Jul 222011
 
Bandeira PortugalO silêncio é muito bom conselheiro no que concerne à nossa capacidade de espectadores reflexivos, seja porque nos permite ganhar alguma distância, seja porque a urgência de escrever sobre, ao obrigar-nos a outro género de concentração, desvia-nos inexoravelmente a atenção.
Importa-me, por ora, chamar a atenção para um pormenor, que não me parece de somenos, no que concerne ao acordo firmado com a troika e os últimos desenvolvimentos relativamente a alguma folga de pressão na zona euro – a baixa de notações das agências de rating e privatizações.
É seguro que as privatizações não representam, nem para Portugal nem no memorando de entendimento, um valor relevante para o ajuste da dívida soberana, nem para a balança de transacções comerciais, nem tão pouco para o aliviar estrutural do défice. Porque estão lá, no memorando, sabemos – para os privados lucrarem com elas. Uns dirão que são essenciais para revitalizar o sector privado, outros porque não é vocação do Estado ser empresário, enquanto outros se opõem literalmente. Por certo temos de que se trata exclusivamente de uma medida ideológica e não de uma necessidade inadiável nem do Estado nem dos cidadãos.
Por outro lado, o desnorte dos políticos com as sucessivas revisões em baixa das notações das agências de rating sugere, precisamente, cautelas acrescidas e apelos à serenidade e inteligência. As reacções da esmagadora maioria dos políticos europeus e portugueses espelham isso mesmo – uma histeria confrangedora, disparando em todas as direcções, desde a ‘teoria do ataque ao euro’, passando por uma tentativa dos EUA para revalorizar o dólar, até à ‘desilusão por incompreensão’.
Ora, se fizerem o favor de acalmarem e pensarem um pouco, as agências de rating, aos baixarem as notações de Portugal e Grécia, comportaram-se, pela primeira vez desde há uns anos a esta parte, bem de acordo com a regra mais elementar que aprendemos sobre o mercado – a lei da oferta e da procura! O que seria de esperar quando Portugal assina um memorando de entendimento onde se anuncia que o Estado vai vender todas as suas participações em empresas e na semana seguinte o mesmo faz a Grécia? Como é evidente um repentino e elevado aumento da oferta! E o qual a consequência, no que à formação de preços diz respeito acontece? A baixa de preços, evidentemente, todos sabemos! Foi isto que os políticos não conseguiram ver, cegos que estavam e estão com problemas de índole financeira, pensando em ataques ao euro!
Poder-se-ia argumentar que se assim fosse não haveria necessidade de baixar as notações dos Estados nem dos bancos, bastando baixar o das empresas em questão. Mas é argumento falacioso, uma vez que as agências de rating, independentemente da sua localização ou propriedade, existem para servir os investidores – a tal alta-finança sem rosto, escondida atrás de fundos – tal como as empresas de avaliação de imóveis existem para servir os bancos e não os proprietários. Para lá de tentarmos ver a quem pertencem as empresas, devemos sempre perguntar quem lhes dá trabalho ou, melhor, a quem servem! Por outro lado, como poderiam as agências de rating justificar a redução das notações directamente a empresas que dão lucro? Não poderiam! Tiverem de baixar a dos Estados, justificando-se com a pressão de incumprimentos previsíveis, daí para os bancos que têm em carteira títulos de dívida pública, de forma a descapitalizá-los para não terem capacidade para emprestar a taxas razoáveis algum investidor nacional e, então sim, saltam para as empresas, mesmo lucrativas com a justificação da dificuldade de contraírem empréstimos, para gestão corrente, junto da banca!
Parece difícil de entender? Pensem sempre, por favor, quem serve a quem…

Por todas estas razões, juntando a endémica incapacidade negocial de há 30 anos a esta parte por parte dos governantes de Portugal, cujos sucessivos governos nunca tiveram uma política assumida de negócios estrangeiros para com a Europa, para além de cumprir tudo o que as instâncias europeias nos demandavam, somos chegados a tratados de resgate onde, para incredulidade de quem os lê, se anuncia mundialmente a ‘liquidação’ de todas as empresas do Estado e, para mais, com prazo anunciado, como que por atacado!!! Não pretende aqui individualizar responsabilidades, mas não consigo deixar de dizer que há muita falta de economistas pensantes e um excesso de financeiros que de negócios nada percebem, talvez porque a vida empresarial sempre lhes foi alheia!!!

Por muito que possa doer a quem assinou semelhante memorando, trata-se, neste capítulo que ora abordo, de um erro grosseiro cujas consequências de mercado não se fizeram esperar!!!
Estamos a tempo de evitar semelhante desconchavo? Julgo que sim, mas urge tomarmos posições tão firmes quão compreensíveis!

Teremos de começar por iniciar conversações com quem nos propôs o referido memorando e explicar o erro que todos, os proponentes e os tomadores, acordaram no que ao anúncio e calendarização das privatizações diz respeito e, com frontalidade, dizermos que não estamos dispostos a cumprir essa parte do acordo uma vez que será ruinoso para os interesses nacionais vender posições em empresas altamente lucrativas para o Estado com notações tão baixas nas agências de rating! Não se trata de uma questão ideológica, de ser contra ou a favor de privatizações, mas inteligência, de capacidade negocial e, acima de tudo, de defesa do interesse nacional!

Se houver políticos à altura, imbuídos do espírito de defesa intransigente do interesse nacional e do bem comum dos cidadãos, este é o caminho que urge seguir – parar o cumprimento do acordo no que à privatização de empresas diz respeito, renegociando-o ou denunciando-o, por erro grosseiro na sua preparação e elaboração, uma vez que está ferido, no mínimo, pelo mais elementar respeito pela lei da oferta e da procura que regem o mercado, e cuja salvaguarda deve ser rigidamente regulamentada e observada!

  8 Responses to “Agências de Rating e Privatizações – mercados e negócios”

Comments (8)
  1. Concordo com a Margarida. Aqui está um post muito, muito bom!! Consegues transmitir facilmente tanto do que é dificil entender em alguma teoria e na prática, para a maioria das pessoas, sobre este assunto.
    Não é fruto da tua imaginação… apenas aquilo que dizes não “interessa” para muita gente…
    Obrigada. Gostei bastante desta aulinha! :)
    Beijinho

    • Não ‘interessa’ a muita gente? Pois não…, ou interessa esconder ou andam numa azáfama medonha a dizer coisas sobre a espuma do dia-a-dia.
      Obrigado pelas palavras, Joana, mas vocação para professor desde cedo soube não ter.

  2. Estou de momento a fazer uma tese a respeito da dívida soberana portuguesa e as notações das agências. O intuito é explicar o esquema da coisa… tendo em conta diversas abordagens (anteriores e posteriores à crise). Percebi, entretanto que, depois da crise e da necessidade, estes entes queridos dos ratings passaram de bestiais a bestas, porque sim. Gostei bastante de encontrar este post: a outra face da moeda, bem exposta e com enorme sentido. :)

    • Muito obrigado pelo seu feedback, estimada Raquel, mas dá-me ideia de que o que escrevi, não colhendo eco juntos dos enormes economistas mundiais, devo mesmo ser fruto da minha imaginação.

  3. Não há exagero nenhum!!! Que coisa!

    Li com olhos de LER. Se tivesse lido com olhos de amizade teria dito outra coisa, garanto-te.

    Para ti estas coisas podem parecer óbvias, mas para muitos não o é, e tu estranhas isso, mas. . .

    É assim – para além do conteúdo ainda há, também, a forma de transmitires o que pensas.
    Para além da forma límpida, lúcida, e clara que expões o teu raciocínio
    (bem rico em recheio diga-se de passagem)
    consegues o fazer de uma forma sucinta, o que para ti pode parecer simples, ou natural, mas não o é de todo.

    Dá próxima vez que achares eu comentar-te assim por amizade, levas um tamanho raspanete que nem imaginas!!! !!
    E isto sim. Agora é que foi.
    O que acabei de dizer do raspanete é que vem da tal amizade que é cega, mas que mesmo assim não deixa de ter capacidade de dar um ralhete quando sente isso necessário :)
    beijinhos

  4. Excelente poste!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    (obrigada!!!)