Abr 172009
 

Ivo Pogorelich, para desgosto do Paulo Bastos, não é um dos meus pianistas preferidos, mas confesso que a sua interpretação de ‘Ondine’ do ‘Gaspard de la Nuit’ de Ravel arrebatava-me, mesmo quando confrontada com a de Pierre-Laurent Aimard, este sim, um dos meus preferidos na música do século XX.
Ainda assim parece que Ivo Pogorelich não tem sorte comigo! Não é que dei com outra interpretação da qual não encontro paralelo! Advinhem de quem… É a do segundo vídeo que só contém som. Ouçam e digam-me…


Sim, a do próprio Ravel!!!

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  4 Responses to “Ravel e Ivo Pogorelich – Ondine do Gaspard de la Nuit”

Comments (4)
  1. Olá Carlos,
    pois olha que Pogorelich também não é dos meus pianistas de eleição! O que eu acho, e esta interpretação de “ondine” confirma-o, é que Pogorelich consegue fazer o melhor e o pior e se for preciso na mesma obra. É o caso deste “ondine” com momentos medianos, o início por exemplo, particularmente na articulação rápida, e o crescendo final que está absolutamente divino! Mas o que realmente já vi foi o Pogorelich, regressado uns 10 anos depois de ter estado no seu melhor, e não há descrição possível… pura decadência, o pior concerto da minha vida! Que desgosto, aquele pianista que tinha sido capaz de tocar a suite nº 2 de Bach como ninguém, nem Gould me convencia mais, e o Scarlatti, também excepcional, sei lá o quê mais!!! É, com efeito, esse senhor consegue o melhor e o pior.
    Quanto ao “ondine” por Ravel, é do melhor que ouvi, e temos que pensar que os pianos não eram iguais aos actuais…
    Uma coisa para finalizar, Gaspard de la Nuit é a minha obra de piano preferida da primeira metade do séc. XX, e Ravel é, pessoalmente, o meu compositor francês da primeira metade também, mesmo à frente do monstro sagrado da tríade (Debussy, Webern, Stravinsky), ou seja, Debussy.
    Porra, que grande comentário!!!

    • Obrigado pelo teu pronto comentário, Paulo Bastos.
      É, as interpretações do Pogerelich são um sobressalto constante, uma surpresa porque, pelo menos é a ideia que me dá, parece estar sempre à procura do melhor fraseado para cada frase ou gesto perdendo, quase sempre a narrativa geral da obra.
      Foucault dizia que era através do discurso, da palavra, que a pessoa se revelava, ao que Deleuze acrescentou que será através dos discursos que se constroem as narrativas, essas sim, reveladoras da essência, ou da epísteme se do conhecimento se tratar.
      A qualidade da técnica físico-motora do Pogorelich é inquestionável (estarás de acordo), mas a construção de uma narrativa de cada obra e a o domínio das técnicas de comunicação artística deixam muito a desejar. Mas a minha ‘malapata’ com ele não advém da historieta com do 2º Prémio Chopin (Ashenazy também não obteve o 1º Prémio em 55), mas a inconsistência de que te falei, uma constante, embora conceda que em Scarlatti ele excede essas suas contingências.
      Quanto ao Ravel, Paulo, está justiça ainda por fazer ao Ravel/compositor. Preferem sempre falar dele como grande maestro (que o foi) contrapondo è sua qualidade como criador. Injustiça, claro, mas ficamos agora a saber (pelo menos eu) que para além dessas facetas ele ao piano era uma coisa de outro mundo!!!
      A dificuldade de Ondine (do Scarbo, mais exigente ainda, não conheço a sua interpretação) não se revela na audição. É preciso conhecer bem as técnicas pianísticas para nos apercebermos das exigências, sejam físico-motoras, interpretativas e artísticas. Ravel é um dos meus preferidos, sim, mas…, mas Paulo, Debussy também. Os dois, assim mesmo.

      Abraço e mais uma vez obrigado.

  2. o ravel é simplesmente assombroso
    a mim faz-me esquecer completamente a dificuldade pianística ou a análise interpretativa
    é simplesmente música
    divina

    • É isso mesmo, Ricardo. Quando se atinge o patamar interpretativo que Ravel aqui exige fica só a ARTE, a suprema, aquela que nos impulsiona a buscá-la e incorporá-la no nosso quotidiano, na nossa vida. O trabalho (e talento) para o conseguir fica, por completo, secundarizado diante da beleza. Mas não é para atingir esse nível que os artistas trabalham?

      Abraço e obrigado pelo comentário.