A Alice Valente deslumbra com mais uma das suas reflexões sobre a arte, no ALI_SE, desta vez sob o interesse e o processo, socialmente transversal e poderoso, de desvirtuar a arte, no seu texto Os Apossados da Arte a transformá-la em não-arte.
Partindo da constatação do processo de desvirtuar a arte (…) tal como o que diz respeito ao que é político e económico, já todo um público ou sociedade em geral, se habituou ou se tornou de certa forma, condescendente e compreensivo para o que se está a fazer com a arte e as artes, no serem dia após dia, completamente desvirtuadas ou transformadas em não-arte, a Alice Valente interroga-se para que servirá, então ensinar arte, escolas especializadas de ensino artístico e até faculdades para o efeito se tudo, afinal, nas cabecinhas pensadoras e dominantes do pensamento, a instituição de “obra de arte” está sujeita à moda e ao escrutínio de maioria. Chega mesmo a denunciar que existe uma animosidade categórica da arte para quem a desvirtua, a fazer arte dando-lhe uma dinâmica de não-arte.
Prossegue, denunciando também, a quem interessa este desvirtuar da arte ao afirmar e permitam tão largo excerto:
Não conclui a Alice Valente sem ensaiar qual o resultado deste aviltante processo de desvirtuar a arte:
Acrescentaria eu, já só com conferencistas, comentadores de arte e cientistas de educação de artes que arte não criam.
É evidente que não poderá haver arte sem artistas nem ensino artístico sem os mesmos, sem sentir a arte sem a viver, para sentir e compreender e tudo isto nos leva ao tema que nos é caro e que ambos abordamos ad nauseum sobre a destruição do ensino artístico, que está a ocorrer por toda a Europa, mormente em Portugal, onde o poder, através do Ministério da Educação, com a complacência do Ministério da Cultura, está a promover o desaparecimento dos últimos baluartes de ensino artístico especializado, os chamados Conservatórios de Música e de Dança, os quais obrigou a desistir da exigência que sempre os pautou, a avaliação rigorosa que sempre os distinguiu da vergonha dos sistemas de avaliação do ensino genérico.
O ensino artístico especializado, aquele que pode forma artistas e pessoas que pretendam ter acesso a uma educação que lhes permita fruir compreensivamente da arte, nomeadamente da música, está moribundo, em processo último de destruição, ou melhor, despachado por Valter Lemos no Despacho n.º 18041/2008 e, se calhar, em processo de falência a muito breve prazo.
A Alice Valente conclui, muito certeiramente, sobre o futuro (eu diria já o presente) da arte e seu ensino:
Este texto da Alice Valente é para mim um dos melhores, se não o melhor, texto sobre os camuflados intentos do poder em relação às artes e seu ensino que me lembro de encontrar na blogosfera e fora dela. Trata-se de um texto de referência para quem sobre o assunto pretenda, seriamente, reflectir, até porque, como entre nós não há novidades que não sejam as importadas ou obrigadas pela União Europeia ou OCDE, a discussão está neste momento, dividida entre os que apelam a uma “Educação pela Arte” contrapondo-se àqueles que defendem a tradição de uma “Educação para a Arte“, defendendo os primeiros que esta última é elitista (o chavão de sempre e que serviu e serve para promover o facilitismo na educação) e que, a existir, só faz sentido para quem quiser ser artista, como se os dois conceitos de ensino não possam ser paralelos e de livre acesso!
Ora “artistas” vejo-os por todo o lado, comodamente assentados no poder, seja político, económico ou académico, ou todos juntos em intrincados interesses, insinuando, sem pudor, a falácia de que é possível propiciar e promover o desenvolvimento criativo da arte sem uma educação exigente, seja para se ser artista de qualquer arte, seja para aceder à sua compreensão e fruição.
Tags: Alice Valente, Conservatório, Educação Artística, Educação em Cultura, Ensino Artístico, Ensino Artístico Especializado, Gestão Cultural, Ministério da Cultura, Ministerio da Educação, Valter Lemos






















Cá estamos Carlos. Gostei muito deste teu desenvolvimento.
E porque é da indignação e muita zanga interior que se faz a vida e a arte.
Um grande abraço e muito, muito obrigada
Obrigado pelas tuas palavras, Alice, mas o mérito é todo teu. Se é de muita zanga interior que se faz a vida e a arte seguramente que encontramos pistas no teu mais recente texto, “Desobediência à lei por ética“.
“E porque é da indignação e muita zanga interior que se faz a vida e a arte.”
Uma grande verdade de
La Alice
É, Ricardo, uma grande verdade, mas poderá, como tudo, não ser passível de generalização, ou se preferires, de se ser considerada única e universal.
Abraço e obrigado pelo comentário.
Devo agradecimentos e respostas, mas peço-vos um pouco de paciência pela minha falta de tempo. Fica a promessa de não esquecer.