Set 042012
 

O António Pinho Vargas produziu um texto sob o título “Contado ninguém acredita (excepto aqueles que passaram por isso)” sobre o ensino especializado da música em Portugal nos últimos 30 anos que é, apesar de necessariamente resumido, uma visão histórico / factual alargada do sector, apontando para muitos aspectos que não correram conforme deveriam, em especial no que diz respeito às “disfunções da legislação e dos conflitos práticos verificados (…)”, o qual preferiu, como forma, apelidar de “relato pessoal”.
Antonio Pinho VargasO que ora escrevo não faz qualquer sentido sem previamente se ler o texto original, a fonte, que me motiva e orienta nas considerações que se me oferecem, não tanto relativamente à justeza dos factos e consequências, com os quais estou de acordo, mas em contribuir, também com factos vividos na 1ª pessoa, que possam ficar assim escritos para quem um dia pretenda investigar com profundidade e fazer História, não correr riscos de cometer, involuntariamente, inverdades como o de atribuir a autoria do teor da reforma do Conservatório de Lisboa de 1919 a Vianna Da Motta e a Luís de Freitas Branco.
António Pinho Vargas atribui, de um modo geral, a responsabilidade sobre o sucedido no ensino especializado de música a uma «manifestação esplenderosa de uma carecterística atávica e medíocre e de uma falta de visão de futuro nos marca o ser colectivo e, também ao “medo do debate”, “o medo do confronto entre ideias diferentes”, ao “medo da divergência” (…) que “remete para hábitos autoritários enraizados há longo tempo (…).»
Não descartando estas evidências, não posso deixar de acrescentar que há que juntar, a perseguição pessoal, o arregimentar de interesses, o compadrio, influências partidárias funestas e até corrupção como origem da muita asneirada que foi feita, para além da vulgar incompetência, transversal à sociedade portuguesa, incompetência essa que sempre se revela tanto mais atrevida quanto se encontra aliada à consciência da pequenez de alguns agentes e grupos.
Comprovar o que acabo de escrever implica, não necessariamente a invocação de nomes, mas o relato de muitos episódios e processos que, por força de circunstâncias familiares e, mais tarde, no decorrer da minha actividade profissional e também enquanto interessado em conhecer e reflectir sobre o assunto em apreço, bem como bem como no desenvolvimento de actividades de cidadania que me pareceram adequadas.

1 – Pinho Vargas inicia o seu “relato” aquando da constituição das Escolas Superiores de Música (ESM’s) de Lisboa e do Porto ocorrido entre 1983 e 1985 e anos seguintes. Começarei por aí, então, tentando respeitar a ordem cronológica factual, muito embora tenha de recuar, por vezes, algumas dezenas de anos para justificar algumas das considerações que me parecem pertinentes.
Com efeito, a 1ª alteração digna de registo ao sistema de ensino artístico especializado após o 25 de Abril (a anterior ocorrera com Veiga Simão em 1973) ocorreu com a implementação de 2 processos concomitantes que não podem ser dissociados para melhor se compreenderem – retirar o nível de ensino superior dos Conservatórios com mais de 200 anos de experiência e a sua inserção em 2 novas escolas criadas para o efeito, as ESM’s. O arranque das ESM’s iniciou-se através da nomeação governamental de 2 pessoas, uma para Lisboa e outra para o Porto, para nomearem uma Comissão Instaladora para as ESM’s, desde logo enquadradas no ensino politécnico, enquanto que aos professores dos Conservatórios era pedido, com muita veemência, com ameaças de represálias, que assinassem um documento onde se assumiam como professores do ensino não superior e a sua integração no quadro do ensino genérico até ao 12º ano.
Ensino MusicaAntónio Pinho Vargas (APV) denuncia vários aspectos risíveis no seu entender sobre este desmando, com os quais estou plenamente de acordo, aos quais acrescento mais algumas considerações. As tais comissões instaladoras das ESM’s foram constituídas por pessoas indigitadas pelo Ministério da Educação (ME), que me recuso a avaliar o mérito por não ser relevante para o efeito, pessoas essas que, apesar de cumprirem com a constituição das mesmas, os critérios que terão sido utilizados são incompreensíveis por não respeitarem a experiência profissional dos professores, nem a pedagógica nem a artística e, mais grave, sem respeitar aqueles que anteriormente tinham entrado por concurso público, com prestação de provas públicas, nos Conservatórios no tempo da ditadura nos Conservatórios, sede de recrutamento dos novos professores de ensino superior.
É certo que o ME não fez o que seria evidente, qualificar os professores com reconhecido mérito com habilitações próprias para leccionar no ensino superior como faziam há décadas nos Conservatórios, mas a verdade é que esse atavismo e incompetência servia que nem uma luva os intentos dos nomeados para as comissões instaladoras para assim, a seu bel-prazer, convidarem quem bem entendiam sem ter de dar explicações de qualquer teor. Diz APV que se exigia aos novos professores das ESM’s uma licenciatura para poderem leccionar, mas aqui trata de um lapso, esquecimento do autor, uma vez que nessas comissões instaladoras havia pessoas não licenciadas e os professores escolhidos por quem, realmente, despotamente os nomeou, a esmagadora maioria não tinha licenciatura alguma, a começar pelos próprios nomeados pelo ME!
Paralelamente a este processo, nos Conservatórios a perplexidade, a incompreensão e a revolta ia-se adensando, fosse pelas pressões e chantagens exercidas pelo ME, então representado por umas estruturas apelidadas de GETAP, para as quais tinham sido nomeados ex-alunos da pessoa que tinha obtido a nomeação governamental as quais, por coincidência ou não, eram militantes do PCP, partido que muito se empenhou internamente em fazer cumprir os dictats desses seus dois membros, fosse por verem ser nomeados para as ESM’s professores com menos experiência profissional, com menor relevo artístico e, mais grave, que não tinham ficado aprovados para leccionar curso superior nos tais concursos públicos a que se tinham submetido!!!
Neste contexto, a revolta dos músicos e professores foi-se tornando mais audível durante cerca de 2 anos ( como entender que, por exemplo, no Porto, Manuela Araújo, Hélia Soveral ou até Fernanda Wandscheider não fossem convidadas para a ESM e, em Lisboa, a Gilberta Paiva ou a Ana Domingues o mesmo acontecesse, entre outros?) até que foi abrandando, vergando-se diante das chantagens exercidas, nomeadamente a de que se não assinassem não pertenceriam a quadro nenhum, tendo terminado este processo com a assinatura de todos os professores dos Conservatórios de Lisboa e do Porto com a excepção de um que nunca assinou, que obrigou a secretaria a continuar a aceitar a inscrição de alunos para o curso superior da sua classe, situação que manteve até à sua morte, mesmo com a ameaça não cumprida de não passar diploma nem certificados de habilitações aos alunos que concluíssem o curso superior de piano. (o facto de este professor nunca ter assinado obrigou ao não enquadramento dos professores no quadro do ensino regular e a constituição de um quadro provisório que se manteve até há 2 ou 3 anos, o qual veio a provocar injustiças mais tarde, uma vez que os professores contratados posteriormente deixaram de poder entrar para o quadro devido a não haver nenhum e permaneceram na condição de contratados anualmente até há bem pouco tempo)
A situação dos “medos” que referes, APV, é verdadeira, tudo começa no sector do ensino especializado de música com grandes conversas de corredores, mas na hora da verdade todos se tornam coniventes, ou melhor, quase todos. Este alarido de revolta foi muito idêntico ao que viria a verificar em 2007 com a 2ª reforma pós 25 de Abril, ocorrida em 2007 – muita revolta, gente na rua de punho erguido mas, paulatinamente, todos foram aceitando acomodados à nova e ainda mais empobrecedora reforma, como falarei mais adiante.
É também diante deste autêntico despotismo tirano, levado a cabo por 2 pessoas, que eram quem, de facto, tudo urdiam e ordenavam, que esteve sempre presente na constituição das ESM’s e na retirada dos cursos superiores dos Conservatórios que não posso deter-me pelos adjectivos de atavismo ou de incompetência ou de medo e me obrigue, por respeito pela verdade, a falar cabala, de compadrio, de perseguição pessoal e da mais dura das injustiças infligidas com intenção e orientadas pela maldade!
Relatados estes pormenores não dispiciendos e relevantes para o apuramento da verdade, confirmo o afirmado por APV e, neste particular, “a desconfiança estava presente desde início em relação à actividade artística” e, por outro lado, a desvalorização do saber prático face ao teórico, muito embora como bem aduz que, no «momento da “verdade”» (…), quando era preciso contratar um músico para um concerto, “sempre foram os da competência especificamente musical” os escolhidos! É curioso até que quando um músico estrangeiro chagava a Portugal e precisava de um pianista, para além de não serem os tais nomeados pelo ME os escolhidos, estes indicavam outros, pelos vistos em reconhecimento da sua mediocridade.

2 – Por todos estes motivos, e agora em desacordo, as ESM’s não começaram nada bem nem produziram nos primeiros anos resultados superiores aos antigos Conservatórios, quando tinha um Plano de Estudos bem mais ambicioso.
Aconteceu que, paralelamente ao facto de não terem sido nomeados os músicos / professores mais competentes, o processo de instalação destas escolas infligiu-lhes um descrédito generalizado entre quem pretendia prosseguir estudos, provocando um autêntico êxodo para o estrangeiro dos jovens músicos, fosse para arranjar o tal diploma que afinal o Conservatório deixou de proporcionar (e arranjar diplomas lá fora não é tão difícil assim em muitas escolas e doutoramentos idem aspas, veja-se actualmente a procura de sei lá que escolas no Reino Unido, por exemplo), fosse porque pretendiam conhecer e viver o ambiente cultural noutras paragens onde ele sempre foi mais rico, fosse porque pretendiam estudar com determinado mestre. É curioso, APV, que é ainda a romântica ligação mestre/discípulo que melhor resultados produz, mesmo que exterior ao ensino formal. Este fenómeno, que está ainda por estudar, diz-me a constatação pessoal que, talvez por ser na estreita relação cada professor e cada aluno constituem, que o ensino e a aprendizagem se encontram e se fundem numa troca enriquecedora para ambos e que os sistemas de ensino formal ainda não conseguem respeitar por mais tentativas que se façam.

3 – Dito este aparte, repito o que venho dizendo há cerca de 10 anos a esta parte – nunca tivemos tantos e tão bons músicos como hoje! A pergunta é, como é que apareceu esta geração? A falta de resposta científica a esta questão viria em 2007 a sair-nos muito cara!
Os motivos poderão ser vários, conseguindo eu descortinar nos meus pensamentos 3 ou 4, mas 2 há que sobrelevo: o aumento exponencial de escolas de ensino artístico especializado a partir de finais da década de 80 do sec. passado e os “estrangeirados” que chegaram ao ensino superior e não superior, os tais que tinham partido para estudar fora e regressaram.
Temos hoje 6 escolas públicas e cerca de 90 particulares e cooperativas, cobrindo quase todo o território nacional de Norte a Sul, do litoral ao interior, criando um sistema global onde, ao contrário do que alguns possam pensar, muitas particulares e cooperativas em nada ficam aquém na qualidade em relação às públicas, contra 14 escolas em 1985 e apenas 5 em 1974. É obra!
Por outro lado, aumentaram também de nº as ESM’s bem como os cursos de pedagogia musical nas Escolas Superiores de Educação e fora delas, cujos professores são, antes de mais, músicos e com algum desdém, diga-se, pela pedagogia.
A maioria destas escolas foram alimentadas ou dirigidas pedagogicamente pelos tais estrangeirados que rumaram mundo afora para aprender e pelos frutos das ESM’s, em especial, através dos cursos que não de instrumentistas (estes resultados tardariam mais a obter-se por razões que não cabe aqui desenvolver).
Convém é dizer que os músicos que, de repente se viram obrigados a conseguir diplomas universitários que os habilitassem a leccionar, rumaram em larga escala para o estrangeiro e quando regressaram foram os maiores obreiros da substancial melhoria do ensino da música em Portugal.

4 – o sistema ia fluindo sem grandes modificações até a Maria de Lurdes Rodrigues se lembrar que o ensino da música deveria ser para todos com a qualidade e exigência dos Conservatórios, encomendando um cientistas da educação que lavrassem um estudo que dissesse isso mesmo, considerando o último bastião de ensino de qualidade como elitista, como se todas as crianças fossem obrigadas a ter vontade para o fazer. Inventaram de tudo nesse estudo, sobre o qual me pronunciei oportunamente, até que cientificamente não se provava que fosse benéfico começar a estudar música desde tenra idade! Mas pergunta-se isso a um ginasta? A um jogador de futebol? Porque equacionar e pôr em causa uma coisa que toda a gente sabe, mas não consegue cientificamente provar? Todos sabemos que qualquer actividade que obrigue a grande aprendizagem de destreza físico-motora e psíquica, quanto mais cedo se começar mais esse desenvolvimento se torna natural, não obstante o desenvolvimento intelectual indispensável à interpretação possa vir mais tarde. Mas foi por aí que pegaram e pelo facto de como é elitista devemos generalizá-lo e torná-lo curso profissional. Foi isto que iniciou o referido estudo e que uma tal de Agência Nacional para a Qualidade (ANQ) tratou de pôr em prática – abolir sem conhecer os métodos de avaliação dos Conservatórios e obrigarem-nos a seguir o modelo do ensino genérico, introduzir o regime integrado, desenvolver o articulado e abolir o supletivo ( coisa que poucos sabem, mas o regime onde todos nós estudamos não é mais financiado pelo Estado nem sequer reconhecido!!! ).
E em 2007, começa outra onda de indignação junto do ensino artístico especializado não superior com este desmando de gente incompetente e apostada em destruir um sistema que estava a produzir excelentes resultados como vimos atrás, já com as ESM’s a funcionarem com qualidade. Várias petições foram feitas, uma das quais me orgulho de ter elaborado e que conseguiu, no dia em que foi entregue aos destinatários, o ME a reconhecer, pela primeira vez, a existência não de 6 escolas públicas, mas de um sistema de 93 escolas que abrangiam todo o território nacional. Este facto obrigou os estudiosos e refazer o estudo, só elaborado junto das 6 públicas, e publicar, sem nada dizerem um outro relatório final já com as 93. Diga-se que relatórios finais desse estudo tenho 3 versões à escolha, nunca tendo os autores assumido tratar-se de mais do que um estudo. (ler textos aqui e aqui)
No entanto, António, mais uma vez, após o ruído inicial, tudo se acomodou e calou e há até já quem defenda esse despautério onde os Planos de Estudos foram reduzidos, os programas de exame quase basta saber onde é o dó e pouco mais. Primeiro o medo da mudança, depois o medo de ficar sem trabalho, depois a acomodação, e assim vai sendo sempre.

5 – Depois de 2007, em 2009, o governo Sócrates ainda descobre mais uma malfeitoria – retirar do Orçamento de Estado o financiamento das escolas de ensino artístico especializado e financiá-las através de um fundo europeu, o POPH, com excepção das regiões da Grande Lisboa, Algarve e Madeira que não podem receber financiamentos do QREN pelo facto de se tratarem de regiões onde o rendimento per capita se encontra perto da média da União Europeia.
Tudo isto se passou no maior silêncio, sem o menor clamar por parte das direcções das escolas afectadas e até com alguns directores a dizer que seria bom!!! A coisa era boa de ver: o QREN só estava negociado até ao final de 2013; a disponibilização das verbas é sempre tarde e más horas, sendo hoje os ordenados com meses de atraso uma constante e não uma excepção; nenhum governo futuro terá coragem de voltar a inscrever verba para financiar o sistema no OE! Isto foi a machadada com uma triste perspectiva de, a muito breve prazo, muitas escolas se tornarem insolventes, com o consequente despedimentos colectivo.

6 – E essa coisa do Processo de Bolonha? Todos sabemos do embuste que isso é, mas então aplicá-lo às ESM’s é uma perfeita barbaridade, quebra os Planos de Estudo, interrompe os estudos pela existência de 2 ciclos superiores trazendo ao ensino e à aprendizagem apenas confusão, confusão essa que é impossível de aplicar a não ser formalmente para “inglês ver”!

Mas será que tudo vai mal, António? É minha convicção que hoje temos, apesar da veracidade do que escrevi, um sistema de ensino especializado de música que é mais eficiente e eficaz que o de outrora a atender ao facto que acima disse: nunca houve tantos e tão bons músicos em Portugal em tempo algum e, se assim é, os professores terão de ser, obviamente, melhores, mais bem preparados e melhores músicos.

Mas as tais maldades, a tal incompetência, o desprezo pelos artistas já não existe? Existe, como antes, mas o que há é mais músicos e professores:
- Como entender que continuem os habilitados com o Curso Superior dos Conservatórios continuem sem equivalência académica superior!
- Como entender, por exemplo que um Eurico Carrapatoso tenha saído do ensino superior por falta de habilitações académicas? Não se entende! Como é que um Virgílio Melo não tem lugar no ensino superior? Ninguém entende!
- Como entender um concurso público onde só podem concorrer os contratados anteriormente como aconteceu há 2 ou 3 anos nos Conservatórios? Corrigiu-se uma injustiça (haver professores há muitos anos contratados sem vínculo) com um concurso público onde só podem concorrer alguns? Não, não me ajeito com estes arranjos nem que sejam para repor justiça. A solução era reconhecer a injustiça e admiti-los no quadro sem concurso!
- Como entender, António, que este ano, ouve bem, este ano, alguns Conservatórios tenham aberto concursos públicos onde um dos pontos de valorização mais elevado era o de terem já estado nesse Conservatório? Isto é hediondo, nada tem a ver com legalidade nem com igualdade, nem com respeito pelas pessoas que trabalham! Se querem admitir os que já lá estão, tenham os directores a coragem que se exige de, junto de ME, admitirem para o quadro quem sabem que precisam e estão satisfeitos com o trabalho, mas não abram concursos públicos, é uma intrujice.

Com um abraço me despeço, agradecendo o teu texto que me fez reviver estes assuntos. Como vês em nada obsto ao que dizes, bem pelo contrário, tratou-se apenas de adiantar mais alguns factos e processos que corroboram as tuas conclusões.

ps: sobre o ensino artístico especializado de Música ver textos por ordem cronológica inversa.

Ago 272012
 

A entrevista concedida por António Borges a Judite de Sousa marcou a verdadeira “rentrée” política – as suas palavras sobre a RTP caíram como uma bomba no “Sol” e, com mais estilhaços na TVI, agitando todos os partidos, fora e dentro da coligação governamental, incluindo no próprio PSD. Mas o que há, concretamente, de novo nelas?
Antonio BorgesNada, rigorosamente nada, para além de uma manobra politiqueira ao jeito de Miguel Relvas! Em descrédito no seu partido e até entre os seus pares, Miguel Relvas não ousou ser ele próprio a encetar esta manobra, tendo António Borges anuído a ser seu mandatário para o efeito, não se sentindo mal na pele de defesa dos interessados em deitar a mão à RTP para deterem o domínio do audiovisual e, evidentemente, os seus próprios.
Mas qual a necessidade desta manobra que apelidaram de concessão? Porque não avançou Relvas para o anúncio da privatização, que são os seus intentos e, para mais, é matéria que está incluída no programa deste governo de desmantelamento do Estado? O Serviço Público de Audiovisual, assunto tão caro para a dita esquerda? Não, com esse assunto pode Relvas bem, uma vez que nunca os seus defensores se juntaram para definir o que deve ser este serviço para além de despejar notícias e de dar voz aos partidos parlamentares – sempre se detiveram a reclamá-lo apenas em momentos em que se fala de privatização, mas nunca o definiram, nunca mostraram o quão é um serviço fundacional para a identidade, cultura e soberania nacional. (ver o escrito sobre o assunto em: 2003; 2004; 2009)
Miguel RelvasO que verdadeiramente entalava Relvas era a oposição da TVI e, em especial, da SIC, cujo patrão, Francisco Balsemão, moveu todas as suas influências para evitar o que a privatização implica – a falência da SIC e da TVI por ausência de mercado de publicitário que sustente 4 canais ou mesmo 3!
Devido a este obstáculo é que Relvas teve de engendrar esta manobra politiqueira, aliviando já a carga aos canais privados existentes através do anúncio do encerramento da RTP 2, para o qual não se encontra justificação que não esta, uma vez que poderia permanecer aberto, para prestar apenas o Serviço Público Audiovisual financiando-o através da taxa na energia eléctrica! Mais tarde, depois de lançada esta bomba e deixando os estilhaços produzirem o efeito esperado, desistirá, magnanimemente, da concessão, revertendo-a em privatização, para apaziguar o CDS, e distribuirá o valor da taxa incluída na energia eléctrica pelos outros canais privados a troco de quebrar o limite imposto de 6 minutos/ hora de publicidade do canal a privatizar, a contento de Balsemão e da TVI.
O que Miguel Relvas esquece com frequência é que ele não é o único espertalhaço e, por outro lado, o ditado de “todo o burro come palha…” nem sempre funciona. É certo que já há muitas pessoas bem intencionadas revoltadas com o que António Borges anunciou, mas urge que nos unamos em torno do essencial – a defesa da manutenção da continuidade da RTP 2, da sua posse total pelo Estado, para acautelar a soberania nacional e, por outro lado, encontrar uma lata definição do que deve ser o Serviço Público de Audiovisual, em especial no que concerne à identidade, educação e cultura e sua divulgação, que tarda há anos, parecendo que a esquerda só se mobiliza para este assunto quando os sinos já dobram, em vez de atempadamente trabalhar para evitar o descalabro que se anuncia há décadas.
Por último, mas não menos importante, estranho, com perplexidade, o silêncio do Secretário de Estado da Cultura e das pessoas ligadas ao sector pelo silêncio em relação à preservação do património imaterial, de valor inestimável, que representa o espólio da RTP e da Antena 2, constituído ao longo de décadas, nada fazendo para que ele se mantenha na posse do Estado e que haja um canal público para o divulgar.

Mai 232012
 

Visão de Kevin Spacey sobre a pretensão dos conservadores nos EUA pretenderem cortar nas artes e na cultura, mesmo aliando o conceito de “entertainment” como aliam, mas, simultaneamente, a visão económica que releva.

Kevin Spacey


Abr 242012
 

Na Outra MargemO saudoso programa radiofónico de Manuela Paraíso, Na Outra Margem, o único em Portugal inteiramente dedicado divulgação dos compositores e intérpretes portugueses de música erudita de tradição europeia, está de regresso já no dia amanhã, dia 25 de Abril, agora em formato de podcast, disponível para todos os que pretendam ouvir, com o conforto de o poderem fazer no dia e à hora mais conveniente para cada qual, contribuindo assim para a preservação das gravações que se venham a efectuar, tal como anteriormente.
Manuela ParaisoManuela Paraíso acaba de inaugurar um novo espaço na net exclusivamente dedicado ao programa, onde todos poderão interagir com a autora e, talvez mais importante, continuarem a contribuir, via email, com informações sobre eventos com a finalidade de retomar a mais completa agenda do que, neste arte, se vai fazendo por músicos portugueses.
O primeiro programa desta série estará disponível já a 25 de Abril, sendo inteiramente dedicado a Marcos Portugal, deixando um excerto da sua apresentação pela autora:

Foi o mais famoso compositor português de todos os tempos. As suas óperas foram apresentadas milhares de vezes, na Europa e no Brasil, a sua música sacra tocada nas igrejas portuguesas durante mais de um século. Sobre ele perduram, apesar disso, o desconhecimento e uma série de mitos infundados. Nos 250 anos do seu nascimento, Marcos Portugal é evocado numa série de iniciativas, algumas já decorridas
Manuela Paraíso em “Na Outra Margem”

Saudemos, portanto, o regresso do Na Outra Margem e endereçamos à autora sinceros parabéns por mais este acto desinteressado de coragem e militância activa em prol dos músicos e da música erudita de tradição europeia.

Mar 142012
 

O projecto A Imagem na Arte [IMAGEM_NS] é um programa associado ao CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) que visa promover “… a reflexão, o diálogo, a criação …, O SENTIDO DA ARTE”.
A sua apresentação oficial ocorrerá no Centro Nacional de Cultura, na Galeria Fernando Pessoa, a 16 Março 2012 das 16h às 19:00 horas, num Encontro / Conferência com a presença da mentora do projecto, Alice Valente Alves e a presidente do CLEPUL, Annabela Rita.

A Imagem na Arte - [IMAGEM_NS] - Conferência / EncontroEsta Conferência / Encontro contará com a presença de:
* Guilherme D’ Oliveira Martins – Presidente do Centro Nacional de Cultura
* Annabela Rita – Presidente do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).
* João Valente Aguiar – Investigador do Instituto de Sociologia da FLUP (Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e Director da Revista «Arte e Sociedade»
* Manuela Paraíso – Jornalista/Divulgadora da música erudita portuguesa e autora do programa de rádio «Na Outra Margem».
* Alice Valente Alves – Autora de projectos da Imagem – Poesia, Pintura, Desenho e Fotografia – no âmbito da Criação Artística.


Reproduzimos texto de apresentação e programa:

Este ENCONTRO / Conferência, com a abertura às 16:00 horas por Guilherme D’ Oliveira Martins e com a Coordenação-mesa entregue a Manuela Paraíso e a Annabela Rita, pretende criar um diálogo aberto com todos os presentes, sendo dividido em duas partes com as seguintes intervenções (que poderá ou não ocorrer por esta ordem):
- Annabela Rita e Alice Valente Alves farão a apresentação do «[imagem_ns]», projecto associado ao CLEPUL centrado – na reflexão, no diálogo e na criação – da imagem (e imagens) e o sentido da arte;
- João Valente Aguiar irá pronunciar-se sobre “Poéticas da Imagem”;
- Alice Valente Alves, apresentará o projecto «CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura» através da projecção das 72 obras, em díptico, das 8 das nove cores já realizadas e apresentadas até ao momento.

apoios:
Centro Nacional de Cultura;
CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias);
DiFundART – divulgação de artistas e eventos

Nov 292011
 

Amalia RodriguesA escolha do fado como ‘Património Imaterial da Humanidade’ pela UNESCO é motivo de orgulho para Portugal, seja pelo reconhecimento da sua qualidade artística intrínseca, ainda hoje muito devedora a Amália Rodrigues, seja pela inscrição inédita de uma manifestação artística portuguesa naquele lote de tão difícil acesso.
Uma palavra de reconhecimento também para o grupo de trabalho liderado por Rui Vieira Nery que, de forma tão consistente, elaborou e apresentou a concurso a proposta votada por unanimidade.
Dito isto, e com alegria, celebremos este momento de satisfação colectiva e que ele sirva para nos incentivar a apresentar outras candidaturas ao mesmo lote de eleitos de manifestações artísticas bem nossas, como por exemplo o Cante Alentejano, antes que ele se eclipse por completo das nossas salas de espectáculo.
Por último, desejo sinceramente que este triunfo para Portugal não desenvolva qualquer tentação centralista de conversão do fado em emblema de canção nacional, triste sina que já vivemos durante longos e obscuros 48 anos, como aconteceu com a calçada lisboeta, transformada na designação hoje corrente de calçada portuguesa, como se todo o Noroeste peninsular, da Beira Alta para cima, tivesse transfigurado o cinzento da sua granítica paisagem no alvo calcário do Sul da Península.

Jun 222011
 

Francisco Jose Viegas - Dicionario de Coisas PraticasFrancisco José Viegas lança hoje, dia 22 de Junho, o seu último livro, ‘Dicionário de Coisas Práticas’, uma colecta das suas crónicas diárias no Correio da Manhã, na Bertrand do Chiado, às 18:30 horas. A apresentação estará a cargo de director daquela publicação, Octávio Ribeiro.

Como se compreende esta iniciativa estava já agendada antes do convite que o autor recebeu para Secretário de Estado da Cultura do actual governo.



Jun 102011
 

PortugalDoces lembranças da passada glória,
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara: mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

Luiz Vaz de Camões

Mai 132011
 

Concertos à Conversa CCBConcertos à Conversa CCB
A edição deste ano dos CONCERTOS à CONVERSA no CCB – Centro Cultural de Belém iniciam já este Domingo, dia 15, e acontecerão, sempre aos Domingos, às 11:00 horas, até 5 de Junho, perfazendo um total de 4 concertos.
Miguel Henriques, director artístico da iniciativa e Manuela Paraíso, jornalista responsável pela condução das conversas, convidaram António Pinho Vargas para se lhes juntar, este ano, com o intuito de, por um lado, promover e debater as conclusões da sua tese de doutoramento, já editada em livro, “Música e Poder – Para uma Sociologia da Ausência da Música Portuguesa no Contexto Europeu” e, por outro, propiciar a audição de algumas obras do compositor, atribuindo o apropriado sub-título de “Música sem Fronteiras“.
A este propósito, leia-se:
Concertos à Conversa CCB

Concertos e respectivos programas:
15 de Maio – Sons de Vento, Ritmos de Tempestade (ver programa);
22 de Maio – Música de Veneza, Lisboa, Leipzig e Viena (ver programa);
29 de Maio – Sonatas para Violino e Piano… ou quasi (ver programa);
5 de Junho – Música de Câmara em Boa Companhia (ver programa).

Mai 052011
 

José Augusto Mourão (1947 – 2011)

Jose Augusto Mourao
Nós existimos, nós preservamos no que somos a partir e do desejo do outro. Viver é articular-se, aprender a ser afectado pelos outros – não por si próprio. Um sujeito por si próprio não tem nada de interessante, profundo ou válido. Articular-se, porque um sujeito inarticulado é alguém que sente, faz e diz sempre o mesmo, independentemente do que os outros disserem. Tanta Dificuldade em definir o que um «homem» ou uma «mulher»! E se «homem» e «mulher» fossem seres capazes de solidarizar-se, não com o seu grupo identitário (isso já fazem as formigas e os andróides), mas exactamente com o estranho, esse «facto diferencial»: o outro, os outros?


José Augusto Mourão em “Quem vigia o vento não semeia” (no prelo)


- FCSH da Universidade Nova
- CECL – Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem
- SEMAS
- Instituto S. Tomás de Aquino