Nov 292011
 

Amalia RodriguesA escolha do fado como ‘Património Imaterial da Humanidade’ pela UNESCO é motivo de orgulho para Portugal, seja pelo reconhecimento da sua qualidade artística intrínseca, ainda hoje muito devedora a Amália Rodrigues, seja pela inscrição inédita de uma manifestação artística portuguesa naquele lote de tão difícil acesso.
Uma palavra de reconhecimento também para o grupo de trabalho liderado por Rui Vieira Nery que, de forma tão consistente, elaborou e apresentou a concurso a proposta votada por unanimidade.
Dito isto, e com alegria, celebremos este momento de satisfação colectiva e que ele sirva para nos incentivar a apresentar outras candidaturas ao mesmo lote de eleitos de manifestações artísticas bem nossas, como por exemplo o Cante Alentejano, antes que ele se eclipse por completo das nossas salas de espectáculo.
Por último, desejo sinceramente que este triunfo para Portugal não desenvolva qualquer tentação centralista de conversão do fado em emblema de canção nacional, triste sina que já vivemos durante longos e obscuros 48 anos, como aconteceu com a calçada lisboeta, transformada na designação hoje corrente de calçada portuguesa, como se todo o Noroeste peninsular, da Beira Alta para cima, tivesse transfigurado o cinzento da sua granítica paisagem no alvo calcário do Sul da Península.

  2 Responses to “Fado Património da Humanidade – do fado e da triste sina”

Comments (2)
  1. Eu felicito, e estou sinceramente feliz pelo fado, e muito mesmo por ver os esforços de o nosso Rui Nery serem assim compensados (um esforço feito com zelo, paixão, e com a competência que lhe é sobejamente conhecida, e reconhecida. Confesso que sempre senti que esta campanha acabaria em sucesso,)
    No entanto..
    – No entanto, Carlos, tenho no que respeita ao Fado e estas coisas.., sentimentos um pouco mistos (por vezes contraditórios)
    e tentarei especificar melhor o que quero dizer com isto, e o porquê.
    .
    O que mais vejo, tenho visto, tem sido desde há sei lá quantas gerações e tempo, e é,
    como sabes tão bem ou melhor que eu,
    é o reduzir-se a nossa Musica, a nossa “Musica Portuguesa” precisamente a pouco mais que Fado e algum pop.

    (coisa que sei não ocorrer através de gente como tu, o Rui Nery, e alguns (poucos) outros,
    Carlos, embora sejam muitos dos que conheço, – mas que qualquer ser tem de reconhecer que quem conhece, é sempre uma minoria.. sempre, e nem que conhecesse 1 milhão de gentes, seria sempre uma minoria.. pois,: E no entanto há quem fale facilmente em nome de todos como se os conhecesse.. enfim, e adiante)

    Sabemos que se reduz a pouco mais que fado, quando se tenta imaginar algo mais “transcendente” ou com mais “peso” em termos de ARTE, ou “relevância” na musica portuguesa, e os que sabem da existência dela amputam coisas que não deveria passa pela cabeça de ninguém omitir (Portugueses e não-portugueses, pois para muitos Portugal é quase inexistente, culturalmente/históricamente, como se sabe.. apagada, e auto-apagada é a nossa existência.. )

    Quando existe é para se falar do não sei quantos Carreira, do Toy, Sardet, Agata por aí fora –
    (cuja música não aprecie, diga-se de passagem.. mas isso não interessa para o assunto em questão)
    - ou de um Pop/rock qualquer..
    do qual algum também possa até gostar,
    (sei lá… gosto dos Ornatos Violeta por exemplo, e de outros)
    - mas digo, como sabes, nunca se pensa noutra coisa se não nestes, quando se pensa ou fala na dita MP (música Portuguesa),
    E se já pouco “existimos”, assim ainda menos, pois é sempre de verdade tida como sendo apenas uma arte/expressão deste(s) generos,
    ou sobre formas pouco..
    bahhh.. não vou enveredar sobre o que se deve ou não gostar, muito menos pelas razões pela qual se deve gostar..

    -perdão, dizia eu:
    - que sabe-se sobejamente que se reduz, mesmo os poucos que se lembrem que ela existe, a nossa arte musical, ao Fado e pouco mais.

    Claro que ao menos o Fado existe, e foi um grande paço (com muito mérito), e pessoalmente, por muito que seja difícil satisfazer-me quem executa o fado, e que goste da Amália, Teresa de Noronha, Marceneiro, Rodrigo.. ‎(o ‘Fado’ não tem culpa de eu ser ou não ser existente, ou que me magoe o desprezo que se dá à nossa História da Música.. e a nossa consequente “inexistência” no plano erudito, que todos os países obviamente têm, e por qualquer razão que me ultrapassa sempre ignoramos/omitimos – cresci a ver a nossa completa “invisibilidade” que começa por nós mesmo.. dentro e fora do país..),
    - e sempre me deliciam certas memórias, o deparar-me com pessoas a quererem encostar-se (algumas vezes vi de facto) à janela da cozinha ou da sala, de uma casa de imigrantes, por estar uma portuguesa a cantar..

    (Deus lhe terá dado um dom.. até pode ser, mas cantava numa língua para os outros que mais parecia uma “estranha forma de Russo”),

    - a cantar, com uma voz, empregnada por certo com saudade.. Ver pessoas que se enfeitiçavam pelo seu fado, cantado só para ela, à capela, e sem perceberem uma palavra..
    Comove-me isto no fado, claro, e em qualquer música que como se sabe, ultrapassa e não necessita da “palavra”..
    - Mas dizia, apesar do que digo acima, tenho sempre uma grande tristeza nunca saltar à mente um Carlos Seixas/ António Fragoso/Jorge Peixinho/ Frei Manuel Cardoso.. ,
    - tal como para um alemão acontece com o Beethoven / Bach / Wagner / Weber / Hindemith / Mendelssohn / Strauss / Stockhausen…entre tantos (e assim ao ser tão deles, passar ao resto da Humanidade, e ser nosso.. e que tanto lhes agradeço).
    e tantos outros autores destes dois países, vivos ou não, que possa referir, e que na generalidade mesmo da nossa população só se conhecer alguns dos nomes germânicos com facilidade (e acho muito bem), mas dos nossos… pois.
    Tu sabes, sei que não te estou a dar nenhuma novidade..

    E entristece-me o factor “pequeno” da nossa psique colectiva.. muito mesmo.

    Até mesmo o falar-se de conquistar isto para o Fado como sendo um “pequeno grande orgulho”, me custa ler.
    Não por não gostar de quem fale assim, pois culpa não se tem de se estar sempre desde que se nasce, e antes até, neste nosso “pequenismo” colectivo.
    Tenho sempre presente o que disse há mais de 3 anos, como desabafo, no mural FB, ou “nota” escrita por um amigo comum, sobre um professor de composição numa universidade bastante reconhecida, saber quem era Amália, e não (como seria de esperar a um com Doutoramento na área de composição) um Joly Braga Santos..
    Um professor que surpreendia pelo conhecimento geral a todos por hábito, e que queria ler os Lusiadas na língua “original”.. enfim..

    Pois – O “Cante Alentejano”, e outros genros, assim como a música erudita.. nunca entra na psique “pequenista” da nossa cultura.., da nossa sociedade, e assim promove-se a sua inexistência (como bem sabes)

    Ai Carlos, digo, estou farta e cansada desde quase sempre verificar “não sermos”, de nos ver (auto)apagarmo-nos, mesmo que sem querer.. enfim.

    E tenho de repetir, que pessoas tais como no caso de Rui Nery, com tanta paixão, por esta Arte no nosso país, e competente esforço, nunca reduzem a nossa música ao fado e muito menos ao pop ou assim.. No caso deste docente/investigador, conhece-se bem o zelo e especial dedicação à história da música portuguesa, e o trabalho grande que tem feito sobre o nosso Renascimento e Barroco, entre outras coisas.
    Mas por muito valor que tenham, e têm pessoas como tu e ele, e alguns outros, e que tanto a defendem, o que geralmente tenho sentido, e vejo é..
    a tal falta de amor que culturalmente se instalou, na nossa sociedade geral, por esta Arte do nosso país, esta auto-castração e limitação.., este auto-apagamento.. esta a redução a pouco mais que fado ou pop..
    enfim, isto está longo.. (perdoa-me)

    Beijinho

    • Guida,
      Que eu desse conta, congratulei, com alegria, o facto de o fado ter sido eleito como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO e parabenizei a equipa liderado por Rui Vieira Nery pelo esforço, dedicação e empenho com que se entregaram a esta causa.
      Adiantei que gostaria de ver já a iniciar a preparação de outras candidaturas para que outros patrimónios imateriais nossos fossem apresentados a eleição na mesma sede, nomeadamente, o Cante Alentejano.
      Por último, sem o mínimo de menosprezo pelo feito alcançado e muito menos pelos envolvidos neste processo de candidatura, tentei salvaguardar que este triunfo para a cultura portuguesa não fosse aproveitado para fins centralistas como outrora aconteceu.
      Nada tenho a acrescentar ou retirar ou que escrevi a não ser que nada tenho contra o fado, para que fique salvaguardado.
      Obrigado pelo comentário.