Uma cadeia de supermercados anunciou para o dia de ontem, 1º de Maio, Dia do Trabalhador, uma promoção de 50% na compra de qualquer produto desde que o montante total despendido ultrapassasse os 100 euros. Aparentemente de nada mais se tratou que não fosse mais uma acção promocional destinada a aumentar o volume de vendas, por um lado e, por outro, a chamar novos clientes e a fixar os existentes.
Tudo assim seria não fora fazer coincidir esta acção com o dia feriado de comemoração do Dia do Trabalhador, para tentar, através do inusitado, provocando a sensibilidade de alguns e o espanto de outros, dar uma notoriedade e uma divulgação que transformasse esta promoção numa acção publicitária em larga escala, ou seja, fazer dela notícia relevante.
O sucesso foi estrondoso! O assunto foi o tema de destaque de todos os noticiários televisivos, radiofónicos, de programas de informação com os comentadores habituais, hoje capa de grande parte da imprensa escrita e assunto mais falado nas redes sociais! Julgo que nem os marketeers responsáveis por esta operação ousaram equacionar a amplitude que a sua estratégia e acção viria a tomar.
Chappeau para quem gizou esta campanha publicitária, que sem gastar um cêntimo, conseguiu o que muitos tentam durante uma vida de trabalho sem conseguirem – transformar uma acção eminentemente comercial em notícia de relevo em todos os media e redes sociais!
E acrescente-se a este sucesso primo, vários outros também relevantes como o facto de, através da maciça adesão da procura, fazer esquecer tratar-se de uma cadeia que deslocou para fora de Portugal a sua sede, atitude que a fez perder alguns clientes, o agradecimento de muita gente que passa momentos de grande aflição financeira, o contentamento dos trabalhadores que estiveram a ganhar a triplicar e outros benefícios, como poderem fruir, eles próprios da referida promoção noutro qualquer dia.
Um sucesso em todas as frentes, transformando-se, seguramente, num case study em muitos bancos de ensino superior de marketing e publicidade.
Paralelamente a este sucesso inquestionável colocam-se, para muitos, questões de outra índole, desde políticas, éticas e até morais.
Será que tentou esta rede de supermercados desvirtuar politicamente a importância da celebração do Dia do Trabalhador e, consequentemente, da relevância do trabalho, como alguns se indignam?
Não me parece. Atente-se que as manifestações do 1º de Maio tiveram adesão muito significativa, mesmo em dia de chuva. Por outro lado, pergunto eu, será que algum trabalhador viraria costas ao trabalho para mais recebendo a triplicar? Mas não é esta característica que valorizamos nos nossos compatriotas que emigram? Será que dar trabalho e possibilidade de aumentar o rendimento dos trabalhadores é condenável? Não me parece de todo!
Será eticamente condenável fazer uma promoção no 1º de Maio?
Por que razão haveria de ser mais reprovável neste dia do que noutro qualquer? Se os cidadãos mostraram, por diversas vezes, a vontade de que as grandes superfícies estivessem abertas aos Domingos e feriados não me parece sustentável que venham agora bradar sacrilégio pelo 1º de Maio ser especial! Se quisessem acautelar a situação de aliciar trabalhadores a trabalharem em dias de descanso, então não mostrassem interesse em que esses espaços comerciais estivessem abertos e se legislasse nesse sentido!
E moralmente, será reprovável por se entender como desrespeito por outros que não podem trabalhar e por chamarem clientes para uma enchente sem precedentes dos seus espaços?
Quem atira uma pedra que seja a famílias, que estiveram horas dentro desses espaços superlotados e sem condições para tanta gente acolherem, para poderem abastecer-se com produtos que sem esta promoção não lhes seria possível? Eu não serei!
Fica um último ponto que, propositadamente, deixei para final por ser de somenos importância: não terá sido esta promoção uma atitude de mau gosto e provocatória a muitos cidadãos?
Foi sim, de muito mau gosto e aviltante para quem lutou e luta pela dignidade do trabalho e do trabalhador, mas como deixei de entrar em qualquer espaço dessa rede de supermercados quando deslocaram a sua sede para fora de Portugal, não me senti afectado e muito menos surpreendido com o sucedido, até porque foi muito menos grave a promoção de 1º de Maio do que a desconsideração de zarparem, numa atitude de desprezo pela Pátria e pelo momento que os cidadãos atravessam, com a sede para a Holanda!



Não poderia ter sido mais errado no meu vaticínio e, como deveria ser norma nestes casos, há que apresentar, humildemente, desculpas ao ‘chairman’ da PT, bem como a toda a sua administração. Com efeito, Henrique Granadeiro afiança que a intervenção de partidos políticos, governos e, pelos vistos agora, a Presidência da República não são casos virgens, mas recorrentes e sistemáticos, estranhando o entrevistado não a intervenção estatal em negócios de empresas privadas, mas o alarido político que em torno do caso se fez.