que vai ser um ver se te avias de números, de números de todos e de tudo a que número se possa reduzir, e número que não estiver a preceito, como os do PISA 2006, é evidente que o discurso será o de que é preciso dar tempo para que em conveniente número se possam tornar. Não nos dos PISA 2006, não,! Nos convenientes, nos tais que defenderá que o tempo, a seu tempo (20 anos, diz) colocará a preceito.
José Sócrates já vai dizendo que a luta é pelas qualificações – sucedâneo da expressão “sucesso escolar”, ou seja, passagens e diplomas – e evita o que verdadeiramente está em causa: a aquisição de saberes e competências específicas e culturais para a vivência num mundo globalizado com uma identidade adequada.
Insiste ainda o Primeiro-Ministro que defende mudanças “passo a passo”, em alternativa às grandes reformas do sector (Público), mas que quererá isto dizer se a sua Ministra da Educação levou a cabo não grandes reformas, mas uma autêntica revolução, conseguindo destruir o pouco que havia, nomeadamente, o estatuto social dos professores e, consequentemente, a sua autoridade, reduzindo-os simples burocratas administrativos que, com anacrónicas mangas de alpaca, tratam de papelada, ficando sem tempo, o tal que é preciso dar tempo, para tratarem dos alunos?
Repare-se na leitura distorcida que o Ministério da Educação faz dos resultados do PISA 2006 no seu próprio site:
Na literacia em ciências, Portugal apresenta um valor de 474, em comparação com 459 em 2000 e 468 em 2003.
Já na literacia em leitura, o valor de 2006 (472) é superior ao de 2000 (470), mas inferior ao de 2003 (478).
Por fim, na literacia em matemática, os 466 pontos de média verificados agora repetem o valor de 2003, continuando acima de 2000, quando o desempenho médio dos alunos portugueses foi de 459.
(Portal da Educação)
Não há vergonha! É o ultrage, a manipulação dos resultados, o sacudir da água do capote!
Sejam sérios e não tenham vergonha de admitir a incompetência, o erro nas políticas de gestão escolar e cultural, enfim, assumir que estavam enganados e entregar o assunto a quem saiba fazer melhor, em especial, no que à organização, à gestão escolar e à aprendizagem diz respeito!
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Carlos
Tenho lido o teu “Ideias Soltas” e tenho apreciado muitas das tuas noticias – parabéns! Não tenho respondido pois o tempo é sempre pouco mas hoje não resisti… até porque o PISA há muito que me ocupa a mente…Como deves saber há muitas críticas ao PISA, mas não é disso que quero falar… digamos que ele é UM indicador… difícil é dizer com segurança de quê… mas voltemos à tua noticia. Compreendo que se ataque o poder político… certamente ele é responsável por muita coisa… não sei bem se é, no entanto, por mudar o discurso de “sucesso escolar” para “qualificações”… mas enquanto professora não posso ficar por aqui… tenho também que me questionar sobre como os professores têm usado os resultados do PISA (já relativos a 3 anos) no desenvolvimento das suas práticas? Não tenho dados empíricos que me permitam fazer afirmações, mas nas minhas “viagens” a Escolas tenho-me apercebido de que há muitos professores que os desconhecem…sem querer ilibar o poder político, que por acaso até nem foi a minha escolha enquanto cidadã, gostaria de contribuir para o alargamento de debate…
Antes de mais, Nilza, deixa-me manifestar o prazer de te receber nestes rascunhos diários de inquietações e desabafos, nem sempre a preceito, é certo, embora de tal convencido no momento que escrevo.
Vamos ao assunto, mas por partes, porque apesar não escreveres muitas linhas deixas (como sempre o fazes) trabalho para os outros – entenda-se motivo e desejo de reflectir. Então:
1 – PISA
É com toda a certeza mais um instrumento de aferição, o único que conheço que afere de igual modo o conhecimento, ou melhor, as competências dos alunos em determinadas matérias em vários países da OCDE, embora, como bem dizes, é “UM indicador” que não sabemos ao certo de quê, mas que seguramente faz um instantâneo de que pretende retratar.
O que não sabemos de todo (e julgo que será onde pretendes chegar) é se o que afere é ou não relevante em termos de da especificidade educativa de cada ambiente sócio-educativo.
Também não sei Nilza, mas sei que houve uma ligeira variação positivo dos nossos alunos, mas que não nos aproximamos do ponto onde PROMETEM que querem chegar!
Eu não sei se queremos ou devemos querer atingir o desiderato conseguido pela Finlândia, mas se o nosso Ministério da Educação dá importância a este indicador é porque para ele é motivo de análise e reflexão, porque se não será mais um ponto que não se entende.
2 – como os professores têm usado os resultados do PISA?
Confrangedor, de facto, Nilza! Uma pesquisa no Google dá-nos conte da intensa reflexão e estudo que estes dados desencadeiam no Brasil, por exemplo, e por nada, nada, um deserto!
É triste, mesmo muito, mas Nilza, também sem dados empíricos, como entender a desmotivação (ou desinteresse) dos nossos professores? Não sei…
3 – Olha, aí vai…
Mas sei, Nilza, que este Ministério da Educação começou (e ainda parece não ter acabado) de arrasar socialmente os professores! Lembro-me bem de ser um dos poucos que acreditava na Ministra Lurdes Rodrigues no início do seu mandato (veja-se “A Cedência do Ministério da Educação” por exemplo em Outubro de 2006), mas com o passar do tempo constatei que a tal perspectiva de identificação de sucesso, com passagens e com diplomas (a que chamam qualificação) toldou o bom-senso da senhora e deste governo no que à Educação diz respeito.
Começaram a suceder-se, avidamente, autênticos desmantelamentos estruturais do sistema educativo, sem uma alternativa credível a funcionar:
- Avaliar professores sem previamente lhes dizer que estavam a ser objecto de avaliação?
- Avaliar professores sem lhes mostrar qual o modelo que pretendem…, sem identificar escrupulosamente quem são os bons professores (porque os há, com toda a certeza) para que os demais saibam quem devem seguir?
- Manter Conselhos Directivos (eleitos pelos professores) nas escolas e ainda para mais dar-lhes o estatuto de avaliadores?
- Abrir um concurso para uma coisa chamada Professor Titular sem ninguém ter ainda percebido para que serviu e muito menos qual a relevância dos critérios de avaliação? Os items souberam-se, mas os critérios… Ter sido ‘Director de Turma’ contava; ter-se oferecido para actividades escolares, também contou…, mas ninguém quis saber se foram bons ou maus directores de turma, se deram ou não boas aulas de acompanhamento, se o que fizeram nas áreas de projecto interessou para alguma coisa!!??!!
O que é isto, Nilza? Tudo isto mais não foi do que um despejar de legislação aos trambolhões que arruinou a estrutura existente (boa ou má), denegriu a imagem social dos professores junto dos alunos e pais com grande prejuízo para os alunos que tinham bons professores, dos quais o ministério não sabe nem curou de saber e tudo de trambolhão em trambolhão!
No fundo, o que Francisco José Viegas disse é bem verdade, Nilza:
os professores são o elo mais fraco na cadeia de comando da organização e gestão da educação em Portugal e o resto, o resto são génios, os génios que saíram das escolas para num qualquer gabinete, esquecendo-se de que para lá foram por professores terem sido, se entregarem aos mais inquietantes e compulsivos devaneios pedagogeses! (ver “Educação – pais, professores, escolas e ministério“)
Sei que te estou a magoar, Nilza, mas peço que observes que não é essa a minha intenção, mas a de demonstrar que tem sido o próprio Ministério da Educação que tem permitido o atrevimento de alguns imbecis que à Educação de Massas a que estamos obrigados (e bem) e à Educação Inclusiva (que devemos) contraponham a “anti-pedagogia”! É ao Ministério da Educação que se deve essa responsabilidade por total incompetência!
Foi fácil ao Ministério da Educação, com o apoio patético do chefe das Associações de Pais, arrear em toda uma classe profissional, onde, repito, deve haver, como em todas, os bons, não tão bons, os menos bons e os que nem por isso e, é por tudo isto que tenho hoje dificuldade, Nilza, em assacar aos professores qualquer responsabilidade no caos que lhes instalaram no sistema educativo.
Sim, eu sei que continua a haver maus professores, professores absolutamente desinteressados no seu trabalho, alheados dos seus alunos, mas não é possível, no actual quadro que o Ministério criou, encontrar os tais modelos que podiam e deveriam ser apontados. A montante das questões pedagógicas, há como tenho insistido, condicionantes de ordem organizativa, administrativa, legal, de gestão de recursos humanos, de gestão escolar, enfim, de gestão cultural que carecem de tratamento prévio para que todo o arsenal pedagógico possa ser assimilado e correctamente aplicado nas escolas.
escrevi. Não acredito na eficácia da avaliação dos professores nem na autonomia das escolas nem na melhoria da aprendizagem sem alterar 4 pontos essenciais que atrás há bastante tempo, me atrevi a enunciar (aqui e aqui) os quais volto a insistir:
1 – a inscrição do dever de educar no quadro da responsabilidade civil objectiva da paternidade;
2 – o fim dos conselhos directivos eleitos e a contratação de directores por concurso público;
3 – exames nacionais a todas as disciplinas em todos os final de ciclo e provas globais internas nos anos intercalares a todas as disciplinas, corrigidas cegamente, em todas as escolas;
4 – avaliar o desempenho dos professores com base em objectivos muito concretos e mensuráveis por classe e aluno.
Eu compreendo bem, Nilza, que há muito a exigir dos professores – tu sabes – mas sem lhes dar condições para serem professores não me parece plausível que se possa exigir mais deles pelo facto da tutela não se ter dado ao respeito, tendo desbaratado toda a autoridade para o fazer.
Convém, no entanto, dizer que do mesmo modo que se critica se deve parabenizar, neste caso José Sócrates que anunciou ontem , em pleno Parlamento, o fim dos Conselhos Directivos e a instituição do Director Executivo, conforme defendo no ponto 2, embora tenha dito que essa função deve caber a um professor. Mas este será o mote do próximo post.
Beijinho, mas tu deste-me cá uma trabalheira…!
Tenho é pena de que pessoas como tu, que tanto investigaram sobre este assuntos, tanto sabem, tanto podem dar ao sistema educativo, tenham mais solicitações além-fronteiras do que dos poderezitos do Ministério da Educação.