Há dias o Rui Curado Silva insurgia-se, muito acertadamente, com desconhecimento do método científico. Seguindo as suas palavras, cito:
(…) o desconhecimento do método científico é assustador, as recentes discussões na blogosfera sobre ciência revelam uma ignorância profunda do assunto. E o pior é quando este desconhecimento vem da parte de cientistas (das ciências sociais e humanas às ciências exactas).
Não deixei de corroborar esta sua impressão nos comentários do Klepsydra, uma vez que em nome da ciência e do método científico, se têm produzido os mais hilariantes estudos, nomeadamente no domínio das ciências sociais e humanas que melhor domino. Então estudos ‘encomendados’ por governos principescamente remunerados estamos, de facto, prenhos.
Mas pretendia cruzar, precisamente a assertividade do Rui com o texto da Alice Valente Alves, Crenças e poder – do dever em não devir, fruto de uma comunicação produzida na ‘11.ª Mesa-Redonda De Primavera – Crenças, Religiões E Poderes‘ da FLUP, cujas comunicações foram reunida em livro a apresentar hoje no Porto, na Livraria Leitura ao Centro Comercial Cidade do Porto, pelas 18:30h, sob o título CRENÇAS, RELIGIÕES E PODERES – dos Indivíduos às Sociabilidades, em especial, quando afirma, também com toda a propriedade:
É comum à tradição da Filosofia que sempre por demasiado associada ao teológico e ao científico, comodamente fechar os olhos e deixar-se tornar irredutível ao sensível e ao conceptual. E apesar da Filosofia se ter associado nas suas formalidades mais à Ciência do que à Artes é depois e sempre nas Artes que encontra a Razão e a Verdade fundamental para justificar a existência do Devir. (ler texto na íntegra em formato pdf)
Aparentemente parecem dois excertos contraditórios. Aparentemente… É que o que em em nome da ciência se tem produzido, como científico, e claro, incontestável por com o científico se adornar. Então no que à percepção e expressão artísticas concerne é de uma pungente redução positivista que enclausura as artes num positivismo analítico incapaz de compreender (é disso que a ciência deve tratar – compreender) o acto criativo e a forma como a criatividade se emancipa de uma identidade (ou cultura, se preferirem) pessoal, colectiva e sempre em (re)construção.
No fundo, tanto o Rui Curado e Silva como a Alice Valente Alves, por caminhos diferentes, indignam-se pelo mesmo motivo – o cientismo, um constructo pseudo-científico que nos invade e pretende amordaçar, ao impor verdades absolutas e incontáveis.
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