Jose Antonio Pinto RibeiroJosé António Pinto Ribeiro, o nosso Ministro da Cultura, fala pouco, diz menos, mas quando ousa a gente até sente que a coisa virá do espaço sideral de tão extraordinária e inovadora!
A 7 de Janeiro, resolveu finalmente assistir ao Mercador de Veneza no Teatro Nacional de São João e aproveita para anunciar que ópera, no Porto, nem pensar em continuar a ser no Coliseu – O Estado financia a Casa da Música em 11.250 mil euros por ano e portanto é necessário que ela consiga realizar integralmente aquilo que é o seu propósito. (via Jornal de Notícias).
Realizar o propósito da Casa da Música deverá ser colocar ópera em salas sem teia nem fosso de orquestra, paradigma de inovação e, muito certamente, aglutinadora de enormes aparatos tecnológicos que nos colocarão, seguramente, muito à frente dos outros países da União Europeia, que ainda tão elementar ideia se não lhes aflorou.
INOV-ARTDeverá ser para cumprir este peregrino salto ‘tecno-inovadoracionista’ que a DGArtes apresenta o INOV-ART, programa inserido no Plano Tecnológico do governo, que se propõe proporcionar uma oportunidade de inserção profissional a jovens com qualificações ou aptidões específicas nas áreas das artes e da cultura em instituições internacionais de referência ligadas ao sector, visando abranger, anualmente, até 200 jovens, chamando eu a atenção para o facto de contemplar áreas como Cruzamentos artísticos, Gestão de Áreas Artísticas, Indústrias Criativas e Marketing e Serviços Educativos e Actividades Artísticas em Meio Educativo.
Esta tão ilustre iniciativa ocorre num país onde existem dezenas de compositores no activo, jovens e maduros com mais de 35 anos, que se vêm à nora para estrear as suas obras e, se o conseguem, nunca mais são executadas uma segunda vez e muito menos gravadas, para conhecimento nosso e para promover processos de internacionalização da nossa cultura. Mas parece não interessar (ou saber) o ministro de tais minudências e, portanto, bora lá a incentivar a inovação dos jovens enquanto o excelente trabalho produzido, embora desconhecido, que vá às malvas
A anterior Ministra foi embora depois de levar com uma petição que angariou mais de 3.000 subscrições, entre artistas de renome e críticos e comentaristas, a exigir a sua demissão, enquanto António Pinto Ribeiro, o José, parece não encontrar qualquer animosidade entre os ditos e referidos.
Talvez seja normal, mas eu, cá para mim, deverá ser mesmo pelo facto de o pouco que diz e faz parecer vir do espaço sideral, i. e., recorrendo à Wikipédia, a porção vazia do universo, onde predomina o vácuo!

Ainda sobre o PU (utilizando a sigla da Jacky) há um aspecto que neste post não foquei, mas que não passou despercebido à Susana Serrano num comentário – as ESE’s! Transcrevo parte dele:

«É uma absoluta irresponsabilidade ministerial!
Durante os últimos 20 anos investiram nas ESEs, em cursos semi-especialistas, de má qualidade geral, para cobrir o 2º ciclo essencialmente e dar formação “mais credível? aos professores do 1º ciclo, deixando mais uma vez “as disciplinas artísticas, menores? de fora do currículo. É verdade, estas últimas, pagas a recibo verde agora e dadas como actividades extra-curriculares, estão na lei, no currículo do 1º ciclo há já muitos anos.Na realidade só o Inglês ainda não fazia parte do currículo do 1º ciclo, era só intenção.
Os resultados do investimento nas ESEs são também muito contraditórios e ainda não foram nem analisados, nem investigados e muito menos avaliados seriamente, assim como tudo neste ME que temos; como tal parte-se para outra mudança. Acho que a maioria das pessoas não acredita nisso e os sindicatos mais uma vez vão pegar no assunto pelo único lado que não deviam.
» Susana Serrano

Com efeito, num momento em que toda a gente já sabe do logro que as Escolas Superiores de Educação (ESE’s) representaram para a diminuição da qualidade do ensino superior em Portugal (com honrosas excepções, claro), esta medida do Professor Único viria dar um novo fôlego ao incrementar as inscrições nessas instituições em detrimento das universitárias, sabendo nós que elas correm sério risco de desaparecer por falta de alunos, i.e., por desinteresse do mercado! (ver notícia do Público 11 de Julho de 2006)
Então, para além da medida ser má para a qualidade do ensino pelas razões adiantadas, ainda se acrescenta esta desconfiança (para não dizer suspeição) de favorecimento encapotado das ESE’s, para mais sabendo que o Secretário de Estado Valter Lemos foi um dos grandes impulsionadores destas instituições, tendo sido Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco desde 1996 e Presidente da Politécnica – Associação dos Institutos Politécnicos do Centro desde 2003, funções só deixou quando foi convidado para este governo!

Assim vai o estado do ensino da gestão cultural – uns dias dispersos pelo ano com um diploma final, seguramente, e subsidiados por dinheiros públicos, nacionais ou comunitários!
É difícil, vai ser muito difícil chegarmos lá se não levarmos as coisas a sério e seriamente.

Manuel Caldeira Cabral, Professor do dep. de economia da Universidade do Minho, publicou em estudo sobre o Ensino Superior em Portugal nos últimos 20 anos. O estudo é passível de download na sua página pessoal.
O que parece que fica demonstrado é que o crescimento dos alunos inscritos é inversamente proporcional à qualidade do ensino prestado pelas instituições do interior, nomeadamente a dos Politécnicos, onde foram cair os alunos que, pela sua muito baixa nota de entrada, não conseguiram entrar noutras locais, só lá indo parar por mero acaso, nunca criando raízes nesses locais. Daí que o estudo aponte para o falhanço do investimento público nessas instituições como forma de fomentar uma política regional.
O melhor mesmo é lê-lo, mas quem pelo interior vai andando vê o que lá está dito – a pressão autárquica, a proliferação de docentes e o exponencial crescimento de cursos sem interesse algum. Por outro lado, apesar de não abordar este aspecto, quem por lá vai andando também vê que o grau de parentesco entre os docentes é, nalguns casos, muito, mas muito, como direi, hilariante.

A Cristina Vieira no Contra Capa pegou no assunto que atrás abordei da cultura e sua gestão aludindo que, por considerar que a cultura é elitista se deveria enveredar pela progressividade de níveis de complexidade na programação e, coincidentemente com uma educação para a arte também progressiva.
Eu compreendo o que a Cristina pretende dizer e aceito que se se optar, exclusivamente, por programações de fruição mais complexa o carácter elitista adensar-se-á. Apesar de o assunto ser demasiadamente vasto e de difícil solução transcrevo para aqui o comentário que deixei no seu blogue embora só seja compreensível se antes lerem o seu texto.

1 – não há cultura elitista – cultura é cultura, é tudo o que nos deixaram;
2 – por deficiente educação o legado cultural cuja fruição requer bagagem prévia foi sendo “apropriado” por cada vez menos pessoas que formaram um grupo restricto e, por outro lado, esse mesmo grupo foi-se fechando e reivindicando a “sabedoria” de fruir só para eles (aqueles a que tu bem inseres na “elite” que referes;
3 – a única forma que encontro para devolver da sua fruição a todos é ela ser objecto de estudo na escola, desde tenra idade, onde as artes não sejam vistas como um apêndice, mas como imprescindíveis para a formação da identidade, tal como a língua e a matemática;
4 – como em qualquer outra área para lá das artes, devemos dar às crianças os clássicos originais, uma vez que elas não são burras e têm uma capacidade de assimilação muito superior a um adulta (como sabes melhor do que eu, a capacidade de assimilação ou de aprendizagem, se preferires, é das poucas coisas que vamos perdendo desde o dia em que nascemos);
5 – qualquer clássico original será sempre melhor do que um sucedâneo do mesmo, uma vez que tudo está datado e a criança deve enquadrar cada obra no seu tempo, para perceber a nossa evolução bem como para compreender, mais tarde, manifestações mais vanguardistas; começar por estas é que seria (e tem sido) um erro de palmatória;
6 – entretanto, para os adultos que não beneficiaram de uma educação deste tipo e que têm direito à fruição artística, pode-se perfeitamente (penso eu) encaminhá-los para manifestações menos complexas, embora sem ceder ao facilitismo e à falta de qualidade;
7 – tudo tem a ver com educação e com gestão cultural e, neste último particular aspecto, com uma gestão criteriosa do investimento e da receita em especial no que concerne aos equipamentos culturais – defendo que, sem nunca ceder na qualidade, deve-se incluir na programação manifestações artísticas mais comerciais de modo a que a receita de bilheteira consiga financiar outros projectos essenciais, mas fora do circuito comercial.

Esta última questão levar-nos-ia à mentalidade vigente (que escrevi noutro sítio) do divórcio entre os actores culturais e os “contabilistas” que saem das nossas escolas de economia. Enquanto não resolvermos esta tendência secular, enquanto os “contabilistas” não forem gestores para olhares para a cultura como um bem a investir e os actores culturais não admitirem que têm um produto para comercializar e rentabilizar, será muito difícil chegarmos a bom porto.

Devia à Cristina Vieira e ao Rui Rebelo uma posição sobre a troca de opiniões que deixaram nesta entrada. A Cristina ia exasperando com a demora, mas entendi esperar pela confirmação oficial(?) da concessão do Rivoli à Bastidores/Produções La Feria.
Confesso que valeu a pena esperar não pelo anúncio público do Presidente da Câmara antes de o apresentar à assembleia municipal, mas pelas reacções. Um espanto!
Uns calaram-se, vergados, talvez por considerarem que, pelo facto de La Feria ser uma garantia de bilheteira, será uma gloriosa vitória política de Rui Rio, enquanto outros, os do regabofe, toca a deitar abaixo La Feria por ser o diabo feito gente.
Rapidamente, porque nisto de posts não convém gastar muita tinta, La Feria merece-me a consideração que devo a quem faz, e com qualidade (não é pouco, não) e adianto que não tenho dúvida de que o produtor/encenador ancalçará êxitos de bilheteira nem dificuldade em admitir uma vitória “política” de Rui Rio.
Certo estou é de que, num momento em que se fala tanto em promiscuidade, em compadrios, em tráfico de influências, abrir um concurso de concessão para o Rivoli onde se exige que o concessionado produza quatro grandes produções anuais para a sala grande e mais quatro para a sala é, no mínimo, muito, mas muitíssimo insuspeito…
Certo estou que uma sala de espectáculos como a do Rivoli apresentar na sala principal 4 espectáculos num ano é ridículo! Imagine-se o que para aí não se diria quanta folha de jornal não se gastaria se a Casa da Música, o CCB, Serralves, S. Luiz, para só citar alguns, fizessem 4 produções/ano! Cairia ao Carmo e a Trindade!
Certo estou de que esta vitória da politiquinha é uma derrota pesada para a cultura e um grave precedente para a gestão das cerca de 70 salas de espectáculo em Portugal, pois permite que as pessoas continuem a não querer saber que a formação de públicos não passa por estes equipamentos, mas pela escola, onde o ensino artístico continua a ser considerado como enriquecimento extra-curricular no 1º ciclo!
O negócio da cultura depende da sua compra, i.e., da vontade de a fruir, e após tantos anos a esbanjar dinheiro na oferta sem qualquer resultado (para mim, peço desculpa se firo alguém, existe um evidente excesso de eventos culturais em Portugal) ainda não aprenderam ou não querem saber que (vou repetir alguém) será através da fruição dos clássicos, da literatura, do teatro, das artes plásticas, da música desde tenra idade, que poderemos almejar a que daqui a uns 20 anos haja público interessado em manifestações culturais, clássicas e experimentais, e que as sustente.
Bem pode argumentar a Cristina que demora e que no entretanto o La Feria chama gente ao teatro. Bem pode ser…, o que não há é dinheiro para tudo nem a “palhaçada” prevista para a sala pequena colmata esta tontice!
4 produções/ano no Rivoli é uma ousadia que só uma pessoa invulgar poderá atingir! Não é o meu caso…, nem me habituo a comer de tudo e a calar, mesmo quando me esfregam nas ventas concursos, como direi, “enfeitiçados”…, talvez!

Lopes-Graça

Faz amanhã precisamente 1 ano que o ministro Santos Silva anunciou a recuperação e edição de parte da obra de Lopes-Graça constante do valioso arquivo da ex-Emissora Nacional.
Missão cumprida! São 10 CD’s com 41 obras seleccionadas por Romeu Pinto Da Silva entre 100 escolhidas entre mais de 1000 constantes do referido arquivo. Total razão ao ministro que na altura afirma que “esta é a melhor maneira de homenagear os criadores, dando a conhecer a sua obra.” (O Primeiro de Janeiro)
Deixo, contudo, mais uma vez, o alerta e o desejo que formulei há 1 ano – que este trabalho seja o arranque da total preservação, catalogação, digitalização e, sempre que apropriado, a edição do vastíssimo espólio da ex-Emissora Nacional.

Ora, então, por um lado:

« (…) a proposta da OCDE para o ensino superior português é que universidades e politécnicos públicos passem, gradualmente, a ser fundações financiadas pelo Estado, mas geridas como se fossem do sector privado. O organismo aconselha também que professores e trabalhadores não-docentes das escolas percam o vínculo ao Estado e deixem de ser funcionários públicos.» (Público)

mas, por outro:

«Caberá ao Governo estipular a estrutura e o número de pessoas que devem fazer parte desse órgão, mas a OCDE sugere que tenha elementos externos à academia e que são parte interessada, os chamados stakeholders.» (Público)

No entanto:

«Neste momento há 11.806 pessoas que trabalham para o Estado através do chamado recibo verde. Em Agosto, um decreto-lei do Governo definiu que a continuidade da relação laboral com avençados ou tarefeiros deve ser avaliada até ao final do ano. (…) Dos funcionários a recibo verde, 5.179 estão colocados no Ministério da Educação, 1.986 na Saúde, 1.020 na Ciência e Ensino Superior (…)» (SIC)

Em que ficamos, afinal?

Enquanto ilustres académicos e pensadores e comentadores se preocupam se a cultura é de esquerda ou direita, se cabe ao Estado ou aos particulares investir (ver aqui), há quem não perca tempo e invista – é o caso da UNICER com o projecto Aquanatur que envolve o Hotel do Vidago, as Pedras Salgadas, as Termas, um acordo com a Fundação de Serralves e Siza Vieira como projectista.
Continuem os excelsos académicos em discussões de treta porque pode ser que entretanto alguém invista e crie riqueza para que possam continuar a dizer coisas e a ganhar a vidinha…
Sobre este assunto ler Apostas… de Alexandre Burmester no A Baixa do Porto.

subscrevo sem mais, Francisco José Viegas.
Não há deserto de programação cultural nenhum, bem pelo contrário! Há excesso, há eventos sem qualquer interesse, há um desprezo pelo público que é "inculto", há uma soberba sobranceira em especial de quem tem dinheiro público para programar e se queixa que "a gente faz e o público não aparece" ou "o dinheiro não chega para nada"!
O que há falta é de gestão desses dinheiros, de acompanhamento e controlo dos projectos e de responsabilização contratual de quem não cumpre com o estipulado!
O erro vem de longa data – não haver uma política de gestão cultural do Estado! O Estado financia um projecto e o que lhe fornecem é o número de espectáculos que foram apresentados e para ele basta!
Programar, convenhamos, não é fácil, mas captar público, pois, a expressão que se apregoa, mas ninguém dela quer fazer caso, é bem mais difícil e não é compaginável com a especificidade do trabalho de criadores ou de programadores – exige experiência e tarimba de gestão, um saber à parte que urge ser integrado no que à cultura diz respeito.