Não sabemos quais os frutos futuros desta tentativa de concertação de posições sobre assuntos comuns relativos à política europeia entre Portugal e Espanha, mas sabemos que se tratou de um primeiro passo que poderá ser bastante importante e propiciador a que, no futuro, se possam juntar outros países.
É certo que a única posição avançada no final do encontro prendeu-se com um assunto que Espanha e, mais tarde Portugal, têm defendido junto da União Europeia – a união bancária. Não estamos muito receptivos a este assunto de poupar os bancos a investidas dos mercados especulativos, mas não se iludam, sem bancos protegidos desse massacre não haverá, nem neste quadro nem noutro qualquer, a possibilidade de empréstimos a taxas de juro aceitáveis para servir o investimento na economia.
É certo que nada foi dito sobre o aliviar da ruinosa política de empobrecimento dos cidadãos a que nos condenaram e condenam, nem sobre a harmonização europeia de uma política comum de segurança Social, tão-pouco reindustrialização do Sul da Europa, sobre as novas medidas impostas que provocarão mais desemprego nem uma palavra, quanto mais sobre uma mutualização da dívida, mas tratou-se de um primeiro passo, que registo e louvo, no sentido da procura de concertação de posições comuns por parte dos países que estão a ser vítimas, por um lado, de uma política monetária que serve apenas um país da União Europeia e, por outro lado, da ganância dos interesses da alta-finança em se apoderarem de sectores dos Estados comprometidos com o bem-estar dos cidadãos – saúde, transportes e educação.
Louvo, pelo que disse, este primeiro passo e aguardo, com a melhor das expectativas, a adesão de outros países a este vital consenso e concertação.
O consenso que Cavaco Silva e seus fiéis seguidores começaram a exigir ao PS, apoiado agora, por interesse eleitoral, pelo governo é de muito inverosímil concretização, uma vez que o que está a ser pedido é que o maior partido da oposição dê o seu aval à política que Passos Coelho, por intermédio de Vítor Gaspar e, mais recentemente, por Poiares Maduro, entenderem encetar ou prosseguir. À vista está que o PS não pode aceitar esse consenso, não com o PSD, mas com este Primeiro-Ministro e seu Ministro das Finanças! Tal como no governo anterior, o CDS não negava um consenso com o PS, mas sim com Sócrates. Sócrates era, então, o óbice; hoje são Passos Coelho e Vítor Gaspar.
Há, no entanto, matéria de consenso possível, exigível diria até, cujo interesse é nacional sobreleva, podendo ser transversal a todas as forças e agentes políticos, uma vez que se centra no domínio das relações internacionais, ou seja, na diplomacia – procurar pontes de concordância e frentes de pensamento e acção comuns junto dos países europeus que estão a sofrer consequências idênticas às nossas.
De tanto se propagar a ideia de não somos a Grécia, com o intuito de vender uma imagem diversa junto da troika, esquecemos que, apesar de não sermos a Grécia, estamos a ser obrigados a desenvolver políticas de brutal pressão sobre os mais desfavorecidos, colocando em sério risco a coesão social, impostas por quem pretende defender, sem olhar a meios, uma moeda que já vimos não estar a servir a maioria dos Estados membros da União Europeia e muito menos os seus cidadãos.
Urge um consenso nesta matéria, que me parece perfeitamente possível e exigível, com um planeamento de acções concretas e bem delineadas, onde o Presidente da República deveria desenvolver um papel de charneira enquanto chefe máximo da diplomacia portuguesa assim como Paulo Portas enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros. O PSD muito poderá fazer junto do Partido Popular Europeu, o PS junto da Internacional Socialista, o PCP com a Internacional Comunista e mesmo o BE com os verdes e outos grupos de esquerda democrática.
Apesar de não sabemos ainda por onde poderemos ir, sabemos já, sem margem para dúvida, que a a actual política do euro não é sustentável para os cidadãos e que será através de árduas negociações com a U.E. e com a Alemanha que teremos de trilhar caminho, seja através de federar a dívida ou de ruptura com o euro.
Até aqui temos caminhado nessas negociações (se é que alguma houve com seriedade) orgulhosamente sós. Exige-se que procuremos, activa e conjuntamente, trabalhar no sentido de encontrar parceiros que confiram maior força negocial, seja junto de outros Estados membros, seja com países que nos possam compreender melhor, como os EEUU e países emergentes como o Brasil, por exemplo.
Este consenso possível e exigível não pode ser feito nem se sustenta em acções de interesse partidário ou eleitoralista, mas na defesa de um interesse nacional facilmente identificável pelos cidadãos, cuja a prossecução se encontra entre as competências de Cavaco Silva.
Mãos à obra Senhor Presidente da República, se é que pretende mesmo consensos e força negocial nas inevitáveis renegociações que teremos de realizar com o poder da União Europeia!
Merkel e Barroso – mudança na política de austeridade?
Fomos ontem surpreendidos por declarações de Angela Merkel e Durão Barroso que apontam para o reconhecimento do falhanço das políticas de empobrecimento dos povos que vêm impondo à Europa sob o nome de austeridade. Cauteloso, Durão Barroso afirma que a actual política de correcção dos défices deve ser combinada com “um ênfase mais forte no crescimento e medidas de crescimento a curto prazo” (link), enquanto Merkel faz um aviso dirigido, em primeiro, lugar aos próprios alemães, defendendo a necessidade de passos mais firmes e decididos rumo ao federalismo europeu, onde todos os países deverão estar preparados para perder parte da soberania nacional a favor de uma soberania europeia (link).
Não sabemos bem o que pretenderá, ao certo, Merkel com esta mudança de discurso político nem em que pontos pretenderá a Alemanha avançar rumo a um maior federalismo. União bancária? União fiscal? Mutualização da dívida? Uniformização dos sistemas de segurança social? Uniformização da legislação de trabalho? Uma incógnita, por ora, mas estou certo de que a Alemanha não pensará em desvalorizar o euro para adequar o seu valor ao da economia europeia como um todo e tenho muitas reservas de que algum dia aceite mutualizar a dívida, a única forma de impedir que as agências de rating ataquem, um por um, cada país europeu.
Mas então o que estará por trás da súbita mudança de Barroso e de Merkel? Tal como muitos fomos dizendo no passado, a prazo, estas políticas de empobrecimento dos povos, com vista a uma desvalorização dos rendimentos da produção por via da redução do valor da mão-de-obra, que a Alemanha impôs, fariam com que a recessão lhes batesse à porta através do forte abrandamento das suas exportações! A Alemanha não quis saber quando a crise bateu às portas dos países do Sul (apelidou-os de despesistas), não se importou que atingisse França (que esperar politicamente dos franceses neste desnorte da U.E.?), mas agora, que já a sente dentro de portas e sabe que se acentuará nos próximos meses ou anos, trata de inverter o processo. Esta mudança de discurso político é o reconhecimento não dito do erro que cometeu ao não observar o quão a sua economia depende da saúde da economia dos outros países europeus, afinal, de todos aqueles que pagou para nada produzirem transformando-os nos meros consumidores dos seus produtos. Por outro lado, faz também prova de que reconhece o problema como europeu e não mais específico de cada país.
Pretenderá Merkel colocar um fim à política de austeridade e fornecer os meios para propiciar o desenvolvimento económico das economias europeias? Temo que não, para já. De momento pensará em rumar a uma União Europeia mais federal, mas onde a Alemanha continue a ditar as políticas mais convenientes para a sua economia, ou seja, pretende avançar para uma construção federalista que outrora sempre negou, mas em em seu próprio benefício.
No entanto, uma coisa é certa, estes discursos, o de Barroso e o de Merkel abrem as portas a uma nova fase onde o diálogo e a negociação se tornam não só possíveis como determinantes., retirando à troika que manda dos países sujeitos aos seus desmandos toda e qualquer credibilidade!
Até lá, até à abertura desse processo negocial, Portugal continuará como tem estado, suspenso, com um governo parado, a não ser que pretenda continuar na senda de impor mais empobrecimento aos portugueses para lá daquele que a troika já impõe, quando o caminho seria, desde já, aprontar-se para ser uma voz activa à mesa de negociações.
Consenso com Seguro – a repentina urgência
Concretizado o primeiro consenso, o que ocorreu dentro do PSD, conseguido através do apoio de Cavaco Silva a Passos Coelho e do regresso dos cavaquistas ao poder – Poiares Maduro e Marques Guedes – estamos agora em plena vigência de um governo de iniciativa presidencial. (ver texto)
Os cavaquistas, desavindos com o governo devido à política desastrosa de Vítor Gaspar, parecem agora optar pela continuidade, acreditando que Marques Guedes e, em especial, Poiares Maduro poderão fazer a diferença na condução de uma política negocial activa com os poderes da União Europeia, em contraponto com o seguidismo cego do Ministro das Finanças. Com Passos Coelho não contam (como poderiam se ninguém crê na sua estatura política?), indiferentes ao que o CDS possa fazer, os cavaquistas partem à conquista da comunicação social e das redes sociais para clamarem um consenso urgente com o PS!
Com o PS? Será?
Passos Coelho não atirou a toalha ao chão conforme anunciou, mas toalha já não tem, tornando-se um Primeiro-Ministro pardo, na sombra de um poder que se lhe viu fugir com o desastre anunciado e a tomada de assalto por parte dos fiéis a Cavaco Silva. Joga agora nos bastidores, na esperança de que, mais uma vez, Vítor Gaspar o consiga salvar. Com efeito, os indefectíveis de Cavaco sempre dominaram a bancada do PSD e dominam agora Primeiro-Ministro.
Mas não lhes basta. É curto. Unidos a não quererem eleições, o PSD encontrou o consenso por essa via (e não foi assim que esta Europa do Euro se construiu desde Maastricht, fugindo de eleições e referendos, tudo combinando e resolvendo pelos burocratas mandatários da alta-finança nas costas dos cidadãos?), mas não quer suportar o ónus da queda do governo sem arrastar o PS!
Mas porquê o PS? Não têm eles maioria absoluta? Não precisam de 2/3 para nada se não querem rever a Constituição!
Será paranóia esta repentina urgência de consenso com o PS?
Não, não é paranóia. Não, não é urgente para os interesses de Portugal. Não, não há necessidade de um entendimento com o PS para encetar negociações com a troika – trata-se de medo!!! Medo, sim, apenas e só isso!
O consenso entre as facções do PSD e Cavaco Silva necessitam de prender António José Seguro a eles, não um consenso com o PS, mas tão-só António José Seguro, pois é o medo do regresso de Sócrates que os une!!! Não se uniram por Portugal, mas por medo que um outro político chegue novamente ao poder! Trata-se do “efeito Sócrates”. (ver texto)
E assim, com politiquices e jogos do poder vai andando este país, governado entre amores de circunstância, apesar dem sólidos compadrios, e ódios pessoais!
E de Portugal quem trata? Os tratantes, ao que vemos!
A continuidade de Vítor Gaspar e a nomeação de Poiares Maduro
Não foi conhecida a razão que Vítor Gaspar terá encontrado para desistir da sua demissão durante o último fim-de-semana em Dublim – partiu daqui com a demissão agendada para depois da negociação das maturidades dos empréstimos e regressa com ânimo para prosseguir.
Sente-se que Gaspar estará convicto de que, abnegadamente, aceitou ir o governo para prestar um enorme serviço ao país e que, volvidos 2 anos, Portugal é demasiadamente pequeno para ele e suas gentes muito pouco inteligentes para o entender. Bateu com a porta por não compreender que o seu orçamento era inconstitucional e disse basta a esta “cambada de energúmenos”, uma vez que só os seus pares das altas instâncias europeias o compreendem e fazem jus ao seu brilho de funcionário da globalização selvagem.
Será que o apoio e solidariedade obtidos nesse fim-de-semana em Dublim foi suficiente para que mudasse de ideias? Não creio, definitivamente. Talvez o apoio de Cavaco Silva a este governo e a nomeação de Poiares Maduro, um académico que Gaspar entenderá estar à sua altura, um par, poderão ter sido decisivos para Gaspar cedesse à pretensão de permanência de Passos Coelho, Primeiro-Ministro cujo conhecimento de governação o Ministro das Finanças pouco respeitará. Aliás, Passos Coelho sem Gaspar não existe sem Gaspar e ambos conscientes disso.
A nomeação de Poiares Maduro inicia uma nova era para este governo, um novo fôlego que quase todos só pensavam ser possível com a demissão de Gaspar. Tem sido enfatizado no currículo no novo Ministro a sua excelência académica e a sua ‘falta de experiência’ prática e política. Lamento não estar de acordo com esta visão simplista porque considero que, para além do brilhante currículo universitário, Poiares Maduro tem experiência como poucos na negociação com os poderes da Europa, salientando o facto de ter sido o advogado da Islândia no processo contra os capitalistas agiotas holandeses e ingleses da Icesave, vencendo o processo junto do Tribunal da Associação Europeia de Livre-Comércio (EFTA), onde se pretendia que os islandeses os indemnizassem pela falência daquela instituição! Poiares Maduro ganhou a causa e libertou a Islândia de pagar a credores agiotas de bancos privados falidos, abrindo um precedente na jurisprudência europeia. Esquecer este facto, dizendo que Poiares Maduro tem pouca experiência, é no mínimo muito pouco sério.
Poiares Maduro tem revelado ser uma pessoa que pensa pela a sua própria cabeça, conhece como poucos os meandros do edifício legal da União Europeia e já demonstrou não limitar a sua inteligência a espartilhos ideológicos defuntos como o socialismo sem classes, a social-democracia onde a Europa se construiu e agora se desmorona e ao liberalismo que o capital agiota está, no momento, a derrotar em toda a linha, não obstante não ceder no fundamento – a democracia e a liberdade dos cidadãos.
Conseguirá o novo Ministro fazer a diferença? Não creio, mas sinto que será uma voz com propriedade e muito activa na defesa possível dos nossos interesses junto dos poderes europeus, eleitos e não eleitos.
E é do que estamos precisados e muito – de inteligência, de uma segurança que não ceda nem a interesses nem a histerismos, e de uma mente que sirva os interesses particulares de Portugal, sem preconceito ideológico que não seja o da defesa dos interesses dos cidadãos, da sua liberdade e da democracia.
É com bastante estranheza que, num momento de crucial importância para todos os portugueses como será o da negociação que Vítor Gaspar levará a cabo sobre o prolongamento das maturidades dos empréstimos, dias 12 e 13 de Abril, no conselho informal de ministros das Finanças da União Europeia, assisto a um total alheamento sobre o assunto, preferindo os órgãos de comunicação social e as pessoas nas redes sociais assuntos como o de um remodelação governamental ou de, tão-só, apupar o Ministro das Finanças!
Não, como nunca escondi, não sou defensor deste governo nem da política encetada e teimosamente prosseguida por Vítor Gaspar, mas reconheço-lhe o mérito de enorme esforço de trabalho e empenho naquilo que se propõe fazer. E acontece que sou português, que me consome diariamente de sobremaneira as dificuldades que os portugueses estão a atravessar, sendo, por isso, difícil entender como é possível que, nesta particular negociação, não se ouçam vozes de incentivo ao Ministro.
Há momentos em que a divergência política deve reforçar o apoio político em assuntos particulares extrema relevância para todos.
Um governo de iniciativa presidencial
Depois do completo falhanço do governo de 2 anos de Passos Coelho, nomeadamente do seu Ministro das Finanças, no que concerne ao controlo do défice, da dívida pública, de uma luta incompreensível contra a Constituição, após uma brutal pressão sobre os cidadãos, seja ao nível dos seus rendimentos, seja ao das prestações do Estado, com a consequente destruição do tecido económico, de empresas e emprego, Cavaco Silva diz não ver sinais de falta de legitimidade e encoraja o governo a prosseguir, abrindo caminho a uma nova fase – um governo de iniciativa presidencial.
Pelo que se percebeu da conferência de imprensa de Passos Coelho, Vítor Gaspar terá acedido a prosseguir, mas permitam-me a franqueza de entender que só terá aceitado ficar até ao final das negociações sobre as maturações juntamente com a Irlanda.
Passos Coelho – e depois do acórdão do Tribunal Constitucional?
Pelo que vou lendo e ouvindo parece que, afinal, as consequências do acórdão do Tribunal Constitucional não serão lá muito famosas para aqueles que defendiam a inconstitucionalidade. Mas será que isso importará a quem governa?
Aparentemente não. Tudo mudou muito rapidamente e Passos Coelho terá cedido à pressão de Cavaco Silva para não se demitir. Já ontem, após longo período de letargia governativa, Passos Coelho acertou o passo com Cavaco Silva afirmando, sem margem para dúvida, que não se demitiria. Mas se não se demite quem arcará com a responsabilidade do falhanço financeiro, económico, social e político?
Para quem afirma que Gaspar não é remodelável, lamento imenso, mas acho que ele já foi, até por sua iniciativa! Tem de haver um rosto responsável! Vítor Gaspar, após Passos Coelho, é o máximo responsável pelos orçamentos reiteradamente inconstitucionais, acrescendo o agora súbito apoio dos cavaquistas a Passos Coelho que deverá ter como contrapartida, exactamente, a saída do Ministro das Finanças bem como uma renegociação com a troika.
Mas será a única alternativa de Passos Coelho? Não, não me parece, até porque, após receber este recente apoio de Cavaco Silva, poderá muito bem forçar a permanência de Gaspar para afastar o ónus da tutela do Presidente da República.
No entanto, parece-me pouco provável o êxito de uma aproximação ao PS, uma vez que Seguro está agora em posição de intransigência quanto à demissão do governo, restando a Passos Coelho, para agradar a Cavaco Silva, a tentativa de encontrar ministros sem filiação partidária de áreas mais próximas do PS.
A ver vamos se será Passos Coelho ou Cavaco Silva a ficar na dependência um do outro, sendo que, se não houver remodelação no Ministério das Finanças, vamos entrar num penoso período de apodrecimento das condições governativas deste Primeiro Ministro e num escalar da indignação nas ruas sem precedentes.
Passos tem de optar. Ou Gaspar ou novo fôlego para o governo. Não tem outra escolha uma vez que não há remodelação que permita novo fôlego com Gaspar. Ficará para resolver se Passos aceitará ficar refém de Cavaco Silva ou se será este que, devido ao seu apoio explícito ao governo, ficará coagido no seu papel de Presidente da República pelo Primeiro Ministro.
E sobre tudo isto não é seguro que tudo fique resolvido no Conselho de Ministros que ocorre por esta hora. Poderá ser assunto que se irá resolvendo nos dias vindouros.
Odiado ou endeusado o certo é que Sócrates não deixa os agentes e comentadores políticos indiferentes, desde os membros do seu partido, passando pelas facções do PSD, até a Cavaco Silva. Parece que, num assomo de ânimo, todos mudaram de atitude, passando de um estado de “banho maria” ou acentuada letargia para uma euforia interventiva que há muito não assistíamos.
Seguro, ainda antes de Sócrates ser entrevistado, em tempo de apenas anunciada, transforma-se de um “respeito pelas instituições democráticas” a um firme adepto de uma renegociação inadiável com a troika (desde sempre exigida pelo BE e pelo PCP), anunciando uma moção de censura ao governo no mesmo dia que não votava a favor de uma exigência do PCP para a demissão do governo. Ontem, depois do anúncio do Acordão do Tribunal Constitucional, veste a pele do intransigente face à continuidade do governo e à posição de Cavaco Silva, exigindo a demissão do governo e eleições imediatas, denunciando, talvez, a pressa, a sua urgência de chegar a Primeiro Ministro enquanto é líder do PS!
Passos Coelho, que vinha preparando o caminho para a sua demissão através de uma estratégia de confronto aberto contra a Constituição através de pressões ao Tribunal Constitucional, evidenciando uma anemia governativa cada vez mais acentuada, surge agora com o não me demito, não fujo e estou aqui numa missão de serviço até ao final do mandato.
Cavaco Silva, após longos períodos de silêncio, minando junto dos cavaquistas uma oposição surda, mas impiedosa, ao governo, surge agora, mais concretamente no dia anterior ao anúncio do acórdão, a mandar em Passos Coelho, quase exigindo que não se demita e a acusar o PS de se estar a afastar de um entendimento no cumprimento do actual status quo e, não menos peremptoriamente, anunciando que não encontra nenhum sinal que indique uma crise política (deve ter estado fora do país a 15 de Setembro do ano passado e a 2 de Março deste ano), transformando-se, assim, no maior apoiante explícito de Passos Coelho. Cavaco Silva rasgou, afinal,o tal livrito que escreveu sobre o que deve ser um Presidente da República, transfigurando-se num Presidente não só publicamente interveniente como, muito especialmente, no principal actor político do momento.
Sócrates deve estar agarrado à barriga de tanto rir com o que vai assistindo, constatando que, gostem ou não dele, ao não deixar nem apoiantes nem adversários indiferentes, é ele que está, só com o seu regresso, a marcar as atitudes dos outros e a agenda política.
E isto digo sem apreciação da bonomia do constatado. Digo-o para o bem e para o mal.
Dois anos após silêncio voluntário, Sócrates regressa sem surpresas e sem admitir os graves erros que cometeu, mas é verdade que regressa inteiro, com a pujança que se lhe reconhece.
Não tenho eu a mínima dúvida de que o seu 1º governo foi o melhor governo português desde Abril, o único que reduziu despesa e, simultaneamente, conseguiu que a economia crescesse acima de 2%, mesmo recordando o autoritarismo da Ministra da Educação, responsável pela destruição do sistema de ensino artístico especializado, e reconheço, sem qualquer rebuço, que na área dos partidos da governação, nunca houve um político com semelhante arcabouço, seja na retórica, seja na truculência, seja na capacidade de convencer e arrastar eleitorado consigo.
Sobre a entrevista, reconheço que esteve muito bem onde se esperava, onde não precisava de simular – na denúncia, à vista de todos, da deslealdade de Cavaco Silva para com o seu 2º governo, em especial na força que deu a um Passos Coelho para não aceitar o PEC IV e, por outro lado, em afirmar que a inviabilização desse pacote é que esteve na origem do pedido de resgate, sendo que os responsáveis foram aqueles que o inviabilizaram.
Em abono da verdade, até à inviabilização do PEC IV, Sócrates tudo fez, reconheçamos com humildade a verdade, para evitar um resgate que colocasse em causa a soberania nacional, tal como o caminho que Rajoy vem trilhando, optando por um resgate parcial à banca.
No entanto, Sócrates falou de si, falou em sua defesa, não se dirigindo em momento algum aos portugueses, nunca admitindo erros gravíssimos que cometeu e é isto que exijo, enquanto cidadão, dos governantes – assumir a quota parte de responsabilidade. Vejamos:
1 – se é verdade que Sócrates tudo fez para evitar um resgate total, tentando seguir de PEC em PEC sempre com a aprovação de todas as instâncias europeias, não consegue explicar o inexplicável – como é que, se sabia as gravíssimas consequências de um resgate, aceita negociar e assinar um memorando para o efeito num governo de gestão.
O facto de Sócrates ter feito um acordo para o resgate, quando sempre se mostrou contra ele e diz foi a oposição que o provocou levando à sua demissão, só podemos deduzir que o fez como vendeta para os vindouros. Ora a sua vendeta não atrapalhou os governantes vindouros, mas sim os cidadãos.
2 – diga Sócrates o que disser, o teor constante nos acordos para as PPP’s das SCUT são autênticos contratos onde todos os riscos de exploração são garantidos pelo Estado e os lucros seguros para os privados. Por outo lado, ´contas todos fazemos, a questão está em como as fazemos – em abono da verdade àqueles 19 mil milhões assumidos há que acrescentar mais uma parcela a adir, a receita conseguida pela pagamento das portagens pelos cidadãos!!! O Estado assumiu um compromisso de 19 mil milhões, mas os cidadãos ficaram com esse mais os custo das portagens – foram taxados 2 vezes sem remissão!!!
3 – não há candura de olhar ou de expressão facial que consiga explicar ou fazer esquecer o maior desconchavo da sua governação – a nacionalização do BPN (ver aqui)e dos depósitos do BPP! De momento a conta vai já acima dos 7 mil milhões e Sócrates sabe bem que, não fora este erro imperdoável de colocar os cidadãos a pagar a falência de um banco privado, o PEC IV não teria sido, pelo menos tão cedo, necessário nos termos em que foi acordado, afinal com quase os mesmos termos que viria a ser assinado o memorando de empobrecimento.
4 – não lhe foi perguntado nem teve a iniciativa de explicar qual a razão, decidida a nacionalização do BPN, de não nacionalizar a SLN, Sociedade Lusa de Negócios (ver aqui), a principal accionista do banco, detentora de outras empresas lucrativas, permitindo que os accionistas responsáveis pela iminente falência, não respondessem diante dos credores, dandom início a uma fuga de capitais
Dito isto, ficou a saber-se, se é que alguém duvidava, de que o PS tem um líder natural que não prevejo que pretenda querer vir a ser Presidente da República tão cedo e, por outro lado, que o PSD não tem nenhum político no activo com as capacidades de José Sócrates.
Fiquei, contudo, sem saber se já haverá um acordo para um futuro governo com Paulo Portas. Sim, isso fiquei sem saber.
