A manifestação de professores de Sábado passado mostrou, sem margem para qualquer dúvida, o descontentamento generalizado de quem ensina face à actuação do Ministério da Educação. Ninguém acalentava diversa forma de sentir (talvez só quem pretenderia formatar outras cabeças), assim como só pessoas muito mal intencionadas poderão afirmar, generalizadamente, que os professores não se interessam pela qualidade da aprendizagem dos alunos.
A dimensão desta manifestação mostrou também que o habitual conformismo dos professores às dezenas de mudanças que têm vindo a ser operadas a partir dos vários titulares do Ministério da Educação não resistiu a um incompreensível enxovalho público, sistematicamente reiterado, que a actual equipa dispensa contra esta classe profissional. No entanto, querer ler para além da forte e generalizada indignação contra o tratamento (verbal e legislativo) que este Ministério lhes vem dispensando, será sempre um exercício de retórica que servirá para alimentar fanáticos, seja de sindicatos, de partidos, de líderes de associações de pais ou de outra equivalente índole.
Tenho muito dificuldade em digerir discursos de pessoas que só querem ouvir falar de povo em momentos eleitorais e que o desdenhem em todas as outras ocasiões. Será de bom-senso tirar ilações tanto de resultados eleitorais como de manifestações – são bons momentos para auscultar o voz dos cidadãos, sem a intermediação de comentaristas nem colunistas do género “educadores da classe operária”, vocação que parece pupular um pouco por todo o lado.
Tem José Sócrates razão quando afirma que esta manifestação não pode colocar em causa o Programa do Governo (documento PDF), mas a verdade é que também não foi essa a sua intenção. Contudo, poderá ser um bom momento para fazer um exercício de avaliação interna do seu cumprimento, ver o que já se conseguiu fazer, o que está em vias de prossecução, o que não foi ainda de todo feito e eventuais erros de perspectiva e implementação que o possam colocar em causa.
Bom-senso é preciso e pessoas acostumadas a ele recorrer e é nesse contexto que deixo duas transcrições do Programa do Governo em relação à educação e à cultura:
A opção política do Governo é, tendo plena consciência da educação como factor insubstituível de democracia e desenvolvimento, pôr em prática políticas que consigam obter avanços claros e sustentados, na organização e gestão dos recursos educativos, na qualidade das aprendizagens e na oferta de várias oportunidades a todos os cidadãos para melhorarem os seus níveis e perfis de formação. (pag.42)
(…)
A política cultural para o período 2005-2009 orientar-se-á por três finalidades essenciais. A primeira é retirar o sector da cultura da asfixia financeira em que três anos de governação à direita o colocaram. A segunda é retomar o impulso político para o desenvolvimento do tecido cultural português. A terceira é conseguir um equilíbrio dinâmico entre a defesa e valorização do património cultural, o apoio à criação artística, a estruturação do território com equipamentos e redes culturais, a aposta na educação artística e na formação dos públicos e a promoção internacional da cultura portuguesa. (pag. 54)
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Carlos
Encontrar o óbvio é de uma dificuldade transcendente. Porque, me parece a mim, que nem o próprio Sócrates leu o programa do governo ( ou de governo – depende).
Foi escrito por alguém com boas intenções, que não está para aturar esta merda, mas que eles (PS e PSD) sabem que não se importa de escrever sobre o que acha essencial porque o essencial é tão óbvio. Ou não será?
Vejamos:
Se se lerem todos os programas de governo desde o primeiro (como o Eça de Queiroz já falava) tudo se sublinha por uma retórica eficiente, que não esquece ninguém, e de tão óbvia, é simples. Já o descobrir o numero da página onde está escrito, isto, ou aquilo, digo-te, é um feito.
Se algum dia este governo te responder, vai dizer que a tua versão está mal paginada, embora esteja “on-line”, e o erro é do “web master”, porque a versão que eles têm imprimida não diz isso. Alem de não terem tempo de ler o que está “on-line” por razões também óbvias, que ao comum dos cidadãos é redundantemente reconhecida.
Continuo a achar que a palavra democracia está mal aplicada, porque vem do grego, e quando surgiu, as mulheres não tinham nem estatuto social, nem direitos, assim como os escravos.
Portanto, o nome das coisas imateriais (relativo à política, sociologia, filosofia), eh só o embuste de umas boas vistas para o mar, com piscina, sobretudo se não tiver vizinho/as (só para ser politicamente correcto)…
Abraço
Não sei, Ricardo…, tenho de acreditar que, pela dificuldade que o acto de governar encerra, pode muito bem acontecer que haja desvios ao programa que a intensidade diária não permite tomar consciência.
Abraço e obrigado pelo comentário.
como dizem os ingleses
“crap”
sabemos ao que vamos
(antes das eleicoes)
aprendemos a assobiar
(depois?)
get a room